Menos chuva, menos produção

Crise do clima reduz chuva e diminui produção em áreas agrícolas que rendiam o ano inteiro

Mário Bittencourt Colaboração para o UOL, em Vitória da Conquista (BA) Avener Prado/Folhapress
Couleur/ Pixabay

Um dos motivos que fazem a agricultura brasileira ser uma potência mundial é a possibilidade da dupla safra —e pode ser até tripla. Isso significa ter mais de uma plantação e colheita no mesmo ano e no mesmo lugar.

Mas as mudanças climáticas, que estão reduzindo as chuvas, têm causado preocupações aos agricultores, impedindo essa colheita dupla e cortando a produção de alimentos. Para enfrentar isso, pesquisadores buscam alternativas de sustentabilidade.

Dentre as regiões produtoras afetadas, estão as do estado do Mato Grosso e o Matopiba, acrônimo das áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, uma das principais fronteiras agrícolas do país.

Com escassez de chuvas, a segunda safra tem sido praticamente inviabilizada em áreas sem irrigação.

Embrapa

Como ocorrem as duas safras

A realização de duas safras num mesmo local é importante para o país porque reduz a necessidade de expansão para outras áreas de produção e evita a supressão da vegetação nativa, que, mesmo sendo legal, não é bem vista por organizações e entidades que cobram redução do desmatamento e mais sustentabilidade.

Tradicionalmente, por conta das chuvas, o ano agrícola começa no Brasil no mês de setembro, quando são feitos plantios para colheita da primeira safra em janeiro. Logo em seguida, inicia-se a segunda safra, que vai até o final de abril —isto para culturas anuais, como de grãos, cujo ciclo é de quatro meses em cada safra.

Por ser mais lucrativa, a soja é a principal opção de plantio de primeira safra no país, e outras culturas como, milho, sorgo e trigo entram logo em seguida.

A terceira safra (maio a agosto) só é possível em áreas irrigadas. Mas, segundo pesquisadores, a crise climática global tem feito com que o período de chuvas no Brasil dure até seis meses.

Com isso, nas áreas sem irrigação está sendo possível uma boa primeira safra e uma segunda safra arriscada, já que as plantas, que necessitam de chuvas sofrem com a falta de água nos dois meses restantes do desenvolvimento.

Ruy Baron/Valor/Folhapress

Efeitos do clima

Especialistas em agrometeorologia apontam que este cenário já ocorre há alguns anos em áreas de produção de Mato Grosso e do Matopiba, grandes regiões produtoras de grãos, principalmente soja e milho.

E a tendência é o regime de chuvas piorar, dizem pesquisadores, enquanto não ocorre a redução ou neutralização das emissões dos GEEs (gases de efeito estufa), como o gás carbônico (CO2) e o metano (CH4), que virou principal alvo da COP26 (conferência do clima) em Glasgow (Escócia), por se dissipar mais rápido na atmosfera e provocar cerca de 80 vezes mais aquecimento do que a mesma quantidade de CO2.

"Na região do oeste da Bahia, por exemplo, desde os anos de 1980, constatamos redução de 12% na precipitação de chuvas e redução da vazão dos rios em todas as estações estudadas. Muitos produtores já tiveram prejuízos por causa disso", afirmou o pesquisador Marcos Heil Costa, engenheiro agrícola e doutor em Ciências Atmosféricas, da UFV (Universidade Federal de Viçosa-MG).

Em seus estudos, realizados em parceria com outros pesquisadores, Costa diz que ainda não encontrou uma razão para a redução das chuvas no oeste da Bahia e para a redução da vazão dos rios, mas que no caso do Mato Grosso, onde ocorre problema semelhante, o aumento da temperatura dos oceanos e o desmatamento têm contribuído para reduzir as precipitações.

"Para o Matopiba, aparentemente, pode ser é a temperatura do oceano Atlântico Norte, que está esquentando mais rápido que a do oceano Atlântico Sul, necessitam de novos estudos para confirmar. Mas percebemos isso desde os anos de 1990. O clima da região oeste está numa situação bem desfavorável", afirmou.

Líder da equipe de implementação regional do CEPF (Fundo de Parcerias para Ecossistemas Críticos, sigla em inglês), o engenheiro ambiental Michael Becker observa que o problema da falta de chuvas e redução de vazão de rios em todo o país passou a ser acompanhado mais de perto pelo Monitor das Secas, da ANA (Agência Nacional de Águas), que tinha atuação quase restrita ao Nordeste.

Isso é uma demonstração clara do nível preocupante a que chegamos. Pois áreas que antes não tinham necessidade de serem monitoradas agora passam por observação constante e são motivo de preocupação, não só para o setor agrícola, mas também para o abastecimento das cidades.
Michael Becker, engenheiro ambiental

Por isso, ele defende que sejam realizadas ações de recuperação e de manutenção de nascentes e áreas de preservação ambiental para que seja possível a continuidade da produção agrícola.

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Variedades mais resistentes à seca e doenças

Além dos problemas com estiagem, as regiões produtoras de grãos no Brasil, em especial a soja, têm em comum o enfrentamento a doenças que afetam a produtividade, a exemplo dos nematóides, um verme presente no solo —ele entra nas raízes das plantas e impede que ela se desenvolva.

Como alternativa, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) lançou dia 4 de novembro uma cultivar de soja convencional e três transgênicas, com alto teto produtivo, adaptabilidade e indicação para regiões produtoras do Brasil Central, o que inclui Mato Grosso e o Matopiba.

De acordo com a Embrapa, as cultivares BRS 7582, BRS 7080IPRO, BRS 7482RR e BRS 8383IPRO, desenvolvidas em parceria com a Fundação Cerrados e a Fundação Bahia, são resultado do programa de melhoramento genético da empresa, que busca desenvolver e disponibilizar aos produtores cultivares de soja com elevado teto produtivo, estabilidade de produção, sanidade e ampla adaptabilidade.

Pesquisador da Embrapa Cerrados no oeste da Bahia, Geraldo Carneiro disse que a cultivar de soja BRS 8383IPRO tem elevado teto produtivo e estabilidade, com ciclo de 108 dias para o Mato Grosso e 119 para a Bahia.

"Além disso, ela tem resistência moderada ao nematoide das galhas Meloidogyne incognita, que é um problema geral nas áreas de produção de grãos da Bahia", disse ao UOL.

A variedade é indicada para as regiões de plantio no Matopiba (cerrado do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia) e Mato Grosso. As sementes das cultivares podem ser adquiridas junto a empresas sementeiras integrantes da Fundação Cerrados.

Para viabilizar a segunda safra na região oeste da Bahia, estão sendo utilizadas, há três anos, variedades de sorgo, feijão caupi e trigo de ciclo mais precoces, conforme relata o agrônomo Nilson Vicente, gestor executivo da Fundação Bahia.

Eles diz que são plantas que estão se adaptando muito bem e com bons rendimentos. "O trigo, por exemplo, apresenta ciclo de pouco mais de 80 dias, com rendimento de até 101 sacas de 60 kg por hectare", informou.

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