A inflação da feira-livre

Cliente na feira sente inflação e reduz até suco de laranja e cheiro-verde; classe média mantém consumo

Filipe Andretta, Giulia Fontes e Isaac de Oliveira Do UOL, em São Paulo, Curitiba e Fortaleza Isaac de Oliviera/UOL
Isaac de Oliveira/UOL
Feira livre em Fortaleza (CE)

Laranja a R$ 8,90 o quilo; banana prata a R$ 5,90 o quilo; abacaxi por R$ 12 a unidade. Frequentadores de feiras-livres em Curitiba (PR), São Paulo e Fortaleza (CE) têm se deparado com preços mais altos nas barracas. Até o lanche ficou caro: na capital paranaense, comer um pastel na feira custa pelo menos R$ 7.

A alta de preços é generalizada, provocada por fatores como secas e geadas, aumento no valor de insumos (como energia elétrica), do dólar e do preço dos combustíveis (utilizados no transporte de mercadorias).

Nas feiras, alguns clientes dizem que deixaram de consumir certos alimentos para economizar. Outros continuaram comprando, mas diminuíram a quantidade para gastar menos. E há até quem diga que nem reparou na alta dos valores.

Do lado dos feirantes, alguns não querem nem falar em aumento. Os que comentam abertamente dos preços mais altos confirmam que a freguesia sentiu o baque e agora compra menos ou deixa de lado frutas e legumes mais caros.

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Ana Cássia Alves está comprando menos laranja por causa do aumento de preço

Até o suco de laranja foi reduzido

O suco de laranja não está mais tão presente na mesa da família da estudante de pedagogia Ana Cássia Alves, 36. O motivo é o aumento do preço da fruta na feira do Henrique Jorge, em Fortaleza.

A gente reduziu a quantidade de uso de laranja. Fazíamos muito, suco de laranja, chupávamos laranja todo dia, e aí eu percebo que isso diminuiu.
Ana Cássia Alves

Segundo o feirante Wanderson Silva, 32, o preço da laranja aumentou R$ 0,40 por quilo. "Eu pego 200 quilos por dia, então pago R$ 80 a mais do que pagava há dois meses", diz Santos.

Para aproveitar melhor o dinheiro, Cássia, que se tornou a responsável pela economia do lar, adotou estratégia usada por outros frequentadores da feira: comparar os preços dos produtos com os do supermercado para comprar onde estiver mais barato.

É a mesma estratégia usada pela vendedora de cosméticos Maria de Carvalho, 48. "No supermercado, eu compro só no começo da semana, porque tem as promoções. Aí quando passo aqui [na feira] e tem coisa boa, mais em conta, eu compro. "

Carvalho conta que passou na feira e comprou dois abacates por R$ 5, No supermercado, estavam por R$ 8.

Embora só compre na feira se encontrar preços mais atrativos que no mercado, a vendedora diz que também vem notando uma redução do que consegue comprar pelo mesmo valor, em um curto intervalo.

Na semana retrasada, eu comprava cheiro-verde, oito [unidades] por R$ 2. Na semana passada, já foram quatro por R$ 2.
Maria de Carvalho

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Feira no Brás, em São Paulo

'Quem não está incomodado com o preço?'

Cristiane Gimenes, 46, frequenta uma feira no bairro Água Verde, em Curitiba. Acompanhada da filha Maria Clara, 10, a dona de casa compra "de tudo um pouco" —batata, cebola, tomate, pepino e até queijo —para preparar refeições para seis pessoas.

"Meu gasto varia muito, dependendo da semana, mas geralmente não chega a R$ 300", diz.

Ela afirma ter percebido o aumento nos preços, mas diz preferir comprar na feira porque os alimentos são mais frescos. "No mercado, as coisas podem ser mais baratas, mas duram menos", declara.

Para driblar a alta de preços, Cristiane tem comprado quantidades menores e priorizado frutas da época.

O preço de tudo está subindo. Quem não está incomodado com isso?
Cristiane Gimenes

Mas nem todos os clientes da feira têm a mesma percepção. Margô Moraes, 65, frequenta o mesmo local, e afirma que o único preço que lhe chamou a atenção foi o do tomate. Ela diz que não precisou mudar hábitos.

Eu e meu marido temos uma rotina: vamos à padaria, tomamos café e depois compramos coisas na feira. É mais prático e tudo é mais fresco.
Margô Moraes

A empregada doméstica Luzia (que pediu para não revelar o nome completo) frequenta a feira do Brás, em São Paulo. Os preços ali não a incomodam porque as compras são para a patroa, que paga por tudo. "Ela tem dinheiro", diz.

Mas na casa de Luzia em Francisco Morato, na região metropolitana de São Paulo, há cada vez menos carne, arroz e óleo, que "subiram demais".

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Gilberto Caldas está pagando mais caro pelo frango vendido por Edmundo Silva em São Paulo

'Meu custo subiu, a clientela sumiu'

Paulo Boganika atua há 33 anos como feirante em Curitiba. Segundo ele, durante o isolamento social, os pedidos para entrega de frutas triplicaram.

Com a vacinação, os clientes voltaram a frequentar a feira, mas mudaram alguns hábitos: certas frutas saíram do cardápio ou, então, são compradas em menor quantidade.

As pessoas sentiram essa alta de preços. Minhas vendas caíram 20% depois da pandemia.
Paulo Boganika, feirante

Mas falar da alta nos preços não é confortável para todos os feirantes. São eles que escutam a reclamação dos clientes, mesmo que não tenham culpa pela inflação. Muitos dizem que até reduziram a margem de lucro para não espantar a freguesia.

"Produto bom está caro mesmo. Quer produto barato, vai em outro lugar", disse uma vendedora da feira do Brás, em São Paulo, irritada com perguntas da reportagem.

Em Curitiba, o feirante Mauro (que prefere ser identificado apenas assim) diz que o problema está em Brasília, principalmente na corrupção. "É lá que vocês deveriam perguntar o porquê do preço alto", afirma.

Edmundo Silva, da banca "Franguinho na Panela", no Brás, diz que segurou o preço da galinha caipira a R$ 25 por quase cinco meses, mas agora precisa cobrar R$ 30. "Meu custo subiu, a clientela sumiu, não é brincadeira."

Pior para Gilberto Caldas, que tem um restaurante popular no bairro. Por ser cliente antigo, ganha um desconto na galinha que Edmundo vende, mas reclama do preço.

Ele afirma que não pode repassar todo o custo para o cardápio, porque os clientes não têm dinheiro para pagar muito mais.

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Feira em Curitiba: Ivan Franco, catador de material reciclável, espera por sobras de alimentos

5 km atrás de doação de alimentos

Não é novidade que pessoas em situação de pobreza disputam sobras nas feiras. Alimentos que não foram vendidos e não serão aproveitados pelos vendedores costumam ser descartados e viram o único alimento para quem não pode pagar.

Com os preços em alta, Ivan Franco, 48, depende cada vez mais da ajuda de feirantes e comerciantes. O jardineiro e catador de material reciclável mora em uma favela no Parolin, em Curitiba, e carrega seu carrinho na companhia de quatro cachorros por quase 5 km até a feira do Batel, bairro nobre, às sextas.

Ivan já conhece feirantes que separam produtos para doação, mas precisa aguardar até meio-dia, quando a feira começa a ser desmontada. Enquanto o horário não chega, ele recolhe embalagens e recebe alguns trocados de esmola.

Uma ONG doa porções de ração para os cachorros. Um açougue na rua da feira doa cortes de ossos e "gordurinha de frango" para os catadores de papel.

Os produtos que Ivan leva alimentam também a ex-mulher, que mora no mesmo barraco, e os cinco filhos.

Não tenho condição de comprar nem meia dúzia de tomates, está muito caro.
Ivan Franco, catador de papel

Quando a doação de frutas é boa, elas ajudam na renda da família também. "Minha ex-mulher bate tudo no liquidificador e vende pacotes de 'geladinho'", afirma Ivan.

Veja qual foi a inflação de frutas e verduras

Veja quanto subiram os preços de algumas frutas e verduras vendidas em feiras em 12 meses, de acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de setembro:

  • Abobrinha: + 64,93%
  • Batata doce: + 54,28%
  • Mandioca: + 45,27%
  • Laranja lima: + 40,25%
  • Mamão: + 26,02%
  • Pera: + 25,68%
  • Batata inglesa: + 24,71%
  • Tomate: + 24,32%
  • Banana prata: + 22,36%
  • Alface: + 20,6%
  • Abacaxi: + 7,25%

Fonte: IBGE

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