Bolos, marmitas e artesanato

Brasileiros buscam trabalhos informais para driblar o desemprego, mas ganham menos e estão mais vulneráveis

Marcela Lemos Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro WS Studio/iStock

Com o desemprego em níveis recordes no país e a economia enfraquecida, a saída para muitos trabalhadores tem sido apelar ao trabalho informal para garantir o pagamento das contas da casa.

Um estudo da consultoria Idados, baseado na Pnad Contínua do IBGE, mostra que, entre o segundo semestre de 2019 e o mesmo período deste ano, o número de brasileiros sem carteira assinada ou vínculo formal aumentou em 700 mil e atingiu 24,8 milhões de pessoas.

Quase 14 milhões deles recebem até um salário-mínimo, um aumento de 2,1 milhões de trabalhadores nessas condições no mesmo período.

De acordo com especialistas, a alta da informalidade é ruim tanto para o trabalhador quanto para o governo. A formalização como MEI pode ser uma saída para esses profissionais.

O UOL ouviu trabalhadores que perderam seus empregos em diferentes momentos e têm no trabalho informal a única oportunidade de renda. Eles falaram sobre as novas rotinas, a redução de ganhos e a tentativa de investir em negócios próprios. Confira os relatos.

Arquivo pessoal
Kyssula Suelhem faz marmitas saudáveis e já tem clientes fixos

Marmita saudável

Moradora do Rio há 14 anos, a mineira Kyssula Suelhen, 36, só conseguiu trabalhar de carteira assinada na capital fluminense durante cinco anos: de 2012 a 2016 e em duas empresas diferentes. Na primeira, ela foi contratada como vendedora e em outra como auxiliar de tesouraria. Informalmente, Kyssula acumula inúmeras outras experiências: babá, vendedora de cachorro-quente, vendedora de salgadinho, cuidadora de idosos e agora cozinheira.

Desde o ano passado, ela tem se dedicado a produzir e entregar marmitas fitness. Depois de concluir diversos cursos de gastronomia online, a mineira fez da cozinha da própria casa sua nova fonte de renda.

Ela contou ao UOL que a venda das marmitas rende atualmente R$ 500 a menos em comparação com o último salário, mas aposta que a produção das quentinhas vai decolar em breve.

"Hoje já tenho alguns clientes fixos, faço comidas balanceadas, e há uma nutricionista que indica o meu trabalho. O próximo passo é regularizar e fechar um CNPJ antigo e conseguir formalizar a 'marmitaria'. Meu sonho é levar comida saudável para cada vez mais pessoas e viver do meu negócio."

Marcela Lemos/UOL
Thiago Ferreira: "Não tenho conseguido pagar a escola da minha filha"

Camelô na zona sul do Rio

Quem também já trabalhou de carteira assinada foi o camelô Thiago Ferreira, 35. Ele foi empurrado para o trabalho informal em 2013 e não saiu mais. Hoje, trabalha no Largo do Machado, na zona sul do Rio de Janeiro. Em uma barraquinha, com autorização da prefeitura, ele vende tapetes, redes e passadeiras, próximo ao metrô.

Devido aos impactos da pandemia de covid-19 na economia, ele conta que as vendas despencaram desde o ano passado e reduziram a renda dele em 50% em comparação a 2019. Ele diz que tem precisado da ajuda de parentes para quitar as contas da casa, que antes bancava sozinho.

"Não tenho conseguido pagar a escola da minha filha. Antes da pandemia eu conseguia. Pagava tudo sozinho, mas agora preciso da ajuda do meu pai e da minha irmã", afirma.

Thiago conseguiu a autorização para trabalhar na região como camelô há um ano, mas as vendas dos produtos, que chamam atenção na rua pelo colorido, começaram bem antes.

No início, ele vendia as peças de porta em porta em comunidades do Rio. Depois, passou a vender os produtos numa lona, no chão, e recentemente adquiriu a permissão para atuar como camelô.

Arquivo pessoal
Monique obtém apenas 20% do salário antigo

Artesanato de bonecos de feltro

Monique Gomes de Lima, 40, é moradora da Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro. Ela foi demitida em julho do ano passado, depois de oito anos trabalhando como vendedora de roupas em uma loja.

Em setembro, dois meses após a demissão, ela e a irmã resolveram costurar e vender bonecos de feltro. Em cinco meses, a ex-vendedora começou a receber 50% do salário anterior. No entanto, em janeiro deste ano, as vendas despencaram. Hoje, Monique obtém apenas 20% do salário antigo.

"No início, tivemos bastante procura. Fizemos bichinhos para ornamentar festas, uma mãe pediu uma raposa para o filho, que estava internado. Fizemos também lembranças, como chaveiro e imã de geladeira. Eu pensava em ter uma renda com essas vendas, mas por conta da pandemia nem todo mundo está tendo dinheiro para comprar esses itens supérfluos."

Além dos bichinhos em feltro, há jogos educativos para crianças, enfeites e guirlandas de Natal. Um perfil no Instagram foi criado para divulgar os itens. De acordo com Monique, nem a proximidade das festas de fim de ano impulsionaram novamente as vendas. Com as encomendas em baixa, ela espera voltar para o mercado de trabalho formal.

Arquivo pessoal
Bolo que Natasha dos Santos Berto faz para complementar a renda

Ex-merendeira investiu em bolos

A merendeira Natasha dos Santos Carvalho Berto, 32, perdeu o emprego em março deste ano. Ela trabalhava havia dois anos em uma creche em Santa Teresa, na região central do Rio de Janeiro.

No ano passado, quando ela e os demais funcionários receberam a orientação para ficar em casa devido à pandemia da covid-19, Natasha já havia começado a investir na fabricação de bolos decorados.

Depois de ser demitida, restou à ex-merendeira dar prosseguimento ao negócio. Hoje, as vendas são a única fonte de renda dela e representam 80% do salário anterior. Natasha conta que sente falta da estabilidade da carteira assinada.

"As vendas não me dão uma renda fixa, e durante a pandemia acabei me separando. Tenho uma filha, moro de aluguel, então preciso de uma renda certa para não ficar muito enrolada e organizar melhor as contas."

Com as encomendas concentradas para o final de semana, a ex-merendeira busca uma recolocação no mercado de trabalho, na área de atendimento ao público.

Cris Faga/Estadão Conteúdo
Rua 25 de Março, em São Paulo: trabalhador informal está mais vulnerável e rende menos tributos ao governo

Ruim para o trabalhador, ruim para o governo

O professor da FGV EAESP Renan Pieri diz que o aumento da informalidade já era uma tendência antes da pandemia. Agora, tem se confirmado a piora das condições. O trabalho por conta própria, diz o professor, pode ser uma oportunidade de rendimento para muitas famílias, mas a modalidade é ruim tanto para o trabalhador quanto para o governo.

"O trabalhador informal está mais vulnerável não só por ter uma renda média menor, mas também por não possuir proteções sociais que serviriam de seguro, caso ele adoeça ou sofra um acidente. No outro lado, o governo também perde em arrecadação de tributos. A única ferramenta que faria a informalidade cair de maneira positiva seria a retomada mais forte do crescimento econômico."

Pieri explica ainda que há a oportunidade de regularização do trabalhador informal como MEI. "O MEI é uma boa ferramenta de formalização, e é o substituto mais próximo da formalidade."

Formalização como MEI é simples, diz Sebrae

O analista de negócios do Sebrae, Caio Ribeiro, explica que a formalização como MEI é muito fácil e pode incluir trabalhadores de diversas professores, como doceiro, padeiro, pedreiro e eletricista. O Sebrae oferece orientação gratuita sobre o processo de abertura do CNPJ.

De acordo com Ribeiro, a formalização oferece uma série de vantagens e pode ser usufruída tanto por trabalhadores que querem dar prosseguimento à atual atividade quanto por profissionais que têm expectativa de voltar a trabalhar com carteira assinada.

No negócio, uma das vantagens é utilizar o CNPJ para relacionamento com fornecedor e solicitar prazo para pagamentos e descontos, além de oferecer mais credibilidade.

Além disso, o MEI que comercializa vai pagar R$ 1 de ICMS, independentemente do valor que fature, e o MEI que presta serviço paga R$ 5 de ISS. Quem se incluiu nas duas modalidades paga no máximo R$ 6 de imposto.

Além disso, há o pagamento da previdência no valor de 5% do salário mínimo (R$ 60), o que garante aposentadoria por idade, auxílio-doença, auxílio-acidente e salário maternidade.

O trabalhador enquadrado no MEI tem apenas dois deveres: realizar a declaração anual e fazer o pagamento de um único boleto que reúne o pagamento de tributos e contribuição social, que chegam a R$ 61 no máximo neste ano.

Segundo Ribeiro, o trabalhador consegue abrir e fechar o CNPJ MEI no mesmo dia, sem sair de casa".

Ganhando menos, mas feliz

Quem se formalizou como MEI foi a ex-supervisora de autorização de um hospital particular do Rio, Daniele Faria Dunham, de 41 anos. Ela foi demitida em setembro de 2019 e aderiu ao MEI em fevereiro do ano passado como prestadora de serviço. Ela passou a realizar faturamentos médicos. Embora receba ainda 20% a menos do salário pago pelo hospital, ela avalia a troca como positiva.

"Comecei a trabalhar com alguns médicos com que eu tinha contato, comecei a fazer o faturamento deles e vi nesse mercado a possibilidade de conseguir me manter e abrir uma empresa MEI. A parte financeira faz falta, mas o que ganhei em relação à qualidade de vida e saúde vale mais a pena", disse.

Preocupada com a aposentadoria do MEI, que oferece apenas um salário mínimo, Daniele faz ainda um complemento de contribuição mensal para garantir um retorno melhor da previdência. No tempo livre, ela faz ainda peças em crochê para vender - habilidade que desenvolveu durante a pandemia.

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