Chegou a hora do ESG?

Você deixa de ganhar dinheiro se não investir em empresas com preocupação social e ambiental?

Fernando Barbosa Colaboração para o UOL, em São Paulo Getty Images/iStockphoto

Não investir em uma empresa comprometida com ESG pode fazer você deixar de ganhar dinheiro?

Na tradução do inglês, o ESG resume os pilares ambientais, sociais e de governança corporativa. São empresas que cuidam não só do meio ambiente, mas também de questões sociais, como a paridade de salários entre homens e mulheres, a presença feminina no alto escalão de uma companhia, a contratação de negros e minorias sub-representadas, e a ausência de trabalho análogo à escravidão na cadeira produtiva.

O fato é que esse tema é cada vez mais importante, inclusive na hora de investir. Para ajudar os investidores a entender o momento, o UOL conversou com especialistas. Veja o que eles disseram.

Deixar de investir em ESG pode significar perda de oportunidades?

Alocar o patrimônio em empresas que tenham a responsabilidade social como princípio, que sejam corretas ambientalmente e adotem padrões rígidos de governança, é super importante. Mas há boas oportunidades de investimentos?

CIO e sócio da Gama Investimentos, Ian Caó explica que não se pode definir a chance de entrar em determinado ativo por ser ou não ESG. Como é tradicionalmente feito, a avaliação deve ser direcionada para o que deve acontecer com aquela empresa.

"Há muitas incertezas sobre de que forma o assunto será desdobrado. O que é claro é que você não pode investir em um fundo que não considera este aspecto -- o que, há 40 anos, era possível. O esforço governamental vai implicar em regulação, e há uma demanda pelo tema", diz ele.

Para Caio Costa, sócio da Fors Capital, veículo de investimento focado em ESG, mais do que perder oportunidades, é possível aproveitar as existentes. No caso da Fors Capital, seu primeiro fundo foi levantado em 2012. Os investimentos somam US$ 90 milhões em oito empresas, como a Unicoba, que fornece iluminação LED para as grandes cidades.

"Os retornos foram superinteressantes. Fazer isso não significou deixar nenhum centavo de retorno sobre a mesa, e conseguimos medir a geração de emprego, inclusão social e melhoria para a comunidade", afirma. O retorno, garante, foi acima de 25% ao ano.

O próximo fundo da Fors deve ter R$ 500 milhões para adquirir entre sete e dez companhias com o mesmo perfil.

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Alguns investidores tomaram a decisão de não investir em determinadas indústrias. Penso que isso é radical porque ainda temos um caminho a percorrer. Entretanto, se ele tiver a intenção de apoiar empresas que têm uma política forte de ESG, ele tem como ir atrás e selecionar esses ativos.

Caio Costa, sócio da Fors Capital

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É rentável investir em empresas responsáveis?

O CEO e sócio-fundador da X8 Investimentos, Carlos Miranda, começou há dez anos no que chama de "investimentos de impacto". Em 2012, a X8 chegou ao mercado para apostar no "middle market" -- companhias com potencial de crescimento que faturam entre R$ 20 milhões a R$ 150 milhões.

"De alguma forma, pelo nosso ciclo de entrar na empresa, prepará-la durante um período e fazer a saída, pensávamos que seria possível ter mais liquidez e rentabilidade com investimento com essa cara. E isso super se comprovou", afirma.

Um dos testes de comprovação da tese veio com o aporte na Mãe Terra, na empresa de alimentos naturais e orgânicos, em 2013. Miranda não abre os números. Mas, passado quatro anos, a venda para a Unilever resultou em ganhos 12 vezes superiores ao capital investido.

Para manter o ritmo, a X8 lançou um fundo que leva seu nome em meados do último ano. O foco é claro: fazer aportes em empresas que, sem o impacto social, deixam de existir. As investidas mais recentes foram na Vida Veg, de laticínios veganos, e na Home Agent, de call center. Com R$ 150 milhões em caixa e o objetivo de captar outros R$ 50 milhões, o portfólio deve chegar a 12 companhias nos próximos quatro anos.

Olhando para os grandes investidores, as grandes fortunas estão mudando de mão muito rapidamente. Os bilionários muitas vezes estão na terceira geração, e eles estão pressionando os family offices a destinar os recursos para investimento de impacto.

Carlos Miranda, CEO e sócio-fundador da X8 Investimentos

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Mentalidade de longo prazo

Em ano de eleição e aumento da taxa de juros, todo investidor se pergunta: vale investir em ativos de risco, como empresas ou fundos de investimento? Em função do patamar atual da Selic, de 11,75%, a pergunta ganha ainda mais força.

Os especialistas consultados pelo UOL são unânimes em afirmar que a abordagem do assunto não acontece como uma oportunidade de mercado -- como uma empresa com valor descontado, por exemplo. Eventualmente, essas chances podem surgir. Mas a questão é mais estrutural.

O investidor que escolhe apostar em companhias e ativos que adotam o ESG como filosofia pensam no retorno para a comunidade interessada e na sustentabilidade daquele negócio. Além disso, essa vertente mira ativos de longo prazo. Uma das provas é que a redução da emissão de carbono em alguns países podem ter metas até 2050.

A gente tem visto o tema ESG ganhando cada vez mais relevância, tanto ao redor do mundo, e não de modo diferente aqui no Brasil. No mundo, é mais uma realidade do que uma tendência. A maior prova é que mais de US$ 35 trilhões são geridos por fundos que definiram estratégias sustentáveis.
Marcella Ungaretti, head de research ESG da XP Investimentos


Prova disso é que a BlackRock, uma das maiores gestoras de fundos do mundo, com mais de US$ 10 trilhões sob gestão, tem direcionado seus investimentos para negócios com emissão neutra de carbono.

Um caminho que pode auxiliar o investidor é acompanhar de perto o posicionamento daquela empresa em questões sensíveis, como desmatamento, homofobia e racismo. Vale também conferir as políticas ESG no relatório de divulgação de resultados. Uma possibilidade que deve ser considerada é buscar a ajuda de gestores especializados.

Os retornos financeiros e os lucros vão continuar prioritários. Mas a gente tem um objetivo adicional, que é o retorno para a sociedade e ao planeta. É um processo que está iniciando e há uma estrada a ser percorrida.

Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama Investimentos

O ESG não deveria ser uma questão tática, mas estrutural. As pessoas deveriam ser cada vez mais responsáveis e éticas e investir em empresas e fundos que estivessem alinhados a boas práticas social, ambiental, ética e de governança. Não existe uma questão de momento, de fazer isso agora. É uma mudança de postura que as pessoas deveriam ter.

Fabio Alperowitch, sócio-fundador da FAMA Investimentos

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Como evitar o "greenwashing"?

Apesar de o assunto ser fundamental para sociedade, a tarefa de monitoramento do mercado não é das mais simples, segundo Fabio Alperowitch, sócio da FAMA Investimentos e um dos maiores especialistas do país.

"Investir de forma responsável não é fácil. Não existe um selo que garanta que aquela empresa seja responsável", diz Alperowitch. A falta do "selo", ou melhor, de critérios de avaliação bem definidos, pode gerar o famigerado "greenwashing'' -- termo que resume o falso posicionamento de quem não leva a sério tais políticas.

Caio Costa, da Fors Capital, diz que uma boa orientação para evitar colocar o seu dinheiro em ativos sem as diretrizes necessárias é buscar informações nos sites da companhia e verificar se há mulheres representadas no conselho ou a presença de diversidade no alto escalão.

Vale ainda ler os relatórios de corretoras e bancos de investimento. "Vejo alguns bancos estabelecendo filtros e comparando companhias A, B e C em termos de meio ambiente e impacto social. É um trabalho de formiguinha", declara Costa.

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