Banheiro gourmet

Brasil ainda sofre por falta de esgoto, mas banheiro vira moda e fica chique, diz chefe da Duratex

Beth Matias Colaboração para o UOL, em São Paulo
Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL
Simon Plestenjak/UOL Simon Plestenjak/UOL

Sala de banho

Um dos grandes desafios do país é a coleta e o tratamento do esgoto nas cidades. A falta dessa estrutura é um foco de doenças. Numa outra parte do país, mais rica, o banheiro não é tema de saúde, mas de glamour.

Virou moda na classe média transformar o banheiro em área nobre e decorada como se fosse uma sala de estar. A constatação é do presidente da Duratex, Antonio Joaquim de Oliveira, em entrevista exclusiva na série UOL Líderes.

A empresa mudou o portfólio global de negócios. Conhecida no setor de madeiras, tem hoje as marcas Deca, Hydra e Ceusa, no ramo de louças sanitárias e revestimentos cerâmicos, e prepara-se para a área de celulose solúvel.

Oliveira diz que o governo começou "claudicante" e precisa das reformas para que o país volte a crescer. Também considera que vários empregos estão perdidos para sempre com a crise.

Banheiro virou extensão da sala

UOL - Mudou a forma de consumir produtos para o banheiro?

Antonio Joaquim de Oliveira - Mudou, sim. Cada vez mais as pessoas associam o banheiro ou a cozinha a uma área nobre da casa, ao bem-estar e mesmo à moda. Antigamente você falava: "Vou reformar a minha casa", mas não pensava muito no banheiro.

Não chamamos mais hoje de banheiro, muitos chamam de sala de banho. O que isso muda? O banheiro passou a fazer parte do prazer de viver na casa, e por isso se tornou mais sofisticado. O banheiro tem um 'appeal' estético importante, passou a ser uma parte relevante.

A parte onde mais se investe na casa é banheiro e cozinha. Essas áreas molhadas são as mais caras no processo construtivo. Acredito que a grande mudança é a integração disso no ambiente de lazer. O banheiro passou a ser uma extensão da sua sala.

Essa associação dos nossos produtos com moda é muito relevante.

Os consumidores estão mais exigentes?

Sem dúvida alguma. Antigamente você reformava uma casa. A esposa escolhia o sofá, as coisas da sala, mas não estava muito preocupada com o banheiro. Hoje a decisão está muito centrada na mulher, fortemente influenciada por ela, mas também por um arquiteto.

[O banheiro] passou a ser uma parte nobre e importante da casa, isso é muito relevante. E isso sobe a exigência, claro. Não só a parte estética, mas ele precisa ter uma performance funcional perfeita.

A OMS diz que há 2,3 bilhões de pessoas no mundo sem acesso a instalações sanitárias. Como a inovação pode mudar essa realidade?

O Brasil tem um déficit enorme de moradia. Os novos programas de moradias populares têm um papel muito relevante nisso. As novas habitações estão vindo com condições muito mais adequadas. A casa é mais digna, com esgoto e sistema sanitário adequado.

Vamos precisar oferecer uma gama de produtos que atendam esse segmento porque esse desafio de saneamento existe. Embora não seja exatamente o nosso negócio, porque não produzimos tubos, material para esgotos.

Acho que a inovação pode ajudar. Já existem vasos sanitários em que você faz seus exames médicos lá, por meio da urina, e tem os que não utilizam água, por exemplo.

A Fundação Bill Gates está desenvolvendo vaso que não precisa de esgoto.

Procuramos acompanhar. Não temos nenhum produto nessa linha, mas nossa área de inovação está sempre engajada, olhando, buscando qual será o banheiro do futuro, como fornecer uma solução que seja inteligente, adequada.

E ela vai ter que ser muito casada com o processo de saneamento. Mas, se pegarmos uma parte do Brasil e outras regiões como África, um dever de casa antes precisa ser feito, que é o saneamento público.

E eu nem acredito que o maior desafio esteja dentro do banheiro. O maior desafio está na coleta do material nas cidades, nos bairros e no tratamento adequado.

Por que os japoneses são tão inovadores em vasos sanitários?

O japonês é inovador por excelência em todos os setores. É um país pequeno, não tem agricultura de forma relevante. Estive no Japão algumas vezes, mais de cem executivos da Duratex já estiveram lá e discutimos bastante isso.

Estão muito avançados na indústria e muito inovadores, mas eu voltei recentemente da maior feira de louças e metais sanitários na Alemanha, e você hoje vê inovação por todos os lados.

O Japão não é mais inovador, inclusive as grandes empresas japonesas estavam lá com produtos semelhantes aos que nós temos ou ao que o europeu tem. Mas a indústria eletrônica no Japão é muito avançada, e esse casamento de produtos com eletrônica, com conforto, favorece a inovação.

Lazer no banheiro e na cozinha

Governo tem início claudicante

UOL - Qual a sua avaliação sobre o futuro econômico do Brasil?

Antonio Joaquim de Oliveira - Acreditamos que o pior da crise já passou. Estamos com inflação e juros mais baixos e controlados. Existe oferta de crédito. As empresas ainda estão com fábricas fechadas, mas podem retomar. O Brasil tem um mercado forte, e as questões estruturais que levaram à crise, hoje, estão melhores.

Estamos moderadamente otimistas porque ainda temos um desafio nesse campo político importante. Estou muito preocupado com a situação política.

Vemos um governo começando, um governo com boas ideias no campo econômico, sem entrar em méritos de ideologia, uma visão liberal e próxima dos grandes empresários. Boas ideias, planos interessantes, mas eles não estão ainda acontecendo.

É um início claudicante de governo. Há uma degeneração nas expectativas de curto prazo e uma preocupação com as primeiras ações do governo. [Deve] fazer um governo não intervencionista, que favoreça e que avance no caminho das reformas. E eu falo de reformas de um modo geral. Precisamos reformar a Previdência, precisamos de uma reforma fiscal importante.

Atualmente as questões fiscais são discutidas mais no tribunal do que no dia a dia, e isso é muito ruim. [Devemos] avançar minimamente em reformas estruturantes, como a reforma política. Não faz sentido ter essa infinidade de partidos. Eu diria que, se consertarmos minimamente o país, temos todo o campo para produzir bem.

A reforma política é imprescindível. Não se consegue governar com uma situação com mais de 30 partidos no Congresso. Espero uma reforma que mantenha os contrapontos. Precisamos ter direita, esquerda, centro. Isso é natural, mas que tenhamos menos partidos e, com isso, facilitar o processo de governar.

A reforma tributária é um caso antigo do nosso país. Hoje a situação, eu diria, é caótica.

Vou dar um exemplo: temos uma operação na Colômbia e uma no Brasil. Lá na Colômbia, temos três pessoas para cuidar da área fiscal. Aqui no Brasil temos umas 300.

Há uma lei para cada município, uma para cada Estado, uma situação de recolhimento, um incentivo aqui, outro acolá, situações de tributação diferentes, confusas. É muito difícil estabelecer um novo negócio.

Costumamos dizer que o Brasil não é um país para amadores na questão empresarial. Estrangeiros têm uma dificuldade tremenda de operar no nosso país. Isso é ruim porque você deixa de atrair investimento, muitas vezes, porque a questão contábil e tributária é de um caos absurdo.

As condições estruturais do país são boas, muito interessantes. Eu me lembro que, quando me formei há 30 anos, falavam que o Brasil era o país do futuro, e fico esperando. Ainda acredito nisso porque, quando vejo outros países, percebo que nós temos boas condições para desenvolver o país.

O quanto a política interfere nos negócios?

Nós fechamos o ano de 2018 otimistas. Os negócios crescendo, foi um ótimo dezembro, entramos em janeiro com uma perspectiva bastante positiva, e aí as coisas começam a encalhar.

A reforma talvez não saia do tamanho necessário, as articulações políticas não estão sendo bem feitas. O que estamos vendo agora no curtíssimo prazo é um certo desentrosamento político que está afetando a economia. Nossos clientes empresários estão dizendo que vão se segurar um pouco porque realmente não conseguem saber o que vai acontecer.

O que o senhor espera do presidente da República?

Torcemos tremendamente, de forma muito boa, para que dê certo. Porque o país está cansado dessa reviravolta. É muito triste você ter uma situação na qual ex-presidentes da República são presos. Tudo isso é muito ruim, é um processo que nos deixa tristes e envergonhados. Mas acho que é um processo de depuração extremamente necessário e [acreditamos] que o país vá sair disso.

O que espero do governo é que ele tenha serenidade, possa ter competência e se cercar de gente bastante qualificada e tocar. Torcemos para dar certo independentemente de qualquer viés ideológico. O país não vai dar certo se o presidente não der certo, ou, no mínimo, isso vai atrasar muito.

E em relação à corrupção? Acha que ela diminuiu?

Não seu te dizer, não sou especialista. Mas uma coisa é certa: a sensação de impunidade diminuiu tremendamente porque estamos vendo gente importante e corrupta indo para a cadeia. O impacto que vamos sentir talvez não seja na nossa geração, mas na próxima.

Mas existe uma coisa que nos preocupa. Muitas vezes em nossos segmentos, preciso concorrer com gente que ainda opera na informalidade. O nível de informalidade fiscal no Brasil por parte dos empresários é muito grande, e isso tem que ser enfrentado.

Mas como você enfrenta isso? A partir do momento que essa pessoa tenha a convicção de que [a informalidade] não compensa ou que o risco é demasiadamente alto.

Onde estão os países menos corruptos? São aqueles em que a eficiência de Justiça e de leis é muito forte e, com o tempo, a cultura vai mudando. Acredito que, vendo tudo isso que está acontecendo, a nossa geração tenda a ser menos suscetível à corrupção, menos tolerante a essas práticas.

Regras fiscais são caóticas

Alguns empregos voltam, mas outros se perdem com crise

Existe a possibilidade de o mercado voltar a contratar?

Antonio Joaquim de Oliveira - Há essa possibilidade. Quando ajustamos a estrutura, e consequentemente reduzimos mão de obra, existem dois tipos de possibilidade. Nós cortamos muito buscando eficiência. Por isso, muitos postos de trabalho não voltam mais. Por exemplo, suportes administrativos substituídos por sistemas.

Mas existe o grupo que está envolvido na redução de turnos em uma fábrica. Nós temos fábricas de louças sanitárias com dois ou três fornos, com linhas de produção paralisadas. Quando essas linhas voltarem, necessariamente vai haver contratação.

Agora estamos em uma situação em que praticamente não precisamos de mais investimentos a não ser em manutenção. O crescimento vai se dar à medida que passemos a ocupar mais as nossas fábricas, que ainda estão em um nível de ociosidade importante.

Nessa ocupação de fábrica, é imprescindível voltar a contratar. Parte dessa mão de obra volta, e volta rapidamente a depender da velocidade do mercado.

UOL - Quais foram os impactos da crise da construção civil para as marcas da Duratex?

O impacto foi direto, e as características dessa crise foram a abrangência, a duração e a intensidade, todas as três muito fortes. Aquilo que chamamos na economia de tempestade perfeita, porque realmente tínhamos uma situação em que os mercados caíram em demanda, caíram preços, e nós não conseguimos cortar custos e adequar na mesma velocidade.

O impacto foi muito grande em 2014, 2015, 2016 e 2017. Foram anos de crise forte. Em 2017, tivemos que nos adequar à realidade: reduzimos produção, mantivemos fábricas ociosas, tivemos demissão de muita gente, cortamos nossos quadros, cortamos custos, adequamos a capacidade de produção à nova realidade.

O pico da crise para a Duratex foi 2017. Depois, em 2018, tivemos melhora, uma primeira sinalização, mas olhando os números você pode dizer que foi um ano de crise. A nossa expectativa agora é que, quem sabe, 2019 seja o primeiro ano em que possamos falar que realmente estamos saindo da crise. Mas ainda é cedo.

Quanto há de ociosidade hoje nas fábricas?

Se fosse fazer uma média, diria que estamos com 70% de ocupação. Há bastante espaço para crescer só usando os ativos que temos.

Se economia tiver um soluço, emprego volta

A Duratex é assim:

  • Fundação

    1951

  • Funcionários

    11.150

  • Clientes

    27 mil

  • Indústrias

    16 no Brasil e 3 na Colômbia

  • Exportações

    50 países

  • Receita líquida

    R$ 4,9 bilhões (2018)

  • Lucro

    Líquido R$ 431,7 milhões (2018)

  • Concorrentes

    Arauco, Berneck, Eucatex, Fibraplac e Guararapes (painéis de madeira); Docol, Roca e Lorenzetti (linha Deca); Portobello, Elizabeth, Eliane e Cecrisa (revestimentos cerâmicos)

  • Marcas

    Duratex, Durafloor, Deca, Hydra e Ceusa

Não há jeito: fábricas modernas têm menos empregos

UOL - Quais são as soluções para combater o desemprego no país?

Antonio Joaquim de Oliveira - É uma questão importante. Ficamos presos em alguns falsos dilemas. Por exemplo: existem algumas coisas que são inexoráveis. As novas fábricas e os novos processos produtivos são mais automatizados.

Não há como remar contra isso. Se eu faço hoje uma nova fábrica por vezes, não encontro um equipamento que seja menos automatizado. É uma tendência mundial. As fábricas tendem, cada vez mais, a se automatizar, e isso vai implicar menos uso de mão de obra. É um fato.

Por outro lado, existe o desenvolvimento de novas necessidades de mão de obra em outras áreas. Áreas como TI, computação e análise de negócio têm crescido muito. A nossa área de TI cresceu substancialmente do passado para cá.

O que há, por vezes, é uma migração do emprego. Vou citar um exemplo: muitos anos atrás, tínhamos o corte manual de madeira. Ele empregava 4.000 funcionários numa operação florestal, hoje temos 1.500. Foi tudo mecanizado, há tratores.

O que aconteceu foi uma mudança do emprego. Tenho grande dificuldade em encontrar mão de obra para trabalhar no campo, como as usinas de cana. Os filhos dos nossos antigos trabalhadores não querem mais o trabalho do campo, eles estão buscando fazer faculdade, querem trabalhar no escritório e uma carreira mais urbana.

Há um grande crescimento na oferta de empregos em serviços, enquanto em manufatura existe uma tendência a reduzir o número de postos de trabalho.

Tenho viajado muito e vejo a enorme potencialidade do país. Se tivermos dois ou três anos com PIB [Produto Interno Bruto] na casa de 2% ou 3%, vamos ver uma retomada mesmo do emprego, porque existem muitas fábricas paradas, turnos desativados.

Agora, o mercado de trabalho está mudando, o trabalho para o jovem mudou. Acredito que vai haver uma grande mudança no perfil de utilização de mão de obra.

Grande parte dos 12 milhões de desempregados não tem qualificação. Essa realmente é uma mudança?

Sem dúvida nenhuma, notamos uma mudança da qualificação dos jovens que entram na Duratex. Vemos turmas de trainee. Eles estão mais qualificados. Mas isso aconteceu também na Europa. Os jovens estavam mais qualificados, e a demanda de empregos ainda não era suficiente. Há pessoas qualificadas desempregadas por falta de oportunidade.

Que dicas o senhor daria para quem está querendo ter uma carreira de líder?

Primeiro, prepare-se muito porque a barra sobre cada vez mais. Hoje acabou a história de ter um período de estudo e depois um período profissional. Você estuda a vida inteira.

Com mais de 30 anos de Duratex, continuo estudando, continuo fazendo cursos e me aperfeiçoando. E, provavelmente, quando eu me aposentar, terei de entender de alguma outra coisa e talvez tenha que continuar estudando. Investir em formação é muito importante.

Outra coisa é a visão mais generalista. O perfil mais buscado é de um líder mais generalista, com visão mais completa de administração, do ambiente político, ambiente social, um viés de sustentabilidade, é saber ouvir.

Por fim, a última coisa que eu destacaria é que quem quer ser um líder precisa tratar muito bem com gente. É tratar bem gente desde o início, sendo um excelente parceiro nos trabalhos e saber trabalhar com times.

Como é estar entre os cem líderes de negócio de melhor reputação no Brasil?

É uma honra porque há grandes empresários e executivos no Brasil. O Brasil tem uma formação muito forte de executivos, porque é difícil ser um executivo. O ambiente de trabalho é volátil, há incertezas, os planejamentos são feitos e, por vezes, não ocorrem, e isso molda um grupo de executivos muito bem preparados para outros países onde a situação é muito mais tranquila.

Brinco que a única coisa que a gente não faz aqui é morrer de tédio porque todo dia há alguma surpresa.

Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL

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