Caminhões x ônibus

Viajar de ônibus é difícil com trânsito excessivo de carretas do agronegócio, diz chefe da ClickBus

Beth Matias Colaboração para o UOL, em São Paulo Arte/UOL
Marcelo Justo/UOL

As estradas brasileiras não têm um padrão de qualidade, o que dificulta o deslocamento rodoviário no país. Em São Paulo, por exemplo, as rodovias são melhores. Mas no Centro-Oeste, as muitas carretas do agronegócio complicam o trânsito e atrasam as viagens de ônibus.

A avaliação foi feita em entrevista na série UOL Líderes por Fernando Prado, fundador e CEO do aplicativo ClickBus, uma plataforma online para compra de passagens rodoviárias. Prado diz que há um mercado rodoviário clandestino que põe em risco os passageiros e afirma faltar fiscalização.

Carretas em estradas dificultam viajar de ônibus

Ouça a íntegra da entrevista com o CEO da ClickBus, Fernando Prado, no podcast UOL Líderes. A entrevista completa em vídeo com o executivo está disponível no canal do UOL no YouTube. Continue nesta página para ler o texto.

Melhor infraestrutura nas estradas

UOL - Qual é o negócio da ClickBus?

Fernando Prado - É a maior plataforma digital do setor de ônibus rodoviário no Brasil. Basicamente juntamos mais de 150 empresas de ônibus em uma única plataforma online para facilitar a vida dos passageiros e conectá-los a seus destinos.

Como as condições das estradas impactam no negócio?

Esse é um bom ponto. De fato, há cenários diferentes. Como atuamos no Brasil todo, há regiões onde as estradas são bastante boas. Um exemplo, é o interior de São Paulo. Talvez seja a região que está mais bem posicionada nesse aspecto, tanto na qualidade das estradas, quanto na infraestrutura.

Para nós, os pontos de parada dos nossos passageiros são importantes. Nos retornos que recebemos dos clientes, este é um dos pontos que eles sempre ressaltam como oportunidades de melhoria, porque é um lugar para parar, tomar um lanche, usar o banheiro. Por isso, tem que ter o mínimo de infraestrutura.

Desta forma, temos locais como o interior de São Paulo, que tem um nível muito alto, mas também há outras regiões do Brasil onde o nível é mais baixo. Esse é um superdesafio porque não há um padrão.

Obviamente, sabemos que as estradas e a própria infraestrutura não estão nas mãos das viações. É mais uma questão de governo, mas é um desafio para o nosso negócio. Adoraríamos que a infraestrutura como um todo fosse melhor no país inteiro.

Que regiões do Brasil ainda precisam melhorar?

O Centro Oeste. Acredito que por haver muita movimentação de carretas nas estradas, é onde escutamos muita reclamação das estradas, com aquele trânsito de caminhões gigantescos, os treminhões. Há muito comentário sobre essa região, que mistura o agronegócio nas estradas.

E a Região Norte, que também tem algumas hidrovias. É até interessante porque [ônibus de] algumas viações entram em balsas. São desafios naturais. É uma viagem para quem quer aventura, mas, para quem não quer, passa um pouco de perrengue.

Como manter a qualidade dos serviços?

Fazemos uma curadoria das viações parceiras. Temos mais de 150 parceiros. Todo mundo que viaja pela ClickBus tem oportunidade de preencher uma pesquisa de satisfação, que é enviada aos parceiros. A forma de garantir essa qualidade é selecionando os principais parceiros no mercado.

É seguro viajar de ônibus no Brasil?

É seguro. Essas empresas [parceiras] estão viajando há muitos anos, seguem as regras, as leis, têm políticas de sono do motorista, fazem uma manutenção super-responsável dos ônibus.

Por isso, a nossa curadoria é tão importante. Para nós, a segurança é o maior fator. Temos orgulho de falar que nunca precisamos usar o seguro viagem, exceto em casos de extravio de malas, mas nunca tivemos um acidente importante que precisou acessar o seguro.

Ou seja, obviamente alguns acidentes acontecem, mas nada muito grave, exatamente porque essas empresas têm como prioridade a segurança dos passageiros. Esse é o dia a dia deles.

Com a parceria, acabamos ajudando na tecnologia, no marketing e isso dá mais tempo para que eles realmente cuidem da operação, da segurança, dos motoristas, dos ônibus, da qualidade dos pneus, de toda a manutenção. Essas empresas estão muito focadas na operação.

O que é preciso melhorar nas estações rodoviárias?

Nas nossas pesquisas, a rodoviária sempre sai como um espaço com potencial de melhorias. É verdade que há algumas no nível de aeroportos, em alguns casos até melhor.

Mas, se olharmos o Brasil como um todo, não é a maioria dos casos. Da mesma forma que fazemos com as viações, temos rodoviárias como parceiras e as alimentamos com informações dos usuários.

Há um movimento de empresas interessadas nas concessões de estações rodoviárias. Eu diria que, pelo menos nas grandes cidades, a tendência é melhorar o serviço porque é uma concentração de gente muito grande.

A ClickBus é assim

  • Fundação

    2013

  • Funcionários

    150 (Brasil)

  • Unidades

    São Paulo, Rio e Cidade do México (México)

  • Passageiros

    Mais de 5 milhões (2019)

Comprar online mais barato

UOL - Grande parte das passagens de ônibus é vendida ainda nos guichês, diferente do mercado aéreo, que é online. Por quê?

Fernando Prado - Por uma série de razões. A primeira é o próprio comportamento do consumidor. Ele faz isso há 40, 80 anos. Tem esse hábito de ir até a rodoviária. Fazemos um trabalho de comunicar que é possível comprar online, mas há muita gente que ainda não sabe.

O segundo ponto é que a oferta de ônibus é muito grande, é muito maior que o avião. O avião tem uma limitação física dos slots [direito de pousar ou decolar em aeroportos congestionados]. O ônibus tem muito mais flexibilidade.

Por exemplo, São Paulo-Campinas tem saídas [de ônibus] a cada 15 minutos. Com raros momentos no ano, como final de ano, a disponibilidade é grande. A pessoa sabe que chegando à rodoviária terá assentos no trecho que ela busca. Ela não precisa antecipar a compra.

E por último, a questão do preço. Acredito que uma das coisas que fizeram com que os clientes do avião migrassem para o online foi para garantir um preço melhor, porque, quanto mais próximo da data do embarque, mais caro.

No ônibus, a questão do preço começou a mudar muito nos últimos dois anos com a regulamentação. As leis, até uns dois anos atrás, fixavam o preço do ônibus de uma forma que só anualmente era possível reajustar. O viajante do ônibus sabia que aquele trecho custava aquele valor se ele comprasse três meses antes, dois meses antes, um mês antes ou uma hora antes.

Se o preço não varia, porque eu vou comprar pela internet? Essa lei mudou [agora é possível fazer promoções, mas não aumentar o preço]. Isso vai começar a levar as pessoas mais para o mundo online, mas é uma coisa recente.

Hoje mais ou menos 10% das pessoas que viajam de ônibus compram online. Em dois anos, esse número pode chegar a quase dobrar. Nos próximos cinco, dez anos vai ser um cenário muito parecido com avião [de compra online].

E como é a experiência de compra online do passageiro de ônibus?

O mercado online ainda está no início. A ClickBus está no mercado há seis anos. É possível comprar passagens de ônibus online há mais ou menos nove anos. Antes disso, não havia opção. Quem compra online uma vez não volta mais porque é muito conveniente.

É mais fácil e tem vantagens: é possível parcelar em 12 vezes. Na rodoviária, o passageiro acaba pagando em dinheiro. Temos muita oportunidade de crescer.

Como é que surgiu a ideia de criar um site de mobilidade rodoviária?

Existiam diversas soluções online para os viajantes de avião e nenhuma solução para os viajantes de ônibus. Tivemos essa ideia de trazer uma solução para a grande maioria da população brasileira, que tinha uma experiência ruim de viajar de ônibus sem o apoio das ferramentas digitais.

Quem já viajou de ônibus sabe como é: você vai até uma rodoviária, muitas vezes não sabe que viação faz aquele trecho que você está buscando. Saí de um quiosque e vai até o outro, acha aquela viação é quando vê, acabou [a passagem].

Daí sai correndo para o outro, que não aceita cartão de crédito. É uma experiência não agradável você comprar uma passagem de ônibus no mundo offline. No mundo online, em questão de um minuto, você seleciona para onde quer ir e mostramos todas as opções, com preços e horários.

Este ano, aconteceu uma mudança muito importante no mercado, que se passou a aceitar o e-ticket. Você vai com seu celular, o seu código de barras, embarca direto e viaja.

Quais são serviços que vocês oferecem?

Nós oferecemos um serviço de planejamento porque você consegue, mesmo antes da sua compra, planejar. Quero fazer uma viagem para as cidades históricas de Minas Gerais, por exemplo.

É possível planejar o seu roteiro até mesmo antes da compra, todas as opções. Quais são os melhores caminhos, os valores.

Vendemos seguro viagem, que pode ser pago no cartão de crédito. Você pode parcelar uma passagem de ônibus em até 12 vezes, pagar por transferência bancária.

Que problemas enfrentaram no início?

O nosso grande desafio foi convencer as empresas de ônibus de que o trabalho iria beneficiar a indústria de ônibus como um todo. Muitas empresas entenderam na hora, algumas ficaram mais receosas com esse mundo da internet.

Muita gente que não viaja de ônibus há muito tempo acredita que o mundo rodoviário é aquele de 20 anos atrás. Hoje muita coisa mudou. Ele pode comprar pelo aplicativo e embarcar direto. Os ônibus são muito bons, as viações nos últimos 15 anos renovaram praticamente a frota inteira.

Estamos falando de ônibus de qualidade, com segurança, políticas de sono para os motoristas, de segurança. Por exemplo, uma viagem São Paulo-Rio de Janeiro, é uma rota que tem ponte aérea de avião, mas é a rota que mais tem ofertas também de ônibus. São mais de 130 opções diárias de saídas.

Sem falar na questão do preço. Você consegue viajar para o Rio de Janeiro mais barato do que se despachar sua mala de avião. Conseguimos vender passagens para o Rio de Janeiro por R$ 40,00. As viações fazem preços promocionais.

Como vocês fazem a avaliação dos serviços oferecidos?

O primeiro critério é o cadastro na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Confirmamos o aspecto legal. Do lado do consumidor, é o feedback do cliente. Há uma nota dada pelos clientes [para a viação]. Eles avaliam alguns critérios que estabelecemos de qualidade, de pontualidade. Os clientes avaliam com uma nota.

Muitas vezes uma viação pode estar com uma nota ruim. Fornecemos informações, ela faz as melhorias e vemos como os clientes reconhecem as melhorias e a nota vai aumentando.

Algumas claramente começam a perder espaço porque não estão reagindo. O mundo online tem essa característica de ser muito transparente. Os clientes falam o que acham, expomos, e cada viação toma suas atitudes. Quem não tomar, acaba ficando para trás.

Marcelo Justo/UOL Marcelo Justo/UOL

Acredito que [o país] deveria tributar menos o consumo e mais a renda. É uma forma mais justa de conseguir equilibrar: quem ganha mais paga mais, quem ganha menos paga menos.

Fernando Prado, fundador e CEO do aplicativo ClickBus

Falta fiscalização nas estradas

UOL - Falta fiscalização do governo nas rodovias?

Fernando Prado - Sem dúvida falta. O Brasil, é muito grande, então é difícil fazer [a fiscalização]. Mas, sem dúvida, falta sim.

Vira e mexe vemos uma força-tarefa apreendendo um monte de ônibus. É quando você vê a qualidade dos ônibus. Realmente, que bom que eles acabaram apreendendo porque a chance de acontecer um acidente seria grande.

E o mercado clandestino rodoviário? Como combater?

Isso é um fato. Existe, e é uma pena porque neste mercado paralelo os padrões de qualidade são bem mais flexíveis e é aí que acabam acontecendo esses acidentes.

Acompanhamos de perto as viações em um trabalho muito forte em nível governamental de regulamentação e ao mesmo tempo de fiscalização. Somos a favor de quanto mais dinâmico o mercado, melhor, contanto que a segurança seja um requisito não negociável.

Mas é difícil combater. Acredito que o mercado esteja se desenvolvendo, ficando mais dinâmico, tendo mais opções, e vai naturalmente suprir a demanda desse público que prefere arriscar a vida para pagar um pouco menos.

Sem medo das aéreas low cost

UOL - E a entrada das aéreas low cost no Brasil?

Fernando Prado - É sempre bom ter mais opções para os consumidores. Mas a beleza do ônibus é a capilaridade. As low cost irão voar para cidades onde há aeroportos, e estamos falando de mais ou menos 80 aeroportos no país, sendo que o Brasil tem mais de 5.000 municípios. E em cada município há uma rodoviária.

O ônibus tem um papel social muito importante porque, mesmo que o primeiro trecho seja de avião, muitas vezes é preciso pegar um ônibus para chegar ao município. As low cost podem ser uma opção a mais.

Houve transferência de clientes para o ônibus com o aumento das passagens aéreas?

Sentimos, especialmente em 2019. No meio do ano, houve uma reformulação dos players aéreos, a oferta diminuiu e os preços subiram muito. Vimos o impacto em relação à migração.

O interessante é que vimos um crescimento maior nas vendas de poltronas que chamamos de "não convencionais". São poltronas leito-cama e leito, com preço um pouco maior do que a convencional, mas ainda mais baixo do que o do avião.

Esse movimento aconteceu em rotas de até mais ou menos 500 quilômetros, em que se consegue fazer numa noite, por exemplo, ou no período de cinco, seis horas, ao longo do dia.

Quando acontece um problema com ele, o cliente vê a ClickBus como responsável direto?

Sim, ele confunde. Afinal, ele comprou na ClickBus. Nós também nos sentimos responsáveis porque realmente participamos daquele processo de compra. O atendimento para nós é uma área-chave.

Tentamos responder a todas as perguntas de forma digital. Também temos canais tanto por telefone como por WhatsApp, Facebook pelos quais eles podem entrar em contato e tirar dúvidas. Nos sentimos corresponsáveis por qualquer que seja o problema envolvendo o cliente da ClickBus.

Qual que é o maior desafio hoje na área de inovação e tecnologia?

O grande desafio é levar todos os clientes para os seus destinos. Ainda temos alguns clientes que buscam uma rota e não conseguimos entregar. Esse é o indicador de desempenho que mais nos angustia porque convencemos a pessoa a vir até a nossa plataforma para fazer uma busca. Quando não temos aquela rota, é uma frustração.

Muitas vezes, conseguimos fazer parte dessas rotas usando tecnologia. Entra o algoritmo que mostra qual é o melhor caminho entre as rotas disponíveis e faz as conexões, vendo os horários, o menor tempo de espera numa rodoviária.

Nosso sonho é que possamos entregar todas as possibilidades de viagem a todas as pessoas que entrarem na plataforma e buscarem uma passagem de um ponto A para B.

A ClickBus chegou a ter operações em 13 países, hoje está em dois. O que aconteceu?

Em 2013, quando começamos, houve um investimento de um fundo que nos provocou a testar esse modelo de negócios em vários mercados para saber onde funcionaria melhor. Havia poucas empresas com o modelo de negócios da ClickBus. A ideia era chegar primeiro.

Abrimos em 13 países -Tailândia, Filipinas, Paquistão, Indonésia, Polônia, Alemanha, Turquia, Romênia, República Checa, Brasil, México, Colômbia e Peru. Viajamos ao redor do mundo.

Foi superinteressante, desafiador. Depois de um ano e meio, tomamos a decisão de fechar a operação porque o modelo não funcionou. Por exemplo, na Ásia, as empresas de ônibus não tinham software. Elas disponibilizavam dois assentos, eu vendia e elas me davam mais dois assentos.

Era uma coisa mais offline, ou seja, que funciona de certa forma, mas para escalar já é mais complicado. Na Europa, naquela época as pessoas não viajavam muito de ônibus.

Mas todo esse conhecimento, mesmo nos países em que não seguimos com a operação, está guardado e não descartamos voltar para alguns deles. Mesmo porque o que sabemos hoje, comparado ao que sabíamos há seis anos, mudou muito. Muito do que fizemos, faríamos de forma diferente. Hoje estamos operando no Brasil e no México.

Como é que a crise econômica impactou no negócio de vocês?

A crise econômica, sem dúvida, impactou todos os mercados e o mercado de ônibus. Mas o mercado online cresce independentemente da crise. Ele cresce pela mudança de hábitos dos consumidores, e estamos surfando essa onda.

Além disso, a crise deixou as pessoas mais sensíveis ao preço. Houve um momento em que muita gente passou a viajar de avião porque a renda geral aumentou.

Mas, depois que a renda começou a sofrer, muitas pessoas que tinham mudado de modal voltaram para o ônibus por uma questão econômica porque, invariavelmente, a passagem de ônibus é mais barata do que o avião, ainda mais se você deixar para a última hora.

O que o Brasil precisa fazer na reforma tributária?

Acredito que devesse tributar menos o consumo e mais a renda. É uma forma mais justa de conseguir equilibrar: Quem ganha mais paga mais, quem ganha menos paga menos.

Na sua opinião, rodoviárias, aeroportos e estradas devem ser privatizados?

O modelo de concessão vem se mostrando um sucesso. Acredito que nos aeroportos, é possível sentir a melhoria com as empresas privadas prestando serviços e tendo que seguir regras que foram estabelecidas no momento da concessão. Vemos esse movimento também com as rodoviárias. É um pessoal experiente que está fazendo a administração de terminais..

A ClickBus vai chegar aos ônibus urbanos?

Acredito que ela pode chegar, mas ainda há muito espaço nos ônibus intermunicipais. Acredito que, por enquanto, vamos ficar entre as cidades.

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