Sem sinal no smartphone

Burocracia faz instalação de antenas demorar até 2 anos, o que afeta sinal de celular, diz chefe da Ericsson

Beth Matias Colaboração para o UOL, em São Paulo
Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL
Simon Plestenjak/UOL Simon Plestenjak/UOL

Antenas burocráticas

A sua internet no celular é boa? Se não for, a culpa pode estar na burocracia. A depender da região, as antenas de transmissão de celular podem levar até dois anos para serem instaladas. É o caso de São Paulo, afirma o presidente da Ericsson para o Cone Sul da América Latina, Eduardo Ricotta, em entrevista exclusiva na série UOL Líderes.

Para diminuir o problema, o executivo defende a criação de uma lei federal que regulamente o assunto, temendo que, com a chegada do 5G, que tem uma cobertura menor por antena, o gargalo fique ainda mais grave.

Ricotta diz que a infraestrutura de telecomunicações no país é boa, mas pede revisão da lei de telecomunicações, que exige das operadoras a manutenção de orelhões sem uso. Para ele, é preciso redirecionar esse investimento a questões que façam diferença na vida da população.

O presidente da Ericsson ressalta que é preciso encontrar uma forma de diminuir a desigualdade na cobrança dos impostos no país. Consumidores de pequenas cidades pagam o mesmo imposto de grandes centros urbanos, onde a cobertura é melhor.

Cobertura é ruim porque novas antenas demoram até 2 anos

UOL - Do que o Brasil precisa em termos de infraestrutura para ser competitivo?

Eduardo Ricotta - Acredito que é preciso ter um viés de infraestrutura nos leilões [de telefonia], e não um viés arrecadatório. Entendemos que esse viés arrecadatório não resolveu o problema de infraestrutura do nosso país.

Fizemos um estudo dentro da Ericsson que mostra que o Brasil é o país onde o espetro [canais de transmissão] é o mais caro do mundo, levando em consideração mais de 50 países e a renda per capita do brasileiro. É importante acertar essas regulamentações e o preço do espectro.

Outro ponto é em relação à lei das antenas. Hoje a Ericsson leva de um mês a dois anos para instalar uma antena dependendo da cidade. As leis estão nas mãos dos municípios. Cada um tem uma interpretação da lei. Existem lugares onde é muito fácil colocar uma antena e fazer uma cobertura e há lugares onde é extremamente difícil. Muitas vezes reclamamos que não há cobertura, mas ninguém lembra que temos de esperar, às vezes, até dois anos dependendo da cidade.

Poderia explicar melhor o que é o espectro?

Para prover o serviço móvel, cada operadora precisa adquirir o espectro, que são os canais pelos quais fazem as transmissões de dados e voz. É como um grupo de comunicação: precisa de espectro, de frequência, para atingir a população. No caso das operadoras, é igual.

Quais são os lugares mais difíceis para colocar as antenas?

São Paulo é um exemplo típico. Em São Paulo, levamos de um a dois anos para colocar uma antena, dependendo do caso.

Existe uma explicação para isso?

É a própria regulamentação que faz levar esse tempo. Como simplificamos isso? Acreditamos que a lei deveria ser federal e não municipal, para que houvesse um único entendimento e conseguíssemos de forma mais rápida fazer uma boa implementação nas cidades.

Aliás, com a chegada do 5G o problema vai aumentar. No 5G, usamos frequências mais altas e, com isso, temos uma cobertura menor para cada antena. Vamos precisar de dez vezes mais antenas do que temos hoje. O problema será multiplicado por dez daqui a alguns anos. Precisamos ter uma regulamentação melhor das leis das antenas.

Mas haverá espaço físico para colocar tantas antenas?

Com a tecnologia, as antenas têm diminuído de tamanho. É possível fazer antenas que praticamente as pessoas não enxergam. Há uma adaptação também do portfólio com a chegada do 5G para haver uma poluição virtual menor.

Burocracia e impostos atrapalham o país, diz presidente da Ericsson

A entrevista completa em vídeo com o presidente da Ericsson está disponível no canal do YouTube do UOL. Continue nesta página para ler o texto.

Infraestrutura do Brasil não fica para trás

UOL - O Brasil está muito atrás em termos de infraestrutura?

Eduardo Ricotta - Não acredito que o Brasil esteja atrás. Quando comparamos com Europa, Ásia e Estados Unidos, temos um nível de serviço bom. Na questão do 5G, acredito que estejamos alinhados com o resto do mundo.

Como levar velocidade de dados em um país de diferenças continentais como o Brasil?

Quando tivermos uma política pública que incentive a ampliação das redes, teremos como levar mais dados para mais hospitais, mais escolas e cidades que não estão cobertas hoje por uma rede móvel. Isso não é diferente no campo, que é um dos setores mais importantes da nossa economia.

Hoje quase 21% do nosso PIB [Produto Interno Bruto] é conectado ao agrobusiness, e ainda vemos no interior de São Paulo, no Mato Grosso, muitas áreas sem cobertura. Quando tivermos uma política pública com viés de cobertura, de infraestrutura, vamos conseguir melhorar a disparidade que existe no nosso país.

O que mudou na tecnologia móvel até agora?

A tecnologia vem mudando rapidamente. Começamos no 2G, quando era possível fazer só uma chamada de voz. Com o 3G, começamos a ter também os dados, a surfar na internet de forma mais rápida. O 4G praticamente trouxe os dados em redes.

Para dar um exemplo bem prático: baixar uma série da Netflix. Anteriormente, para fazer um download no iPad levaria uns cinco dias. Hoje, com a tecnologia disponível no 4G e em breve no 5G, que aumenta ainda mais a velocidade de conexão, é possível fazer em segundos.

Em segundos, será possível fazer um download de uma série inteira.

O que vai mudar na vida do consumidor a chegada do 5G?

Há dois pontos fundamentais: o primeiro é a questão da velocidade. Aumentará muito a velocidade de conexão, para navegar na internet, para fazer download e upload de vídeos.

Outro ponto importante é o que chamamos de tempo de resposta, que vai diminuir muito com o 5G. Isso habilita novas aplicações para o mercado brasileiro. Começaremos a ver muitas aplicações de telemedicina, carros autônomos, colheitadeiras autônomas para o agrobusiness, uma série de aplicações novas.

Poderia explicar mais como se dará a aplicação na prática?

Hoje você tem uma colheitadeira, por exemplo, sem motorista. Quando há um obstáculo na frente, é preciso parar imediatamente. Com as tecnologias atuais disponíveis, o tempo de resposta é muito grande, e não é possível fazer a automação de alguns serviços.

Com a chegada do 5G, quando o tempo de resposta for 50 vezes mais rápido, é possível ter mais precisão. Em uma colheitadeira que opera remotamente será possível, quando aparecer alguma pessoa ou animal na frente, parar em um tempo muito mais rápido, com precisão.

Haverá uma conexão muito melhor?

Com certeza. Costumo dizer que há muitos anos a gente começou a conectar cidades, depois a gente conectou as casas, por meio do telefone fixo, depois conectamos as pessoas, com o telefone móvel, e agora estamos conectando as coisas. Por isso que chamamos internet das coisas, porque é a comunicação de máquina com máquina.

Como a Ericsson entra nesse mundo do 5G?

A Ericsson é uma empresa de tecnologia, nós desenvolvemos o 5G. Das 25 redes de 5G que foram lançadas comercialmente no mundo, a Ericsson participa de 18, o que significa 72% dos lançamentos mundiais nos Estados Unidos, Europa e Ásia. O nosso "core business" [negócio principal] é desenvolver a tecnologia, é desenvolver o 5G.

Com o 5G, será possível fazer um download de uma série inteira em segundos.

Eduardo Ricotta

Eduardo Ricotta

Desperdício com telefones públicos sem uso

UOL - Como o senhor vê a Lei das Telecomunicações do Brasil?

Eduardo Ricotta - Esse é um bom tema porque as leis foram feitas há mais de 20 anos. Precisamos ter uma adaptação dessas leis. Há um projeto agora tramitando no Congresso, que é a PL 79.

Esperamos a aprovação dele porque é uma adequação de uma lei que foi feita há muito tempo. É importante para o progresso do Brasil termos essas aprovações e adaptarmos o mercado.

Essas leis foram feitas há muitos anos, existia orelhão, hoje já não existe. É preciso colocar o investimento onde realmente é importante para a população.

O que essa nova lei traz de benefícios?

As leis que temos no Brasil são muito punitivas, não propositivas. Esperamos que, em vez de punir, as leis estejam mais adequadas ao novo cenário, que possam melhorar os serviços em todas as cidades.

Pode dar um exemplo de punição?

O próprio caso do orelhão é um exemplo clássico. Hoje as operadoras precisam investir, têm obrigações para fazer manutenções em orelhões e gastam um dinheiro enorme para cumprir a lei. Mas na verdade os investimentos deveriam ser direcionados para melhorar a capacidade da rede móvel ou da fibra que está sendo colocada.

É o direcionamento desse investimento que precisa ser adaptado com essas regulamentações. Esse é um caso típico, que é muito punitivo e poderia ser mais propositivo.

Mas sem orelhões não estaríamos punindo as pequenas cidades que não têm redes?

Hoje todo mundo tem celular. Temos casos de orelhões que ficam anos sem fazer uma chamada. Hoje o mundo mudou até nas pequenas cidadezinhas. As pessoas têm celular em locais onde não há rede.

Já vimos muitos casos de pessoas que têm celulares e apenas os usam quando vão para uma cidade maior. Acredito que temos de direcionar o investimento para onde realmente vá fazer uma diferença para a população.

A Ericsson é assim:

  • Fundação

    1876 (mundo); 1924 (Brasil)

  • Funcionários

    92 mil (mundo); 3.000 (Brasil)

  • Unidades de atendimento/mundo

    180 países

  • Faturamento

    210,8 bilhões de coroas suecas (US$ 21,9 bilhões), em 2018, no mundo

  • Lucro

    1,2 bilhão de coroas suecas (US$ 124,4 milhões), em 2018, no mundo

  • Porcentagem de mercado dominada pela empresa

    40% do tráfego móvel global; 50% do mercado brasileiro

  • Principais concorrentes

    Nokia e Huawei

Reduzir impostos e exportar mais

UOL - Como o senhor vê a questão dos tributos na área das telecomunicações?

Eduardo Ricotta - Temos uma cadeia de impostos muito alta, é um dos tributos mais altos do mundo. Há cidades extremamente pobres que pagam a mesma taxa de imposto do que paga uma cidade grande. Temos de encontrar arcabouços regulatórios para diminuir essa desigualdade.

É preciso também fazer políticas públicas olhando para fora do Brasil. Hoje fazemos olhando para dentro, e eu gostaria que olhássemos para fora. O Brasil precisa ser competitivo na Índia, no Japão, na Europa, nos Estados Unidos. Como fomentar esse mercado para ter mais exportação?

25% da economia do mundo é exportação. No Brasil, é apenas 12%. Grande parte desses 12% são produtos agrícolas. Eu acho superimportante fazermos uma política pública forte para melhorar a exportação no Brasil. Olhando para fora e com uma carga tributária menor, com certeza conseguimos mudar esse cenário.

A reforma tributária vai ajudar nessa questão?

Não tenho dúvida. Nós vamos melhorar o ambiente interno e melhorar a exportação. É assim que vamos conseguir fazer o Brasil crescer.

De quem é a responsabilidade pela ampliação da cobertura de dados no país: do poder público ou das empresas concessionárias?

No Amazonas, a cada R$ 15 de conta que o consumidor paga, quase R$ 5 são impostos. Em lugares que são carentes --cidades onde não há cobertura ou ela é muito ruim--, deveríamos pensar de forma diferente.

Será que não deveríamos cobrar menos impostos nesses lugares para ter uma cobertura melhor para a população? A questão é que o dinheiro para fazer investimento é limitado e temos que usar da melhor forma possível para beneficiar a população.

Como é a relação da Ericsson com as empresas que distribuem essas redes de dados? E quais são essas responsabilidades?

É uma relação de muita confiança. Prestamos serviços para todas as operadoras no Brasil hoje em dia. Começamos aqui no Brasil a implementar a rede móvel 2G, depois o 3G, 4G e esperamos ser um fornecedor forte no 5G também.

Temos muito orgulho porque possuímos uma operação que está há 95 anos no Brasil funcionando. Temos fábrica em São José dos Campos [SP], de alta tecnologia, que está funcionando há 60 anos, e temos um centro de pesquisa e desenvolvimento há mais de 48 anos. Possuímos mais de 108 patentes criadas aqui no Brasil, que usamos em todo o mundo.

O mercado de tecnologia móvel no Brasil cresce no mesmo ritmo do mercado mundial?

No Brasil, crescemos numa velocidade maior que o mercado mundial. Temos alguns estudos dentro da Ericsson que mostram, por exemplo, que no mundo o tráfego de dados, entre 2019 e 2025, vai crescer em média 40% ao ano.

No Brasil crescemos mais de 100% ao ano. O brasileiro tem uma dependência do celular muito maior do que em países na Europa ou nos Estados Unidos porque lá há menos conexões de fibra. O brasileiro é muito dependente do telefone móvel.

E existe uma explicação para essa dependência?

É a própria falta de infraestrutura básica. Temos de lembrar também que o brasileiro gosta de internet, gosta de redes sociais. O Brasil é onde os consumidores estão mais conectados.

Se você compara o número de horas por dia, estamos em níveis do Japão. São várias horas por dia na média, então isso também ajuda.

No passado, a Ericsson foi percursora dos celulares. Existe alguma possibilidade de a empresa voltar para o mundo dos celulares?

Acho que não. A Ericsson é uma empresa superfocada, e acredito que o mercado de celulares é muito diferente do nosso "core business". Pelo menos nos próximos anos eu não vejo que a empresa tenha uma estratégia para voltar a fazer celulares.

Como se manter em uma empresa durante muitos anos, como é o seu caso, trabalhando com tecnologia?

Estou na Ericsson há 25 anos, mas passei por muitas áreas. Sempre foi muito dinâmico, trabalhei fora do Brasil, morei fora, trabalhei com quase todos os países da América Latina, trabalhei em diversas áreas, com diversos clientes.

Como é uma empresa muito grande, apesar de estar na mesma empresa, a cada dois anos eu estava fazendo algo diferente. Isso que me ajudou a ficar na empresa até hoje.

Que dicas o senhor daria para construir uma carreira de sucesso?

Fazer o que você gosta, esse é o ponto principal. Independentemente da profissão que você escolha. Quando você faz as coisas com vontade, com amor, com garra, você consegue ir muito mais longe e você trabalha feliz, que é o mais importante.

Obviamente você tem de ir se aperfeiçoando. Eu sempre estudei muito, sempre tive curiosidade e vontade de morar fora, o que te dá uma experiência não só profissional, mas pessoal, muito importante.

O convívio com outras culturas, entender a cultura da empresa em que você está trabalhando, essa é a dica que eu deixo para as pessoas.

Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL

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