Pedágio automático no motel?

Vem aí biometria para estacionamento, e é possível até pedágio automático para motel, diz chefe do Sem Parar

Beth Matias Colaboração para o UOL, em São Paulo
Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL
Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL

Ganhando tempo

Em breve, você poderá pedir seu carro no estacionamento apenas olhando para uma câmera, sem falar nada, com a biometria. A novidade começa a ser testada agora em julho, em São Paulo, afirma o CEO do Sem Parar, Fernando Yunes, em entrevista exclusiva na série UOL Líderes. Carros alugados e lava-rápidos são áreas em que a empresa está entrando. O pagamento automático poderia se estender até a setores como motéis, embora ainda não haja estudos concretos sobre isso.

Yunes afirma que, para manter as rodovias em boas condições, é necessária a cobrança de pedágios, pois os governos estão em situação fiscal complicada e dificilmente poderiam arcar com os custos de manutenção.

O executivo, que escapou do acidente aéreo da TAM em São Paulo por causa de uma reunião cancelada, também defende que está na hora de os integrantes dos Poderes deixarem de lado os interesses pessoais e passarem a trabalhar conjuntamente por agenda em prol do crescimento do país.

Estacionamento, carro alugado, lava-rápido e até motel

UOL - Que novidades a empresa estuda colocar no mercado brasileiro?

Fernando Yunes - Temos pedágios, estacionamentos, postos, drive-thru, lava-rápido, locação de carro. Uma novidade que vamos lançar em breve é uma tecnologia para pedir os carros de um valet [estacionamento]. Vai ser o uso de biometria. Você estará em um valet e, em vez de pegar o cartão, vai olhar para uma câmera e simplesmente pedir o carro olhando para a máquina. Estamos desenvolvendo isso.

E vai poder pagar com o Sem Parar ali?

Por que não dar um passo e, em algum momento, poder pagar o estacionamento e o drive-thru só olhando para uma câmera? Essas são possibilidades que estamos olhando. Nada de curto prazo, mas existem planos de usar o Sem Parar em mais locais.

Há pessoas na empresa que dizem que deveria ser usado para pagar motel [é ainda só uma ideia sem estudo de viabilidade]. É um segmento que também tem uma parada, tem que fazer um pagamento, demora. Há pessoas que ficam constrangidas ali na frente de outra pessoa pagando.

E existem outros segmentos, como oficinas, centros automotivos, tudo muito ligado ao carro. Mas também pensamos em um dia sair do carro, o que ampliaria muito as possibilidades da empresa, ao mesmo tempo em que entraríamos em segmentos com outros concorrentes.

Cada vez se perde mais tempo no trânsito. O que pode ser feito para melhorar?

Um dos pontos é o transporte público, que poderia melhorar para as pessoas. O metrô, mesmo em São Paulo, que é uma cidade com infraestrutura avançada se comparada a outras regiões do Brasil, ainda é muito pouco desenvolvido.

Quando comparamos a cidades europeias, vemos que a nossa infraestrutura é bem carente. A malha de ônibus é até muito boa, mas a de metrô é insuficiente, o que faz com que as pessoas usem muito os carros, e isso acaba complicando o trânsito.

O aumento dos aplicativos contribuiu para a redução de trânsito, uma vez que o mesmo carro leva várias pessoas, fazendo com que haja menos carros nas ruas. E há opções de transporte a curtas distâncias, como bicicletas, patinetes, que acabam ajudando também. A combinação da infraestrutura pública com esses novos modais vai ajudar bastante na melhoria do trânsito nas cidades.

Esses novos modais, sem a utilização de carros, podem tirar mercado do Sem Parar?

Existem vários mercados Sem Parar. O Sem Parar começou em pedágio. Esse mercado de pedágio ainda tem, por incrível que pareça, muito a crescer. No Brasil, só 50% das passagens em pedágio são nas cabines automáticas. É muito, mas, por outro lado, ainda há 50% que utilizam a cabine manual. Existe um potencial grande de crescimento do Sem Parar.

Entramos no McDonald's com uma parceria que foi de muito sucesso. O próprio McDonald's queria ver possibilidade de expansão para outros países. É a solução mais fluida em drive-thru que existe no mundo. Fomos nós que criamos. Basicamente, o carro para, a pessoa pede um lanche e fala que vai pagar no Sem Parar. Na próxima cabine, pega o lanche e vai embora.

Recentemente, fizemos uma parceria com a [locadora de carros] Movida, e agora todos os carros alugados da empresa também virão com o Sem Parar, que é algo que já percebíamos como necessidade dos clientes.

Há muito cliente que aluga carro na locadora, passa em uma loja do Sem Parar para não pegar fila em pedágio, fica com o carro três ou quatro dias no final de semana e, quando vai devolver o carro, cancela a assinatura. Em junho, começamos em quatro cidades e vamos expandir em julho para todo o Brasil.

Outra parceria nova é com os lava-rápidos. A expectativa é de passar de 150 lava-rápidos no mês de julho.

Esses modais novos, como bicicletas e patinetes, são bons para distâncias bem curtas. A pessoa pega em uma avenida, anda alguns quarteirões e devolve. Nesse trajeto, hoje não temos opção de uso do Sem Parar. No trajeto mais longo, a pessoa que tem o Uber ou um outro aplicativo, pode se alimentar no McDonald's, usar o estacionamento, pega uma estrada, aí ela vai usar o Sem Parar.

Como a empresa enfrenta aumento da concorrência?

A entrada de mais concorrentes cria dentro da empresa um mote, um senso de urgência maior por inovação, para criar possibilidades. Cada vez que entra uma empresa nova, o grupo todo se energiza mais para seguir inovando e melhorando as relações com os clientes.

Com a entrada de novas empresas, precisamos seguir na vanguarda de inovação.

Qual a importância do Sem Parar no Brasil para a matriz americana?

É bem relevante. Hoje representamos quase 20% da receita da empresa. Em termos de valor de mercado, a Fleetcor [matriz americana do Sem Parar] vale US$ 22 bilhões [R$ 76,2 bilhões]. É um mercado bem representativo.

O Sem Parar é uma empresa de tecnologia que foi vendida por US$ 1,04 bilhão [R$ 4 bilhões]. Foi o valor que a Fleetcor pagou pelo Sem Parar, e, nesse período, a empresa conseguiu crescer mais, abrir novos mercados de forma que tem contribuído para a valorização da empresa lá fora.

Por que devemos pagar pedágio?

40 km/h no pedágio é proteção se cancela não abrir

UOL - Há reclamações sobre a cancela no pedágio e o limite de velocidade. Como o senhor vê essa questão?

Fernando Yunes - Há duas opções, uma delas é nem ter a catraca. Tendo a catraca, acredito que é importante o limite de velocidade. Mesmo com a cobrança e com o pagamento de multa, existem aqueles que não cumprem a regulamentação.

Ter o limite de velocidade é importante para segurar um pouco esse ímpeto de não cumprir as regras, caso a pessoa não esteja na velocidade dos 40 km/h, que foi uma velocidade estudada pelos órgãos responsáveis. Essa velocidade é para o caso de aquela pessoa estar inadimplente ou não ter a 'tag' [etiqueta do Sem Parar] por engano e ter tempo de parar.

Se existe uma catraca é porque existe a possibilidade de não abrir. Se existe a possibilidade de não abrir, as pessoas que estão passando naquela pista têm que entender que pode ser que não abra. E se pode ser que não abra, não dá para a pessoa estar a 90 km/h e um outro atrás também a 90 km/h. Nessa velocidade, se não abrir, não vai dar tempo de frear, ele vai ter um acidente. Ter um limite de velocidade é importante para reduzir o risco na pista.

Mas o senhor é a favor da cancela?

A tecnologia permite que não tenha a catraca. Em termos da tecnologia, a catraca consegue fazer a leitura de uma passagem em uma velocidade muito alta. O risco é que o percentual de evasão seria muito maior.

A partir do momento em que não tenha uma catraca, poderia haver pessoas que não tenham o serviço contratado passando por essa pista. Há estudos feitos pelos órgãos responsáveis, e a decisão, no momento, é ter a catraca para ter algum controle maior sobre as evasões. Mesmo com a catraca, ainda existe evasão.

Qual o perfil do usuário do Sem Parar?

Dá para fazer por vários cortes, demográficos, sociais e de comportamento.

O principal é de comportamento: uma pessoa que dá muito valor para o seu tempo, tem uma vida com muitas atividades e muitas iniciativas e que termina o dia achando que faltou tempo para fazer outras coisas. Pessoas que terminam o dia se sentindo na dívida porque faltou tempo são as pessoas que assinam o Sem Parar e que dão muito valor para o serviço.

Existem muitas pessoas que economizam mais de cinco ou seis horas no mês por ter o Sem Parar. Imagine uma cidade de São Paulo para Rio Claro [SP], são quatro pedágios para ir e quatro para voltar, na rodovia dos Bandeirantes.

Se a pessoa vai numa sexta e volta em um domingo e não tem o Sem Parar, pode pegar dez minutos em cada pedágio. São 40 minutos na ida e mais 40 minutos na volta. Se ela vai todo final de semana fazer essa viagem, já são seis horas.

Existem regiões, cidades, em que as pessoas têm uma vida muito tranquila, têm muito tempo. Às vezes, quando a pessoa para em um posto, ela até quer descer do carro, bater um papo com o frentista. Essa pessoa não está com pressa. Esse segmento, independentemente da faixa etária ou do nível de renda, é menos propenso a adquirir o Sem Parar.

A maior parte dos nossos 5,5 milhões de clientes vai de 25 a 50 anos, é bem amplo. Em termos de nível de renda, também é bem amplo, acima de R$ 2.000 de renda já temos muitos clientes na nossa base. Quanto ao sexo, há um pouco mais de homens que mulheres, mas há um crescimento muito grande do número de mulheres, principalmente com o abastecimento e com o drive-thru.

No abastecimento vemos que as mulheres dão mais valor, por não precisarem sair do carro no posto. A mulher em um posto de gasolina se sente um pouco insegura, é um ambiente mais hostil, então prefere ficar no carro.

Quem não usa a cabine automática?

Menos interesses pessoais de políticos e mais trabalho pelo país

UOL - O que se espera do governo federal neste momento?

Fernando Yunes - Um ponto seria muito importante: um trabalho com mais harmonia para se construir o futuro e um pouco menos de vaidade para todo mundo. Querer menos ser o protagonista, estar na capa e sendo notícia.

Deveria ser um grupo com muito mais senso de conjunto, pensando no futuro do país. É um momento delicado do Brasil. Acredito que a sugestão seria cada um tentar sair dos seus interesses pessoais e trabalhar em conjunto realmente pelo país.

Porque há muita gente competente. Mas, se não passar a reforma da Previdência, o que vai acontecer para o Brasil? É uma catástrofe.

Se o país ficar deficitário, não vai haver mais investimento, vai aumentar o desemprego, vai aumentar a inflação, aumenta a desigualdade social. Seria terrível para o país.

Cada um ali deveria tentar sair dos seus interesses pessoais para trabalhar em prol do país em uma agenda desse time. Eles deveriam se ver como um time único: governo, Congresso, é um time que vai transformar o Brasil, vai colocar um nome na história e deixar um legado do time e não do indivíduo.

Como vocês explicam à matriz no exterior nosso cenário econômico e político?

O primeiro ponto é nós mesmos entendermos o cenário, o que já é um desafio. A cada dia lendo o jornal, assistindo aos noticiários, vemos fatos de alta temperatura e alto impacto, mas que aos poucos vão se encaixando. Se dermos um passo atrás e olharmos de uma perspectiva mais ampla, acho que nos últimos 20 ou 30 anos a tendência do Brasil foi positiva.

O Brasil é um mercado onde a Fleetcor aposta bastante. Não reduzimos o investimento, pelo contrário, abrimos novos mercados. Em 2019, estamos investindo bastante. No ano que vem, também vamos investir bastante.

Há essas turbulentas do curto prazo, mas acho que é uma democracia cada vez mais consolidada, com independência de Poderes cada vez mais consolidada, com uma mídia muito forte, que acaba ajudando a fazer esses poderes serem independentes.

A política econômica está em uma trajetória que é muito positiva. A equipe econômica que está aí é a melhor equipe econômica que o Brasil já teve na história. Tivemos equipes muito boas, mas essa está num patamar diferenciado. O segundo e o terceiro escalões também são muito fortes, e há muita coisa acontecendo, muita decisão acontecendo no dia a dia que vai ajudar o Brasil a sair para um nível de crescimento muito maior.

Acredito que a Previdência vai passar, e será muito importante. Vai vir a reforma tributária, desburocratização da economia. Já há medidas acontecendo, talvez haja ainda mais um avanço na reforma trabalhista. No que se refere a abrir mais o país para o exterior, deve acontecer de uma forma bem organizada para ganharmos mais produtividade aqui dentro também.

Eu vejo com muito bons olhos o que está acontecendo e acho que o pessoal de fora, quando não entra na notícia do dia, nos atritos do dia a dia, vê mais essa trajetória que parece bastante positiva.

Por que cobrar mensalidade de pedágio automático?

O Sem Parar é assim:

  • Fundação

    2000

  • Funcionários diretos

    1.600

  • Clientes

    5,5 milhões

  • Lojas (franqueadas)

    600

  • Pontos de venda (locais comerciais onde é vendida a etiqueta do Sem Parar)

    2.500

  • Call Center

    3

  • Fábrica

    1

  • Concorrência

    ConectCar, Veloe, Greenpass, Move Mais e C6 Bank

Escapou ao acidente da TAM e mudou jeito de ver o tempo

UOL - O que mudou na sua carreira profissional depois de ter escapado do acidente da TAM, em julho de 2007, em São Paulo?

Fernando Yunes - A primeira coisa foi a forma como eu encaro o tempo. Antes eu via o tempo muito mais como um investimento para o futuro. Sempre vi, desde jovem. Aos 19 anos, meus amigos foram para Porto Seguro [BA], numa viagem de faculdade. Eu usei o dinheiro e fui para o Canadá estudar inglês.

Depois houve outra viagem para Porto Seguro de novo, e eu fui para a Argentina estudar espanhol. Fiz duas faculdades, dois estágios, fui estudar duas línguas, fui trabalhar em consultoria.

Eu via o tempo como um investimento para o futuro, e naquele momento do acidente passei a ver de forma muito mais equilibrada. O dia tem que valer a pena, não dá para o dia ser só uma plantação para o futuro. O dia tem que valer, ser legal, bacana, temos que fazer o bem para as pessoas e ajudar os que estão ao redor. Acho que ganhei um pouco dessa perspectiva.

Em termos pessoais, também foi uma mudança grande. Conheci minha atual esposa em uma viagem que fiz depois do acidente.

Eu escapei porque saí do prédio [da TAM, atingido pelo avião] para uma reunião às 16h, e às 15h a reunião foi cancelada. Olhei no relógio e fiquei pensando se eu voltava para a TAM ou não, e fiquei no escritório da [empresa de consultoria] Bain. E às 18h40 o avião bateu no prédio da TAM.

O acidente me trouxe uma vida bem mais equilibrada. Antes eu tinha muita ânsia de me desenvolver, aprender e crescer muito, e veio uma ponderação maior depois disso.

Que dica daria para construir uma carreira de sucesso?

Em primeiro, a pessoa precisa estudar muito e querer aprender bastante. Ter um desafio de se renovar é uma sugestão. Outra seria nas relações sociais. É muito importante o relacionamento para o lado, para baixo, para cima. É muito comum ver pessoas que são extremamente qualificadas, mas pecam nas relações, que têm um trato mais arrogante, que são agressivas, egoístas.

E outra coisa é a atitude. Atitude de ir atrás até conseguir. Não deu certo, não desiste. Ter persistência, garra e querer transformar as coisas, mudar. Acho que a pessoa que acorda de uma forma morna para viver o dia, e no dia seguinte vai de novo, é difícil ir longe. É preciso acordar querendo fazer algo de impacto, algo relevante.

Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL

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