Respirou, paga imposto

Brasil taxa qualquer coisa, diz chefe da Whirlpool (Brastemp e Consul), que defende redução do Estado

Beth Matias Colaboração para o UOL, em São Paulo
Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL
Carine Wallauer/UOL Carine Wallauer/UOL

Diminuir o tamanho do Estado, fazer as reformas necessárias, investir em infraestrutura e melhorar o ambiente de negócios ajudarão a mudar o cenário da alta carga tributária no país. A opinião é do presidente da Whirlpool América Latina, João Carlos Brega, em entrevista exclusiva na série UOL Líderes. A multinacional é dona das marcas como Brastemp e Consul.

O executivo comemorou a renovação do Congresso e pediu ao novo governo mais mudanças na reforma trabalhista, com livre negociação entre empresas e trabalhadores. Chamou também "jabuticabas brasileiras" as tomadas com pino de três pontas e a burocracia para exportação de produtos.

Brasil cobra imposto de tudo

UOL - O que o senhor acha da carga fiscal dos eletrodomésticos? E os subsídios?

João Carlos Brega - É óbvio que você não pode tirar de um contexto, mas antigamente, no meu tempo de menino, você andava de motocicleta sem capacete. Hoje você vai falar que eu estava fora da lei? Não, é que antigamente era assim a lei, hoje não faz sentido. A gente evolui.

Existiu subsídio no passado para eletrodoméstico e para outros setores, eu acho errado. Acredito que o que precisamos fazer é trabalhar a economia como um todo. Hoje a carga fiscal brasileira é absurda, seja na maneira como é tributada, seja pelo total que ela representa. Há carga tributária na produção e não no consumo, como faz a maioria dos países. Há tributo na renda e no consumo.

No Brasil, taxamos qualquer coisa. Respirou, paga imposto. A primeira coisa: a burocracia faz isso. A segunda é o tamanho da carga fiscal: 35%, 37%, com uma ineficiência brutal. O governo participa da economia em mais de 40% porque é 37% de carga fiscal mais o déficit de 5%. É um absurdo, temos que mudar.

Como é que muda isso? Não há bala de prata. São quatro coisas: primeiro, precisamos efetivamente rever o tamanho do Estado, o Estado na Constituição, e é o que a sociedade quer, é segurança, é educação e saúde. Isso é Estado.

Estado não é, com todo respeito, serviço funerário. Por que um funcionário da prefeitura tem que dirigir o carro funerário? Por que não dá para a iniciativa privada? E o corte de árvores, por que a prefeitura tem que fazer? Dá para quem entende disso. Por que o Estado precisa estar nos Correios? Primeiro é isso, reduzir tamanho do Estado.

Segundo, fazer as reformas. Fizemos uma reforma trabalhista que nos tirou de 1950 e nos colocou em 1980, mas o mundo está em 2019. Precisamos continuar a fazer. Reforma fiscal, reforma política. Caminhamos, mas ainda temos mais de 20 partidos.

Terceiro, investimento em infraestrutura em que a iniciativa privada faça, e o governo regule. Nós não queremos um governo rico, queremos uma sociedade rica. O governo está lá para saúde, educação e segurança e para regular o resto.

E o último ponto é o ambiente de negócio. Não podemos ter um ambiente de insegurança, porque quem investe quer que as regras sejam mantidas. Não podemos nos atrever a pensar que esse governo fez uma reforma trabalhista, e vem um candidato e fala que vai revogar. Ele pode discutir e propor uma nova, aprimorar, mas a mentalidade é revogar, e isso gera insegurança. Esse ambiente de trabalho salutar é necessário.

E a Reforma da Previdência?

Ela é super necessária. O mundo mudou, graças a Deus. Temos uma expectativa de vida maior, temos uma capacidade de continuar trabalhando e gerando a riqueza. Mas não faz sentido que 10% da população que está inativa (de servidores do poder público) represente 60% ou 70% do déficit fiscal. Temos que rever isso como sociedade.

Não dá para nós pagarmos esse benefício a eles. Isso precisa ser feito, mas com calma, com antecipação e não tirando direito de ninguém, trabalhando no futuro. Revendo a idade, revendo o próprio benefício, o limite, acabar com esses penduricalhos.

O senhor defende a diminuição do pagamento para inativos?

Não, eu defendo a diminuição do Estado. Defendo uma revisão dos critérios de aposentadoria, sem tirar nenhum direito adquirido. Serão os próximos porque senão vai contra o que falei, que é um dos pilares do ambiente de negócio, que é segurança jurídica.

Não é justo que uma pessoa que se aposentou e está recebendo, do dia para a noite, mudar a regra, isso não é correto. É preciso ter um período de transição, de adaptação, mas precisamos nos mover. O que proponho é uma revisão para os próximos.

Como cuidar dos programas sociais com um Estado reduzido?

Os programas sociais são necessários, mas o que eu acredito é que o sucesso deles é medido pelo "quanto sai" do programa social com sucesso e não quantos entram. Essa é uma diferença muito grande.

É óbvio que precisamos [dos programas sociais]. Eu faço atividade pró-bono [sem remuneração], participo e vejo. Contribuo com instituições, eu vejo trabalho voluntário. É necessário. O governo precisa cuidar, de novo, de educação, de saúde, precisa propiciar infraestrutura como transporte. É papel do governo, deve fazer isso, mas deve fazer regulando.

Se você pegar o SUS [Sistema Único de Saúde], talvez chegue a um município pequeno 50% ou 60% do dinheiro que sai de Brasília. O restante se perde por conta dessa burocracia que temos. O que precisamos é regular, mas deixar a iniciativa privada tocar, com regulação.

O senhor é a favor das privatizações em áreas como saúde e educação?

Não. Saúde, educação e infraestrutura são prerrogativas do governo. Mas não vejo nenhum problema em ter parcerias privadas nisso. Se eu tivesse que fazer uma opção, essas áreas seriam a última coisa que eu iria olhar [para privatizar]. Há muita coisa antes para a gente atacar. Há Correios, corte de árvore, trem-bala. Temos uma estatal com 20 pessoas responsáveis pelo projeto do trem-bala de São Paulo ao Rio de Janeiro. Onde está esse trem?

Como o senhor vê a questão da corrupção e o impacto nos negócios?

Um absurdo! Isso tem que ser tratado pela polícia, não existe meio-termo. Existiu um brilhante advogado, já falecido, que criou essa falácia de caixa 2 para tentar graduar o que é enriquecimento ilícito e caixa 2. É um absurdo, isso não existe.

Caixa 2 é crime. Eu pago imposto, exerço minha cidadania, inclusive a fiscal. O cidadão que não paga imposto é criminoso. Ele está tirando dinheiro da saúde, da educação, do transporte, está tirando dinheiro de qualquer coisa porque ele não está pagando imposto. Ele é criminoso. Corrupção tem que ser tratada como crime, não há benevolência, não há discussão. Legislação criminal e polícia que tratam disso. 

Houve perdas de participação da empresa no Brasil em relação ao faturamento global nesses últimos anos?

Houve, vamos voltar e contextualizar. O Brasil continua sendo para a Whirlpool o segundo maior mercado, atrás dos Estados Unidos. Estávamos mais perto, agora estamos mais longe, mas o Brasil continua o segundo maior mercado para a Whirlpool no mundo como unidades vendidas.

Pagamos muito imposto

Sociedade na política

UOL - Qual a expectativa de mercado em 2019?

João Carlos Brega - Há dois fatores que fazem a nossa demanda: a reposição e a planejada. A reposição é quando quebra a sua geladeira e você precisa de uma nova. Não dá para esperar. Você se priva de alguma coisa e compra uma nova. É disso que estamos vivendo. Planejado é quando eu vou reformar a minha cozinha, vou casar. Nos últimos quatro ou cinco anos, vivemos só com a reposição, o mercado está lá embaixo.

Para nossa felicidade, temos um Congresso renovado. Quando eu era criança, se eu falasse para o meu pai que queria ser político, ele me dava um tapa na cabeça e falava: "Cala a boca, menino, vai trabalhar, porque filho meu não é vagabundo". Juro. E o erro da nossa geração é por isso. Delegamos a política para outras pessoas, que não a sociedade. No passar dos anos, nós, sociedade, perdemos a representatividade.

Veja o que aconteceu nessa eleição: recebi três telefonemas de amigos falando o seguinte: "João, vota no meu filho que ele é candidato". E o menino ou a menina são formados em direito na FGV [Fundação Getulio Vargas] ou em Harvard [EUA], se predispõem a serem políticos.

Essas pessoas com certeza querem contribuir, fazer coisas boas, e isso está no Congresso, está na Assembleia de São Paulo.

Falamos muito de presidente, mas a mudança mesmo é feita com o Congresso. Ele é que legisla. É ali que nascem os debates e onde as leis são discutidas. Hoje o nosso orçamento, a nossa legislação, engessa o executivo, que fica com pouca manobra, em todas as esferas, e só o Congresso pode mudar isso. Essas pessoas que entraram agora na política, entendendo a representatividade, com certeza farão isso.

É o fim do político profissional?

Não, o político sempre vai ser da sociedade, que quer que essa pessoa não perca a legitimidade, que ela seja movida por plataforma, por programa. Hoje eu votei porque ouvi o meu candidato a deputado estadual e seu programa. Foi nesse voto que eu fui, não existe Superman. Para evoluirmos como país, não existe uma bala de prata. Existem várias coisas que precisam ser feitas. Não existe Superman, existem pessoas, programas e processos. 

O senhor acredita que a velha política está ficando para trás?

Sem dúvida. A sociedade perdeu a representatividade, delegou, mas era gerida por isso que estava aí. Isso acabou, vamos viver uma nova era. Como estamos vivendo agora com acesso à internet.

Volto para o nosso consumidor. Nós, como consumidores, mudamos. Hoje acessamos, comparamos, vemos, discutimos e interagimos. Há sete anos fui nomeado para esse cargo. O primeiro email que eu recebi foi de um consumidor. O mundo é assim, mudaram as relações e vão continuar mudando.

A que o senhor atribui essa mudança do comportamento das pessoas na política?

Eu quero exercer a minha cidadania, quero contribuir e falar que não é assim, não. Eu pego as minhas filhas, de 14 e 13 anos, óbvio que são educadas com valores e tal, mas há coisas que querem fazer diferente.

Vou dar um exemplo do consumidor que mudou. Antigamente o consumidor tinha um sentimento de posse: "Eu quero ter meu carro, quero ter minha geladeira, quero ter minha casa". Olha hoje: uso Uber, se quero um transporte. Bicicleta: queria a minha Caloi. Hoje pego a bicicleta aqui e devolvo ali. Mudou o conceito. O conceito não é ter a máquina de lavar, mas ter a minha roupa lavada, não ter a posse.

Em que momento o senhor achou que o Brasil não era mais o país do futuro?

Quando a gente era hiperinflacionário. Veio a estabilização do Plano Real, puxa que coisa! Juro de 7% ao ano para comprar casa, financiamento para consumidor. Depois veio do lado externo o boom das commodities, mas infelizmente perdemos tudo isso e acabamos descobrindo depois que fomos roubados.

Errar é uma coisa, faz parte, qualquer um de nós toma decisões todos os dias. E a decisão, por definição, tem outras opções, senão já estava definido. Você vai errar, não tem que ter medo de errar, faz parte do jogo.

Agora roubar não, e infelizmente a gente foi roubado. E agora foi um roubo tão grande que vai demorar muito para a gente se recuperar porque o ambiente externo não está mais tão favorável como esteve no passado. Mas o Brasil não acaba, é um país de gente boa, sociedade trabalhadora, povo trabalhador.

Sociedade mais politizada

Reforma trabalhista chega a 1980

UOL - O senhor acredita que a reforma trabalhista vai ajudar a combater o desemprego?

João Carlos Brega - Já está ajudando, precisa continuar caminhando. Saímos de 1950 e chegamos a 1980, mas o mundo está em 2019. Precisamos caminhar com discussão correta no Congresso, com os sindicatos, empresários.

O senhor é a favor da retirada dos encargos sociais?

Não dá para formalizar "sou a favor ou contra". O jogo não é binário. Você precisa entender a origem deles, por que eles existem. Começa com o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], para fazer a Previdência Social. Não adianta eliminar ou aumentar. O que eu defendo é a livre negociação, acho muito mais salutar.

Há momentos em que você tem o pleno emprego, e o salário sobe. Há momentos de recessão, em que desce. É a lei de mercado. Mas não entro nessa de retirar, não é por aí. Não é binário, não é você gosta ou não gosta, eu não acredito nisso. As coisas são conectadas.

E 13º salário, férias, fundo de garantia?

Isso é atratividade. Isso é para eu manter. Se eu não tiver isso e o outro tiver, o melhor empregado vai naquele. O que cada um de nós, eu sou empregado, mas ao mesmo tempo responsável, o que você quer? Se você entra na Whirlpool e vai subindo, qual a sua principal meta? Atrair, reter e desenvolver pessoas. Eu consigo atrair porque é uma empresa vencedora. Depois como eu retenho? Com desafio e remuneração compatível. Você pode travestir ela como 13º e tal, mas no final do dia ela tem que ser compatível e competitiva para você poder reter esse talento, senão você vai perder para outro.

Eu entendo, mas a maior parte da população brasileira não tem capacitação nem esse poder de negociação com as empresas. Como equalizar essa conta?

Acho que a reforma trabalhista já caminhou. Hoje o trabalho temporário já saiu de 90 para 180 dias. A flexibilização permite que você tome risco. Você treina esse funcionário porque é qualidade, é produtividade.

Nós temos uma conta na Whirlpool muito tranquila que é a seguinte: se você tem no seu horizonte que uma crise vai demorar mais do que três ou quatro meses, é preciso rever o tamanho da sua organização.

Agora, se você acha que essa crise vai ser inferior a quatro meses, manda o pessoal para casa, deixa lá e volta, porque o custo de contratar, treinar e o funcionário ganhar o nível de produtividade necessário é de três a quatro meses. É um conjunto de coisas que você vai atenuando, e essa reforma trabalhista propiciou você atenuar. 

Quantos empregos a Whirlpool espera gerar em 2019?

Primeiro manter, sem dúvida. Não diria em 2019. Espero que 2019 seja o primeiro passo de uma jornada em que a gente consiga sair de um país de 13 milhões de desempregados para o plano emprego, que é uma taxa de 2% ou 3%. Não a Whirlpool, nós todos como sociedade.

Funcionários públicos e Previdência

A Whirlpool é assim

  • Fundação

    1911

  • Operação no Brasil

    1945

  • Funcionários

    Diretos: 11 mil no Brasil, 92 mil no mundo

  • Unidades

    5 no Brasil; 50 no mundo

  • Principais concorrentes (Brasil e mundo)

    Electrolux, Samsung e LG

Jabuticabas brasileiras

UOL - Com uma economia globalizada, há lançamentos simultâneos em várias partes do mundo. Ainda é possível ou necessário "tropicalizar"?

João Carlos Brega - Tirando as jabuticabas brasileiras -porque é um absurdo o pino de três pontas [tomadas]- aí você precisa tropicalizar, senão seu consumidor não consegue usar. Temos aqui [Brasil] temperaturas diferentes, as geladeiras têm que estar preparadas com uma vedação específica para suportar e também fazer os ajustes de voltagem.

Mas, do ponto de vista de design, acredito que cada vez mais que o que é bonito, é bonito. Vou dar um exemplo: em portáteis, a batedeira KitchenAid e o mixer KitchenAid são bonitos em qualquer lugar do mundo. Você vai tropicalizar o quê? Não faz sentido porque o design é muito bonito.

Além da tomada, quais outras dificuldades de adaptação do que vem de fora?

Posso falar de carga tributária e um montão de coisas que são jabuticabas, mas o principal começa com os plugs que você precisa efetivamente tropicalizar. Algumas permissões pela burocracia brasileira não fazem sentido porque, se o produto já é homologado com normas técnicas para funcionar nos Estados Unidos, não precisamos repetir os testes.

Deveríamos aceitar a certificação para agilizar, e o Brasil não faz isso. Há várias coisas que podiam ser agilizadas para ganharmos competitividade e propiciarmos ao consumidor a última novidade que é lançada lá fora. Agora, eu garanto uma coisa, no nosso caso [Brastemp, Consul e KitchenAid]: não há nenhuma tecnologia que esteja lá fora que não esteja também acessível aqui no Brasil.

Como o senhor avalia a falta de competitividade do Brasil nas exportações de bens manufaturados?

Jabuticaba. De cada US$ 100 que exportamos, US$ 6 são PIS/Cofins. A Embraco (empresa do grupo Whirlpool que foi vendida à japonesa Nidec) tem a fábrica no México e lá não há esses US$ 6 do PIS/Cofins. Simplesmente, só no quesito competitividade e custo fiscal do México x Brasil já são seis pontos de diferença.

Vamos continuar falando do México. O funcionário no México trabalha 10% a mais de dias úteis do que o Brasil. O México trabalha 315 em média, e o Brasil trabalha 280, dias úteis, então a diferença começa na largada.

O custo de mão de obra na China, em base 100, é 100, no México é 40, no Brasil 150 e na Itália 250. Isso (no Brasil) é mão de obra com encargos sociais, mas para quê? Para financiar a Previdência Social que, por conta de não ser revista, exige que esses encargos sejam elevados. Você fica num ciclo vicioso, você não sai do lugar.

Se você não fizer a reforma da Previdência, não consegue reduzir os encargos sociais e não aumenta a produtividade. Vamos falar de outro: infraestrutura. Hoje nós temos que colocar a mercadoria no porto 20 dias antes, primeiro pela burocracia, correndo o risco ainda de, por tráfego, congestionamento no porto, o navio ir embora e deixar sua mercadoria.

Precisamos de investimento em infraestrutura. Como é possível você pegar uma soja, sair lá do Mato Grosso e chegar ao porto de Santos e ainda ser muito mais caro do que trazer da China? Não tem lógica. Mas é o nosso custo Brasil. Se não atacar essas coisas, buscando competitividade, não vamos ganhar como sociedade.

O que mudou nos hábitos de consumo dos brasileiros nos últimos cinco anos?

Para você ter êxito neste mercado, você não faz mais eletrodoméstico, não vende mais geladeira. Nós ajudamos a preservar a comida. Não vendemos mais lava roupas, ajudamos a cuidar da roupa. Não vendemos mais fogão, ajudamos a preparar a comida.

Lançamos a lavadora em que você consegue, ao mesmo tempo, lavar a roupa branca e a colorida. Lançamos a cervejeira que tem um aplicativo que avisa quando as latinhas estão acabando e você pode reabastecer porque, na realidade, o que você quer é tomar cerveja gelada, e não uma geladeira para a cerveja. Você quer ter a sua roupa limpa e bem cuidada e aproveitar o seu tempo lavando a colorida e a branca juntas. Neste conceito, o que muda é a maneira com que nós ajudamos o consumidor a entender suas necessidades.

Quando o consumidor fez essa transição de um tanquinho de lavar a roupa para uma máquina inteligente?

A própria evolução da sociedade por seus hábitos. Hoje em dia não se usa mais classificar o consumidor por classe de renda. Estudamos os hábitos. O solteiro tem um perfil de querer a coisa mais rápida e prática, mas ao mesmo tempo pode ser longa porque ele sai de manhã e volta à noite.

Você pode lançar um produto que lava e seca, que, apesar de demorar quatro ou seis horas esse ciclo, tanto faz, porque ele vai colocar de manhã e pegar à noite.

Se é um outro perfil de consumidor que tem horários diferentes, muda. Conhecendo o perfil do consumidor e onde ele se identifica com a marca, colocamos os produtos. Isso foi uma evolução da sociedade.

Nós competimos no que chamamos de "share" do bolso do consumidor. Disputamos com telefone, restaurante, essas coisas. É preciso abrir a cabeça e oferecer para o consumidor a satisfação da sua necessidade.

E os consumidores brasileiros são muito exigentes?

Todos são. Todos querem relação custo-benefício. Por isso definimos inovação. Para nós, a inovação tem que ter três critérios.

Primeiro, tem que ser único e fácil de ser entendido pelo consumidor. Precisa bater o olho e identificar.

Em segundo lugar: tem que ser repetitivo, não pode ser um cometa Halley [que demorar para aparecer].

Em terceiro lugar: a relação custo/benefício tem que valer a pena. Se você comparar a nossa cervejeira com um isopor com gelo pelo preço, você compra o isopor, mas, se você quer ter a satisfação da temperatura correta, compra a geladeira.

Essa relação custo/benefício para o consumidor é que vale a pena. E para nós também vale a pena porque permite o investimento. São essas três coisas: facilidade, repetição e relação custo/benefício. Atingiu as três é inovação.

O mercado de eletrodomésticos continua estagnado?

Continua. Estamos em volumes de 2011, 2012. Complicou mais em 2015, quando fomos ladeira abaixo. Estabilizou há quase dois anos, na mudança de governo. Estávamos em recessão e aí paramos. A tradução que eu faço é a seguinte: você quebrou o braço e é aquela dor. Você para de mexer, para de doer.

Foi isso que vivemos nesses dois anos de governo Temer, parou de doer. Agora, esperamos que o novo presidente tire a radiografia, coloque o gesso e espere crescer. E trabalhamos com essa certeza de que haverá crescimento no nosso mercado em 2019.

Como a Whirlpool encara os concorrentes coreanos e chineses?

Eles estragaram o mercado de micro-ondas e foram embora. Você vai lá em Manaus e tem gente com dívidas de impostos. A Whirlpool compete com todos no mundo inteiro, e o nosso trabalho é fazer as nossas marcas suportadas por nossos produtos e serviços encantarem os consumidores.

Os chineses não atrapalham ou não assustam?

Não somos arrogantes, mas muito confiantes de nossas marcas e capacidade para continuar garantindo a lealdade do consumidor. Competição sempre vai ter e é salutar. Seja quem for.

Já foram americanos, já foram europeus, talvez agora sejam coreanos, amanhã são chineses, mas temos muita confiança que trabalhando nos quatro pilares estratégicos da Whirlpool -liderança de marca, liderança de produto, excelência operacional e pessoas- vamos ganhar esse jogo.

O que o senhor faz para lidar com a pressão do dia a dia?

Primeiro. faço o que gosto. Segundo, faço exercício. Começou por orientação médica e agora por necessidade. Quando estou fazendo exercício, eu xingo, extravaso, e, quando posso, pego meu jet ski e saio.

Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL

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