Trabalhar 20h e ser feliz

Equilibrar vida pessoal e trabalho não é necessário e igual para todo mundo, diz chefe da WeWork

Do UOL, em São Paulo
Keiny Andrade/UOL e Arte/UOL
Keiny Andrade/UOL Keiny Andrade/UOL

"Escolha um trabalho que você ama e você não terá que trabalhar um dia sequer na vida". A frase é citada por Miguel McKelvey para defender que as pessoas devem seguir a carga horária de trabalho que desejarem, mesmo se forem muitas horas diárias na frente do computador.

Em entrevista na série UOL Líderes, o cofundador da WeWork --startup avaliada em US$ 45 bilhões que aluga espaços de trabalho, os chamados "coworking"-- fala sobre o perfil de quem utiliza seus espaços de trabalho compartilhados, sobre a cultura dentro de cada prédio e como se relaciona com as diferenças dos mais de 20 países onde a empresa está presente.

Ele também explica por que considera que pessoas de todas as idades podem gostar de trabalhar em espaços compartilhados e menciona a dedicação de sua equipe a iniciativas voltadas para diferentes grupos da sociedade. Afirma, ainda, que não são os números, mas a energia positiva da WeWork que seduz os investidores.

Não há problema em trabalhar muitas horas

UOL - Nas startups, muitas vezes os funcionários trabalham muitas horas por dia. O senhor não acha saudável ter uma vida fora do escritório?

Miguel McKelvey - Acho que tudo tem a ver com "timing". Aprendi isso por experiência própria. Quando era mais jovem, achava que o meu tempo mais importante era o do trabalho. Honestamente, eu não acho que tenha perdido nada trabalhando 16, 18 ou 20 horas por dia porque eu amava muito trabalhar e estava crescendo muito naquele momento.

Não acho que fazer qualquer outra coisa valeria o mesmo naquela época. Agora que eu estou mais velho e tenho um filho, certamente busco fazer outras coisas fora do trabalho, que talvez eu não tenha feito nos primeiros dez anos da minha vida profissional.

Isso tudo tem a ver com quem você é, em qual fase da vida está, e você tem que descobrir isso sozinho. Não gosto da ideia de que todo mundo deva ter o mesmo equilíbrio. Quando as pessoas falam em equilibrar vida pessoal e profissional, não acho que isso seja uma verdade para todos. Acho que algumas pessoas amam muito trabalhar, e não deveria haver restrições, se isso é o que você faz com mais paixão naquele momento.

Isso é sustentável para sempre? Talvez não. Talvez algumas pessoas possam fazer isso por mais tempo do que outras. Acho que é aquela coisa de "faça o que você ama e você não terá de trabalhar nem um dia na sua vida".

Se você encontra uma coisa pela qual é realmente apaixonado, isso pode ser a sua maior realização e talvez seja menos necessário buscar formas alternativas para se sentir completo ou saudável.

Ao mesmo tempo, exercício, meditação, alimentação correta, se tudo isso não fizer parte da sua vida porque você não consegue tempo, então você pode se tornar pouco saudável --e isso, obviamente, não seria bom para ninguém. Então, depende, e cada um tem de encontrar seu próprio caminho.

Vocês têm uma experiência nos EUA de mudar um bairro que estava abandonado ao abrir um espaço de trabalho WeWork. Isso é um objetivo que a sua empresa busca?

Nossa primeira preocupação é atender nossos membros e garantir que o lugar que preparamos dê a eles as melhores condições para serem bem-sucedidos. Se nossos membros nos pedem para estarmos em um determinado lugar... acho que iríamos a qualquer lugar por eles.

Ao mesmo tempo, temos de assegurar que eles estejam seguros, que se sintam confortáveis ao sair do prédio à noite, que seja um lugar onde eles queiram estar na cidade, no bairro. Não podemos forçar as pessoas a vir ao nosso prédio. Elas precisam querer estar ali todos os dias.

O que demonstramos é que temos a capacidade de causar um efeito positivo do lado de fora do prédio. Ainda temos muito a aprender sobre como podemos fazer mais na região ao redor para ajudar a promover uma mudança positiva.

Se imaginamos algum dia que seríamos parte importante de uma transformação urbana ou do desenvolvimento urbano? Acho que sim, e as nossas comunidades podem ser uma parte importante disso. Já sabemos exatamente como fazer isso? Não, mas sinto que temos muito tempo para descobrir.

Isso também é global: cada cidade é diferente, e a forma de abordar isso em cada cidade será diferente. Temos realmente muito a aprender, mas espero que cheguemos lá.

Trabalhar muito não faz mal

Cada país tem sua cultura e formas de se conectar

UOL - Vocês estão presentes em mais de 20 países. Como avaliam o ambiente de trabalho local antes de decidir ir para um novo mercado e que tipo de personalização é feita?

Miguel McKelvey - Há uma energia que conecta as pessoas de todos os países. Algo sobre querer estar conectado na vida real, cara a cara, na disposição em encontrar outras pessoas que compartilham essa paixão pela vida.

Todo mundo quer estar cercado de pessoas que têm uma energia positiva, que estão felizes por estarem vivas. E se você une pessoas nesse ambiente, não importa se elas estão no Brasil ou em Tóquio [Japão], em Xangai [China] ou em Tel Aviv [Israel], você sente essa energia.

E há as diferenças. A forma como comemos é diferente, o jeito como tomamos café é diferente, os padrões durante o dia, se somos naturalmente mais abertos a conversar ou a conhecer alguém novo. Cada uma dessas coisas pode ser diferente em cada lugar. É nosso trabalho descobrir como facilitar essas conexões, e esse é um processo muito local.

Não é local apenas em relação ao país, mas com relação a cada prédio, porque cada prédio pode ter sua própria cultura. Se há várias companhias de finanças ou de serviços financeiros, ou de tecnologia, pode ser diferente de um prédio onde há mais pessoas de startups novíssimas ou com pessoas da área de moda, ou de negócios mais artísticos e criativos.

É trabalho da nossa equipe descobrir como fazer isso funcionar. Não existe uma fórmula. Estamos abertos a cada lugar ter sua própria identidade.

UOL - O que o senhor diria para quem vê a WeWork apenas como uma empresa que aluga espaços de trabalho?

Quando começamos, tínhamos vontade de ajudar as pessoas a encontrar conexões significativas. Sabíamos que isso era essencial. Há muitas coisas que podemos fazer, mas isso está no coração do que somos.

Sei qual é a nossa motivação e por que existimos, e esperamos que isso continue. Os membros podem vir até nós de formas diferentes ou por razões diferentes, mas, na origem, esperamos que descubram que a comunidade, a conexão, é a parte mais valiosa do que podemos fazer por eles.

Vocês já têm vários negócios diferentes mesmo sendo uma empresa jovem [os negócios incluem desde moradia compartilhada e academia até escola infantil].

Quando começamos, a ideia era apoiar as pessoas de forma holística. Então, estávamos em busca de pessoas que achávamos interessantes, apaixonadas, pessoas que estavam buscando o trabalho de suas vidas, que estavam tentando encontrar o que as completa, e nosso objetivo era apoiá-las nessa jornada.

Algumas pessoas buscam essa paixão por meio do trabalho, outras pela educação, algumas podem encontrar em sua boa condição física ou em seu bem-estar. Há várias formas de as pessoas buscarem a si mesmas, buscarem o seu melhor, e nossa ideia era ajudar, criar formas de apoiá-las e conectá-las com outras pessoas que também estão nessa jornada.

Apoiando refugiados, mulheres, gays

Empresas grandes também usam espaço coletivo

UOL - Um espaço compartilhado de trabalho em São Paulo é diferente de um em Tóquio [Japão], Londres [Inglaterra] ou na Cidade do México [México] em termos de infraestrutura, facilidades disponíveis, valores cobrados?

Miguel McKelvey - Há muita diversidade no que estamos tentando fazer para servir companhias diferentes e pessoas diferentes. No WeWork Labs, por exemplo, apoiamos startups que estão no estágio inicial, o que é completamente diferente do que podemos fazer por um negócio no Powered by We, que é para companhias que estão muito mais estabelecidas.

Aqui no Brasil, por exemplo, conseguimos um grande sucesso em conectar membros no WeWork Labs. Em outros lugares nós ainda não temos o WeWork Labs. 

Muitas empresas grandes agora estão colocando suas equipes dentro da WeWork no mundo todo. Então, podemos servir uma companhia global e fazer com que ela tenha locações em 10 ou 15 cidades diferentes.

Para nós isso é animador, porque achamos que as grandes empresas estão lutando talvez até mais do que as pequenas para descobrir como desenvolver uma ótima cultura, um lugar onde seus funcionários estejam realmente felizes em trabalhar todos os dias. Descobrir como ajudá-las é um novo desafio para nós, mas é um desafio com o qual estamos muito animados.

Este é o caminho para o qual vocês estão indo: atender cada vez mais as grandes empresas, em vez das pequenas e dos freelancers?

Quando começamos, tínhamos uma diversidade enorme, não tínhamos startups no sentido tradicional --geralmente você pensa em uma startup como uma empresa de tecnologia arrecadando dinheiro, tentando crescer para se tornar um unicórnio ou algo do tipo. Nós sempre tivemos muitas pequenas empresas, muitas agências ou prestadores de serviços, arquitetos, estilistas, que não são startups tradicionais.

Aquela energia cria uma sensação positiva quando é compartilhada entre todas essas pequenas empresas. Se uma empresa de quatro ou seis pessoas estivesse em um escritório fechado e não tivesse uma conexão, poderia ser bem tedioso.

Começamos a resolver o problema de criar essa conexão, mas vimos que grandes empresas também estavam colocando equipes na WeWork. Isso não era nosso plano, aconteceu de forma orgânica e respondemos a isso, dizendo "ok, talvez possamos fazer um espaço para 50 ou 100 pessoas".

Agora, se uma empresa quer um andar inteiro ou um prédio inteiro, e isso apenas evolui, estamos tentando descobrir a melhor forma de servi-las.

Estamos muito no começo disso, ainda temos um longo caminho a percorrer, mas estamos animados, porque, se você olha para a força de trabalho globalmente, a maioria das pessoas trabalha em grandes empresas. Então, se você realmente quer ajudar as pessoas a amarem suas vidas, você tem que ajudar as grandes empresas. Não é suficiente atender apenas as pequenas.

Sem limite de idade

A WeWork é assim:

  • Fundação (no mundo)

    2010

  • Início da operação no Brasil

    2017

  • Funcionários no mundo

    Cerca de 6.000

  • Funcionários no Brasil

    Cerca de 250

  • Clientes no mundo

    Cerca de 320 mil

  • Clientes no Brasil

    Cerca de 12 mil

  • Unidades no mundo

    Cerca de 335 em 83 cidades de 24 países

  • Unidades no Brasil

    15

Espaço compartilhado não é só para jovens

UOL - Espaço de trabalho compartilhado é apenas para jovens profissionais?

Miguel McKelvey - Não! De jeito nenhum. É por isso que dizemos a geração "Nós", porque isso não tem a ver com idade, mas com intenção, significado e propósito, e com ter uma conexão com algo maior do que você mesmo. Qualquer pessoa pode ter isso. Não há nenhuma relação com idade, mas com estar aberto e disposto a mudar.

Esse é um dos desafios. Se algumas pessoas estão fazendo a mesma coisa há 10, 20 ou 30 anos, talvez elas tenham menos disposição para se lançar em novas coisas, mas eu acho que assim que elas cruzam a linha e dizem 'Vou tentar', o mundo inteiro se abre para elas.

Alguém que é mais velho pode ter um pouco mais de dificuldade em se ajustar a algo novo, mas uma vez que a pessoa tenta, ela ama. Não tem a ver com ser jovem ou velho ou nada disso. Tem a ver com a disposição para tentar algo novo.

Qual é a importância do Brasil para a WeWork globalmente?

Nossa equipe tem uma energia incrivelmente positiva. Quando eles vêm para nossos eventos, eles têm tanta paixão e compartilham isso com o restante da equipe, com outras pessoas do mundo todo. Então, sei que isso é importante.

Também aprendi muito sobre o quão apaixonados eles são em fazer a diferença no Brasil e em suas comunidades locais, não apenas para o crescimento da WeWork, mas para tentar ajudar com assuntos sociais, com conscientização.

Eu me sinto incrivelmente otimista com relação ao que nossa equipe está fazendo aqui e acho que ela é exemplo para outras equipes nossas mundo afora.

Vocês investiram recentemente na The Wing [espaço de trabalho exclusivo para mulheres]. Como veem a questão da mulher nos espaços de trabalho?

Muitas mulheres estão administrando nossos prédios, às vezes com 1.000, 2.000, 3.000 membros, e estão fazendo um trabalho incrível. Nossa primeira tarefa é apoiar nossa própria equipe e ajudar as nossas mulheres a se sentirem felizes e animadas em vir para o trabalho, e garantir que a sua experiência seja ótima, que estejam incrivelmente felizes em trabalhar para a WeWork e que sejam empoderadas aqui.

Temos de lembrar a equipe o que já construímos para criar esse ambiente onde as pessoas, homens e mulheres, são de muitas formas tratados mais igualmente do que jamais foram antes, especialmente em países e em empresas onde esse não era o caso.

A The Wing também é um grupo incrível de pessoas que está encontrando novas formas de empoderar uns aos outros, e eu acho que o motivo pelo qual queríamos trabalhar com elas é aprender como ajudá-las a ter sucesso.

Também há programas de refugiados, veteranos de guerra nos Estados Unidos, membros da nossa equipe, mulheres que trabalham para nós, a parada do orgulho LGBT. Nossa equipe está engajada em apoiar uns aos outros, não importa quem seja, pessoas negras, de diferentes origens, seja quem for. Nos sentimos realmente animados com a paixão que a nossa equipe tem em apoiar uns aos outros e ajudar os que são diferentes.

Acho que estamos melhorando nisso, porque falamos sobre isso o tempo todo, nos pressionamos a fazer mais, e os membros da nossa equipe são apaixonados por isso.

Vocês têm muitos concorrentes. Como explicam a atração que exercem sobre os investidores?

Em primeiro lugar, diria que somos a única empresa que faz algo como o que estamos fazendo, em termos de comunidade global, de ser realmente motivado em conectar pessoas e ajudá-las a ter sucesso.

Não há como dizer em palavras o que faz a WeWork diferente. É preciso entrar em um prédio e sentir a energia e a positividade, e foi isso o que convenceu muitos dos nossos investidores. Olhar apenas para o modelo de negócios ou para a planilha nunca vai contar a história sobre o que é a WeWork.

Acho que eles veem a mágica que acontece em um prédio, em dois prédios, em 40 prédios em Nova York, e pensam "por que não 400?" ou "por que não 4.000?" Não é um grande salto ver esses números e acreditar que podemos recriar essa energia.

Keiny Andrade/UOL e Arte/UOL

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