Vale-app transporte

Empresas dão "vale-aplicativo" como benefício para funcionário usar no lugar de ônibus, diz chefe da Cabify

Beth Matias Colaboração para o UOL, em São Paulo
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Marcelo Justo/UOL Marcelo Justo/UOL

Carro coletivo

A preocupação com mobilidade está levando empresas a darem "vale-transporte de aplicativos", como benefícios a suas equipes. Os funcionários ganham um determinado valor por mês para usar em apps de transporte, em vez de ônibus. A informação é do presidente da Cabify Brasil, Pedro Meduna, em entrevista exclusiva na série UOL Líderes.

Meduna fala sobre a violência do país e a necessidade de criar uma tecnologia de segurança nos aplicativos para proteger motoristas e passageiros. Ressalta também a importância da integração dos modais para melhorar a mobilidade nas cidades.

O presidente da Cabify elogiou a reforma da Previdência e defendeu um projeto de reforma tributária que simplifique, elimine a guerra fiscal entre estados e faça investimentos melhores com a arrecadação.

Mobilidade compartilhada

Ouça a íntegra da entrevista com o presidente da Cabify Brasil, Pedro Meduna, no podcast UOL Líderes. A entrevista completa em vídeo com o executivo está disponível no canal do UOL no YouTube. Continue nesta página para ler o texto.

Benefício para funcionários

UOL - Qual é o principal foco da Cabify?

Pedro Meduna - É mobilidade. O futuro da mobilidade será a mobilidade como um serviço. As pessoas vão deixar de ter carro e vão buscar opções mais vantajosas para se movimentar de um ponto A para um ponto B. No Brasil, nosso grupo tem dois serviços principais: a Cabify, que é um serviço peer-to-peer [ponto-a ponto], e a Easy Taxi que é um serviço de táxi. Você consegue apertar um botão e chamar um carro para ir de um ponto a outro.

A utilização dos aplicativos está mudando nas empresas?

Acredito que sim. O que vemos nas empresas mais inovadoras é que não só oferecem transporte por aplicativo para o funcionário, como algumas estão colocando no pacote de aditivos, como seguro de vida, seguro de saúde.

São colocados, por exemplo, até R$ 200 para usar de Cabify ao longo do mês. Funciona como um benefício mesmo. Muitas pessoas veem valor.

Para a empresa, é bom porque não precisa ter vagas no estacionamento. Veremos esses movimentos que estão em linha com as tendências da sociedade: mudança de hábitos de consumo e de mobilidade.

Existem empresas fazendo isso?

Sim, temos. As empresas mais criativas estão escutando os funcionários. Veja o meu exemplo: sou de outra geração e leio o jornal físico. Para mim é legal ir da minha casa para o trabalho, no carro, lendo o jornal, é um hábito.

Se eu tivesse que guiar, não poderia fazer isso. É uma tendência que deve evoluir. A empresa oferecerá um número de pontos que o funcionário poderá usar para melhorar o plano de saúde ou alocar para um serviço de mobilidade ou de academia.

Ela vai deixar que o funcionário decida qual o melhor ativo para ele. Para um, pode fazer mais sentido ir à academia, para outro, a mobilidade ou um seguro um pouco maior para a família.

Como fica o mercado com os subsídios que os aplicativos estão dando aos clientes? Há espaço para lucrar e crescer?

Acredito que exista uma diferença da Cabify para outras empresas do setor. Somos diferentes de outras empresas de tecnologia que dependem de fundos.

Sobre outras empresas, é difícil comentar, mas o que é diferente do mundo de tecnologia e inovação é que muitas vezes estamos construindo um segmento.

A Cabify está mudando a mobilidade nos países onde atua. Então, às vezes, faz sentido que uma empresa como a nossa invista mais e postergue um pouco mais o lucro. Mas, no nosso caso, estamos bem confortáveis.

Mas neste ano vocês diminuíram o valor das corridas...

Sim, fizemos esse movimento. Entramos no Brasil em um momento em que alguns competidores estavam introduzindo dinheiro e ampliando para regiões mais afastadas do centro.

A Cabify sempre foi vista no Brasil como um produto muito mais premium. Baixamos um pouco o preço, mantendo a qualidade de serviço porque os nossos condutores têm os melhores NPS (Net Promoter Score - métrica de lealdade), escutamos dos nossos condutores que eles gostam de usar o aplicativo, mas que gostariam de mais chamadas. Diminuímos um pouco o preço para aumentar o volume sem afetar a qualidade.

Hoje vocês estão presentes em quantas cidades no país?

A marca Cabify está presente no Brasil em oito cidades, o produto Easy Taxi, que você consegue pedir dentro do aplicativo Cabify, está em cerca de 50.

Qual a dificuldade de expansão para outras cidades?

Postergamos ao máximo a entrada de dinheiro como opção de pagamento porque entendemos que dinheiro é uma opção menos segura, e sempre privilegiamos segurança versus crescimento.

Mercados do Nordeste, que são mais sensíveis ao dinheiro, deixamos para depois. Recentemente, habilitamos essa função [dentro do aplicativo]. Poucas pessoas ainda estão usando a função, mas vemos um crescimento forte nesse segmento.

Estamos muito focados em termos uma comunidade e um negócio rentável nos mercados existentes. Devemos expandir para cidades como Recife, Fortaleza e Salvador, mas ainda não temos uma data específica para esse lançamento.

A Cabify é assim

  • Fundação

    2011 (Espanha), 2016 (Brasil)

  • Funcionários diretos

    Cerca de 1.000 (mundo)

  • Motoristas

    Empresa não revela o número

  • Clientes

    7 milhões (mundo)

  • Cidades que têm Cabify

    40

  • Principais concorrentes (Brasil e mundo)

    Uber, 99, Free Now (Europa),Taxis Libres (Colômbia)

  • Sustentabilidade

    Empresa diz que compensa 100% da emissão de carbono

Falta de transporte coletivo abre mercado para apps

UOL - Quais as diferenças que o senhor vê entre o mercado brasileiro e o estrangeiro?

Pedro Meduna - Infelizmente no Brasil ainda não temos uma estrutura de transporte público bem desenvolvido. A história da Cabify é bastante curiosa porque o nosso fundador é um espanhol de uma cidade pequena.

Ele viu que existia uma possibilidade de facilitar a locomoção usando a tecnologia. Mas, seis meses após lançar o aplicativo em Madri, ele veio para a América Latina. Isso porque, o metrô e os ônibus funcionavam tão bem em Madri, que, para uma empresa como a Cabify, o maior potencial estava na América Latina.

No Brasil, as pessoas fazem trajetos mais longos, principalmente em regiões sem metrô. Se o metrô fosse um pouquinho mais avançado, ele iria de metrô todo o trajeto.

O futuro passa por uma integração de modais. Esperamos ter um transporte público eficiente e que as pessoas usem a Cabify ou outras funções tecnológicas que queremos trazer para o Brasil, via aplicativo, como uma opção a mais para ir de um ponto A para um ponto B.

Como estão se preparando para carros autônomos e drones?

O carro autônomo é uma realidade. Tive a oportunidade de ver um deles em uma conferência em São Francisco. Quando você pega um carro do aeroporto para o centro, vê as pessoas mexendo em seus iPads, com a direção se movimentando.

Como presidente de operações no Brasil, eu digo que o país ainda vai tardar um pouco para receber os carros autônomos porque é preciso estrutura e regulamentação.

E consertar muito asfalto ainda?

Ainda falta bastante. A única certeza que temos é que a tecnologia autônoma vai vir e a outra é a elétrica. A matriz de energia vai mudar e vamos ver mais carros autônomos e mais carros elétricos, o que é bom, porque vai de acordo com a visão de sustentabilidade que a Cabify tem.

O crescimento dos trabalhos por aplicativo está diretamente relacionado ao crescimento da informalidade?

Diretamente não. Gosto de separar a informalidade do modelo autônomo que estamos desenvolvendo no Brasil. Se você me perguntar sobre futuro das relações de trabalho, eu acredito que as pessoas terão trabalhos autônomos.

Nossos pais tiveram de um a três empregos, nossa geração de quatro a sete. Nossos filhos terão sete empregos ao mesmo tempo. Porque as pessoas serão cada vez mais donas de seu tempo.

Acredito que o crescimento dos aplicativos de mobilidade no Brasil passa por um excesso de oferta por causa da crise pela qual o Brasil passou, mas do lado da demanda acho que as pessoas estão percebendo que é mais barato mesmo. A explosão de oferta é uma soma de vários fatores, inclusive a crise e o fato de o transporte público ainda não ser tão desenvolvido.

Um comportamento do usuário é muito interessante: muitas pessoas optam por usar aplicativo na quarta, quinta e sexta porque ele pensa que segunda e terça ele pode caminhar, mas depois merece mais comodidade.

Qual a sua opinião a respeito das cidades que adotaram uma regulamentação mais rígida para a operação de aplicativos?

A minha visão é bem simples. Como toda nova economia e toda nova tecnologia que está revolucionando indústrias de diversos segmentos, é importante que surjam novas regulamentações e que haja esse diálogo.

É óbvio que, se você fizer uma regulamentação muito restritiva, haverá efeitos que você nem imagina. Pode aumentar a chance de haver um monopólio, porque o investimento terá que ser muito grande.

Em linhas gerais, nós somos a favor da discussão. No caso brasileiro, já fizemos bastantes avanços. Os reguladores entendem a importância que o setor tem para a economia brasileira, uma melhor mobilidade nos centros melhora muita coisa, reduz trânsito, melhora o crescimento econômico da cidade.

O que o senhor acha de o governo querer cobrar impostos de motoristas e empregadores de apps para fins de aposentadoria?

Eu entendo que o motorista de aplicativo precisa, como todos os outros brasileiros, encontrar formas de contribuir [para a Previdência], mas precisa ser feito escutando os dois lados. É preciso ser feito de maneira gradual, enxergando que os motoristas são, microempreendedores, e facilitando as coisas.

No caso deles, é diferente de um funcionário que tem retenção na fonte. Eles são empreendedores, autônomos, querem contribuir, mas é preciso ser feito de uma maneira que facilite e não crie um impeditivo.

Qual a importância do Brasil para a matriz hoje?

O Brasil é um dos nossos quatro maiores mercados, onde existe uma grande oportunidade, mas também onde há maior competição. Tentamos, em linha com a visão do grupo, rentabilizar o máximo possível. Queremos ser valorizados pelos clientes que focam segurança e qualidade de serviço.

O que o senhor acha da reforma tributária?

A reforma tributária precisa simplificar. Os empresários brasileiros estão cansados da alta carga tributária, mas ao mesmo tempo temos muitos desafios de investimentos. O Brasil cobra muito imposto e investe mal. O governo pode trabalhar nos dois lados.

Deve investir um pouco melhor a arrecadação, mas, no lado da captação, precisa simplificar e ser mais transparente. Em linhas gerais, quando conseguimos simplificar a tributação, trazer mais transparência, acabar com a guerra dos estados, com tributações diferentes. Quanto mais simplificar essa parte e do outro lado, investir melhor, vamos crescer como nação.

O que o senhor achou da reforma da Previdência?

Vínhamos de uma antiga Previdência que partia do pressuposto que tinha muita gente trabalhando e as pessoas estavam vivendo pouco. Mas as pessoas começaram a viver mais e a nascer menos.

Matematicamente se não tivessem feito, o Brasil ia para o buraco. Não iríamos conseguir arrecadar o suficiente para cobrir os custos de Previdência. De maneira prática, foi uma das maiores reformas de Previdência feitas em uma nação democrática. É um fato para se orgulhar.

Marcelo Justo/UOL Marcelo Justo/UOL

Nossos pais tiveram de um a três empregos, nossa geração de quatro a sete. Nossos filhos terão sete empregos ao mesmo tempo. Porque as pessoas serão cada vez mais donas de seu tempo.

Pedro Meduna

Botão do pânico contra assaltos

UOL - Como vocês oferecem segurança aos condutores da Cabify?

Pedro Meduna - Temos um kit de segurança no aplicativo que permite compartilhar uma viagem em tempo real por WhatsApp com outra pessoa. Se por acaso ocorrer algum problema, ele pode apertar um botão de emergência.

Segurança é algo sempre em evolução. Desde a maneira como tratamos a entrada de novos condutores, fazendo testes toxicológicos, até os treinamentos, tudo isso afeta a segurança.

A escolha das áreas de atuação passa por essa questão de segurança?

Sim. Por exemplo, o dinheiro é menos seguro do que a opção de cartão de crédito. A primeira coisa que fizemos foi habilitar os nossos condutores a querer ou não trabalhar com dinheiro. Tem gente que não quer.

Mesmo entre os que querem, atuamos em determinas regiões da cidade. Mapeamos por meio dos algoritmos internos as regiões com maior propensão a ter um incidente e bloqueamos o uso de dinheiro em uma corrida.

O que estamos fazendo, por meio da tecnologia, é trabalhar para que novos incidentes não ocorram. Eu gostaria que não houvesse esse risco, mas infelizmente o Brasil é um país que não é seguro, e fazendo milhões de viagens nesse mercado, entendemos que é um ponto [a combater].

Qual a cidade no Brasil mais segura e qual a mais insegura?

Com certeza, o Brasil é menos seguro que o nosso mercado de Madri, por isso, por mais que tenhamos a maior parte da nossa equipe de tecnologia em Madri, toda a parte de segurança é desenvolvida por uma equipe local, brasileira. Entendemos que esse é o mercado menos seguro. Se algum engenheiro de Madri falar que não é um problema, nós aqui sabemos que é. Prefiro dizer que o Brasil é menos seguro que Madri.

Jovem não tem nem carro nem habilitação

UOL - Em cidades como São Paulo, onde os táxis podem trafegar nos corredores de ônibus, por exemplo, não é mais vantajoso ir de táxi?

Pedro Meduna - Eu uso muito táxi em São Paulo porque tem a vantagem da faixa exclusiva, Dependendo do dia, o táxi pode ser mais barato do que o motorista por aplicativo, porque os preços são dinâmicos, mas os do táxi são estabelecidos.

Além de ser mais cômodo, ele pode ser mais barato. Particularmente prefiro o táxi, mas a visão de companhia é oferecer para os usuários novas possibilidades de transporte.

Por isso, acreditamos que no futuro a mobilidade vai passar por uma série de opções mais integradas. Uma pessoa pode pegar um Cabify da sua casa até um ponto do metrô e dali ir para o seu ponto final. Vemos isso com bons olhos.

E há espaço no mercado para Cabify, Uber, 99, Easy Taxi?

Sem dúvida. Acreditamos que isso seja uma tendência. O meu pai trabalhou em uma empresa automotiva a vida inteira. O primeiro ativo foi o carro. Ele adorava. Era a liberdade de ter o primeiro carro.

Outro dia eu estava proferindo uma palestra para alunos de 20 anos da Fundação Getúlio Cargas, e metade da classe nem tirou a carteira de motorista. Não é que não tenham carro... não estão tirando nem a carteira.

A Cabify tem uma visão muito focada em rentabilidade e diferenciação de serviços. Fazemos exames toxicológicos em nossos condutores, temos carros mais novos, atuamos em regiões mais centrais das cidades e nos diferenciamos da competição por qualidade de serviço e segurança.

Apesar de os mais jovens não quererem carro, a indústria automobilística continua vendendo muito.

Sim, continua. O mundo está mudando tão rápido que as pessoas pensam em não investir em um ativo que terão que trocar daqui a pouco. No nosso setor, vemos exatamente isso. Ter carro gera custos que às vezes são invisíveis. Falamos sempre nos básicos, como IPVA e depreciação do veículo, mas há seguro, multas, manobrista quando você vai a um restaurante.

As pessoas que fazem contas vão entender que não faz sentido ter o carro e buscarão outras opções de mobilidade. Já é um fenômeno bastante real.

Como o brasileiro vê a questão da sustentabilidade do trânsito?

A Cabify compensa 100% do carbono de todas as viagens. Não só das corridas que são feitas, mas também do funcionário que vai e volta do trabalho. Fizemos uma parceria com uma organização não-governamental que reserva e refloresta uma área da Amazônia.

Fazemos doações para compensar todo o carbono emitido na operação brasileira. Vemos em Madri, assim como em São, pessoas optando pela Cabify porque é mais sustentável.

O brasileiro ainda não está nesse nível. Vivemos em um momento de discussões -o óleo no litoral nordestino-, mas vejo o tema entrando na pauta. Isso [a sustentabilidade] será um ponto de decisão.

O brasileiro não vê o investimento em sustentabilidade como um valor agregado, não é?

A pessoa física ainda não. Mas, por exemplo, fizemos uma parceria com o Instituto Ayrton Senna e eles quiseram juntar a marca deles à da Cabify pela visão sustentável que a empresa tem.

Foi um orgulho o Instituto Ayrton Senna, que luta pela educação do Brasil, com o símbolo de um dos maiores heróis da nossa nação, associar-se à nossa marca.

A visão da Cabify é ser uma das primeiras startups a levantar essa bandeira e esperamos que outras copiem e que tenhamos um mercado mais sustentável.

O que o senhor poderia falar sobre a Movo, de aluguel de patinetes e bicicletas? Qual vai ser o seu diferencial e quando entra em operação?

Ela já está operando em mercados como Espanha, Colômbia, Argentina, Chile, México. Para o Brasil, deve vir o mais rápido possível, deve ser o próximo mercado.

Sobre a Movo especificamente, acreditamos muito no setor de micromobilidade no último quilômetro. A pessoa usa a Cabify até o metrô, depois usa o metrô e pode usar uma patinete elétrica para chegar no último ponto. Quanto maior a integração de modais, mais ganha o usuário.

Acho que uma das diferenças competitivas que a Movo vai trazer é a capacidade de alavancar a base de usuários já existente no aplicativo.

Outra coisa que me motiva muito é que é 100% de energia elétrica. O usuário usa, em média, quase duas vezes mais uma patinete do que um carro de longa distância, por mês. Vemos taxas de crescimento incríveis em todos os mercados onde lançamos e esperamos trazer essa tecnologia para o Brasil o mais rápido possível.

Arte/UOL

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