Falando com embalagem

Com queda nas cópias em papel, Xerox busca novos negócios, como embalagens que "conversam" com clientes

Beth Matias Colaboração para o UOL, em São Paulo
Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL
Carine Wallauer/UOL Carine Wallauer/UOL

Em busca do original

Cópias em papel estão desaparecendo, por isso a Xerox busca produzir inovações, como embalagens inteligentes que transmitem dados aos clientes já nas prateleiras. A informação é do presidente da empresa no Brasil, Ricardo Karbage, em entrevista exclusiva na série UOL Líderes.

Entre outros serviços, as máquinas da Xerox, que não são mais só de fazer cópias, traduzem documentos em até 40 línguas e os distribuem automaticamente pelo mundo. Ele diz que o Brasil é muito burocrático, e os impostos, complexos e difíceis de administrar.

Critica também a obrigatoriedade da guarda de documentos por muito tempo e a necessidade de validação de transações fiscais por vários órgãos de governo.

Clientes vão falar com os produtos

UOL - Qual é a tecnologia mais avançada atualmente no mercado da impressão?

Ricardo Karbage - O mais importante não é o equipamento em si, mas as aplicações que as empresas podem desenvolver e colocar lá. Estamos desenvolvendo o conceito de aceleração para a impressão 3D, quer seja metal ou plástico, que ainda é um pouco lenta.

Temos tecnologias para embalagens para que elas falem com o consumidor final. Como funciona isso? Você tem uma gôndola de uma loja de cosméticos, por exemplo, e cada embalagem tem um sensor. Quando você retira aquela embalagem com o produto, o sensor detecta, e uma telinha próxima à gôndola explica os benefícios, as características daquele produto [este é um projeto em estudo, que ainda não está pronto].

São inovações que estamos trazendo, algumas já em processo de comercialização. A empresa neste momento está passando por uma transformação forte, e lançamos uma campanha chamada "made to think", que significa "feitos para pensar". Pensar não só no presente, mas na criação do futuro.

Quais as grandes transformações que o mercado de impressão viveu nos últimos anos?

Se lembramos o Brasil há 15 anos, o país imprimia mais de 300 milhões de folhas de cheque por mês. Hoje isso praticamente não existe. Essa é uma grande transformação. É uma tendência de mercado: cada vez menos impressão em larga escala.

O conceito da impressão está ficando em segundo plano, porque o mais importante é a existência de um documento. Ele sempre vai existir, quer seja em papel, quer seja digital, não importa se ele foi criado e depois digitalizado ou se ele nunca será impresso. As transformações vão por aí.

Estamos desenvolvendo um conceito muito forte para que o nosso equipamento seja conhecido como uma extensão da força de trabalho de um escritório, como se fosse mais uma pessoa contribuindo para aquele ambiente de trabalho.

Chamamos isso de "workplace assistant", um assistente de trabalho. É um tablet acoplado [à impressora], com inúmeros aplicativos que automatizam o trabalho em um ambiente de escritório. O equipamento deixa de ser simplesmente saída de papel e passa a compor processos de trabalho nas empresas.

É um equipamento que auxilia em processos de trabalho e que também imprime, se necessário, mas é muito mais que isso. Você pode mandar um documento para o equipamento, e o aplicativo, por exemplo, pode traduzir para 40 idiomas. Pode traduzir e fazer a distribuição para uma empresa que tem filiais no mundo todo.

Temos aplicativos para segmento educacional, nos quais envio teses digitais ou em papel. Elas passam por um processo de inteligência, inclusive de busca na internet, de potenciais plágios e cópias.

Estamos fomentando e incentivando que desenvolvedores coloquem aplicativos no nosso "marketplace". É uma plataforma aberta, e o céu é o limite. Você pode fazer qualquer coisa: trazer documentos, guardar na nuvem, fazer conexão de uma nota fiscal com um sistema. O documento entra em papel, digitaliza automaticamente e inicia o fluxo de pagamento automatizado. Esse é o conceito que queremos disseminar.

Qual o principal negócio da Xerox hoje?

É uma empresa centenária, muito conhecida como a empresa que criou o conceito de copiadora. Xerox virou verbo [xerocar]. Na verdade, esse conceito de tirar cópias, há muitos anos, ficou obsoleto.

Hoje, apesar de sermos uma empresa chamada Xerox, não temos nenhuma máquina só de xerox no portfólio. Temos equipamentos que também tiram cópias, mas fazem muitas outras coisas.

Nosso negócio vai desde o hardware em si, que são equipamentos multifuncionais que imprimem, tiram cópias e têm todo um conceito de tablet acoplado com aplicativos, até serviços que melhoram processos e gestão de documentos nas empresas.

Nós somos uma empresa B2B (empresa com empresa), ou seja, temos pouca atividade com o consumidor final. No B2C (empresa com consumidor), temos algumas impressoras e equipamentos multifuncionais de pequeno porte, mas o foco do nosso negócio é B2B.

Xerocar está deixando de ser verbo?

Temos que olhar o verbo do ponto de vista do orgulho, aquilo que foi criado, tem sua história, toca o coração de quem viveu isso muitos anos, mas ele também não deixa de ser um impeditivo para a gente colocar na cabeça das pessoas que nós não somos só isso. As pessoas associam muito ainda a empresa a cópias, e não é isso que queremos passar como mensagem hoje em dia. Mas não vamos negar as nossas origens, porque é uma marca forte.

Futuro além das cópias

O papel vai acabar?

UOL - As novas tecnologias vão levar a uma diminuição na impressão no país?

Ricardo Karbage - Acho que sim. O volume de impressão em escritório reduz 5% ao ano. Agora, aquela velha máxima se o papel vai acabar, é difícil afirmar isso. Há uma redução na impressão, porém, você abre outras frentes. Veja algo que vai na contramão: a impressão de livros hoje cresce no Brasil. Apesar de a tecnologia de livro digital já estar disponível há bastante tempo, o volume de impressão de livro é crescente. À medida que mais pessoas passam a ter acesso à educação e cultura, esse volume cresce também.

O senhor acredita que o aumento da impressão de livros é uma característica do Brasil? Porque lá fora as livrarias estão acabando...

Um conceito interessante na impressão de livro [no Brasil] é a impressão por demanda. Daí essa transformação nessa indústria. A tendência é a impressão por demanda, baixas tiragens, um processo mais digital, e é um processo no qual temos ajudado nossos clientes.

É o que estamos vendo hoje na Amazon, por exemplo?

Sim, exatamente, essa é uma tendência.

Quanto tempo o senhor acredita que levará para o fim das cópias de papel?

Ninguém pode afirmar quanto tempo, talvez nunca acabe. O que há é uma tendência de redução, dependendo do ambiente. A beleza é deixar a decisão para quem tem a necessidade, se prefere em papel ou digital. O americano, por exemplo, tem uma indústria de mala direta em papel. Um país extremamente digital e desenvolvido, mas o volume de mala direta que circula nos Estados Unidos é gigantesco.

Com a chegada da internet, aumentou ou diminuiu a quantidade de material impresso?

A internet tende a diminuir, mas por outro lado ela dá um acesso maior à informação. A tendência de diminuição de impressão é um fato. Se é simplesmente por causa da internet, celular ou outra tecnologia, é difícil precisar, mas que há uma redução no uso de papel há, sem dúvida.

A diminuição da impressão impactou os negócios da Xerox?

Em um primeiro momento, sim. E você não transforma uma empresa secular da noite para o dia, mas hoje estamos absolutamente tranquilos porque estamos muito bem posicionados para essa transformação do papel para o digital. Temos softwares, serviços, tecnologia, tudo aquilo que não necessariamente depende do papel. Ainda é um componente importante do nosso negócio, mas, à medida que o mercado vai se transformando, estamos prontos e completamente adaptados a isso.

Qual foi o impacto das fotos digitais no mercado de impressão?

Nós somos fornecedores de impressão para fotografia também. Fornecemos impressoras de maior porte para gráficas e empresas que imprimem fotos que recebem pela internet. Para nós, é um negócio interessante e que está crescendo, exige alta qualidade, está completamente ligado ao mundo moderno de e-commerce.

Senhas para limitar xerox

Preocupação em derrubar menos árvores

UOL - O mundo continua desperdiçando muito papel? Como evitar?

Ricardo Karbage - As empresas há muito tempo começaram a se preocupar mais com o meio ambiente. Campanhas ligando o uso do papel ao meio ambiente é algo muito comum e já está bastante tempo estabelecido. Isso trouxe uma maior conscientização. Não resolveu tudo.

[No Brasil], a diminuição foi algo forçado, não foi iniciativa de um fornecedor, de uma empresa, mas foi a crise que veio. Com essa crise, as empresas foram buscar redução de custo, e impressão é algo que também é alvo dessa redução. Diminuíram-se as cotas de impressão, e os usuários foram forçados a imprimir menos como direcionamento das próprias empresas.

Além disso, existem tecnologias que podem ajudar a reduzir isso. Por exemplo, aquele conceito do usuário enviar um documento e esquecer na impressora pode ser minimizado no seguinte sentido: eu posso travar a impressora para ela receber aquele arquivo, mas só imprimir se o usuário for lá e/ou passar o crachá ou colocar uma senha para desbloquear aquele arquivo. São proteções para diminuir a impressão.

Fazemos projetos com os clientes, parece uma dicotomia, para diminuir a impressão. Exemplos: distribuição de cotas de impressão por funcionários. A empresa define um determinado limite, colocamos conceitos de "gameficação" nas empresas, onde alguns joguinhos indicam quem está imprimindo mais ou menos, quanto se salvou de árvores. Existem várias formas de fazer, e é preciso estar muito bem alinhado com o interesse das empresas. Não adianta você fazer todo um marketing e no dia a dia ver empresas que não aceitam isso, que precisam imprimir.

As impressoras estão armazenando informações, como vocês tratam a segurança das informações em equipamentos como esse?

É uma preocupação grande porque as impressoras têm sistema operacional, "hard disc", estão conectadas à nuvem, os dispositivos passam por tecnologias e testes de segurança de altíssimo nível. Nós recebemos certificação do governo americano para tecnologia de segurança dos nossos equipamentos. Investimos muito dinheiro para garantir a segurança, porque entendemos que é uma porta de entrada ou saída de informação, e, como qualquer dispositivo digital, suscetível ao ataque de hackers. Mas a tecnologia que está acoplada é muito segura e certificada.

Estamos falando de impressoras em empresas, mas a impressora que uso em casa tem a mesma segurança?

Você precisa verificar pela característica da impressora se há um sistema operacional, se há um disco rígido acoplado para esse armazenamento. Às vezes ela é só um dispositivo de saída de impressão, e há muito menos riscos. Quanto mais sofisticada, maior preocupação com segurança você deve ter.

Estamos ficando para trás na transformação digital?

Se você pensar na transformação digital, é uma realidade. Onde acho que o Brasil ainda tem uma distância de outros países mais desenvolvidos? Na formação de profissionais com o "mindset" [padrão] digital. Estamos muito longe de ter uma formação rápida completa, sem passar necessariamente por uma universidade. Precisamos de alguma coisa mais acelerada para formar pessoas, formar mais experts nesse mundo digital. Eu sinto muita falta disso nas empresas. A briga por talentos com o mindset digital, mesmo em momentos de crise, é grande.

O senhor considera que esse é um papel do governo ou da sociedade?

Acho que educação é um papel de todos, governo e sociedade. O governo tem que fazer a sua parte naquilo que é a base da pirâmide, mas a sociedade, aquela que pode investir efetivamente em educação, precisa fazer a sua parte também.

Brasil é difícil de explicar

A Xerox é assim:

  • Fundação

    1906 (mundo), 1965 (Brasil)

  • Funcionários

    500 (Brasil), 32 mil (mundo)

  • Faturamento global

    US$ 10 bilhões/ano

  • Presença no mundo

    130 países

  • Concorrência

    Ricoh, HP e Konica Minolta

Tropicalização da burocracia

UOL - Existe uma preocupação da Xerox em "tropicalizar" os serviços?

Ricardo Karbage - Para aquilo que é hardware não, porque buscamos processos produtivos eficientes e com menor custo, e nitidamente hoje a gente encontra isso na Ásia. Mas para tudo aquilo que é serviço, software, soluções, a ideia é que tenhamos tudo tropicalizado para ter aderência no Brasil. O Brasil tem suas especificidades, questões tributárias, aplicativos para o mercado brasileiro, documentação legal, cartório. Tudo isso precisa passar por "tropicalização".

Quais são as especificidades do Brasil? Que aplicativos são mais usados aqui e lá fora?

Acho que é muito comum a complexidade dos sistemas e aplicativos que transitam processos e documentos para questões fiscais. Não só necessidade de guarda por bastante tempo. O conceito de buscar e transitar informações entre as empresas e prefeituras, em agências que validam essas transações fiscais, isso só o Brasil tem. Somos um país muito burocrata, sem dúvida.

Como o senhor explica as dificuldades no Brasil para a matriz?

Já estamos no Brasil há mais de 50 anos, então a matriz entende e conhece as especificidades do país. Temos algumas características que são difíceis de trabalhar com a matriz, como por exemplo: hoje é muito difícil para uma empresa [no Brasil] fazer um plano de três anos. É comum as empresas fazerem um plano de três anos, cinco anos, colocar investimentos, mas, com os altos e baixos da economia brasileira, talvez três anos seja muito tempo, tudo pode mudar.

Essa é a diferença que temos em relação a ambientes mais ou menos estáveis em vários países. A falta de previsibilidade é uma grande diferença.

Outra diferença é que o Brasil tem muita coisa paralela ao negócio, tanto do ponto de vista de gestão como de resultados, que são as questões trabalhistas, fiscais, a burocracia em geral. Hoje precisamos ter uma estrutura de suporte financeiro proporcionalmente maior de que outros países.

O senhor acredita que a carga fiscal do Brasil é alta?

Ela é confusa, complexa, é difícil de administrar. Precisamos de simplificação nesse processo tributário. É sempre muito complicado, são discussões enormes, e as empresas gastam muito contratando especialistas, consultorias. Deveria ser mais simples e mais automatizado, quando no final o que se objetiva com isso é a contribuição fiscal como tem que ser. Mas o caminho para se chegar até lá é muito complicado e muito custoso.

E isso acaba impactando no preço final do seu produto?

Sim, exatamente.

Qual a sua opinião a respeito da reforma trabalhista?

Para as empresas, ela simplificou uma série de coisas. Achei positiva e espero que outras reformas venham com esse intuito de criar o ambiente mais propício à geração de emprego e ajudar o país a crescer.

E para os trabalhadores?

Acho que o trabalhador precisa de um conjunto de coisas. Existem as obrigações, os benefícios, mas também existe a necessidade de geração de emprego. Sem emprego nada daquilo que está ligado a benefício pode se materializar. O que o país precisa é estimular geração de emprego, o número de desempregados é altíssimo, 12 ou 13 milhões.

Como fazemos para estimular a geração de emprego com essas dificuldades?

As reformas estão aí para isso. À medida que o governo conseguir emplacar certas reformas, acredito na volta do investimento, educação básica, saneamento, um ambiente mais propício para as pessoas crescerem. Isso estimula a economia. E as empresas têm que fazer a sua parte também. À medida que as empresas virem que o Brasil vai seguir um caminho sem volta de crescimento, em função das reformas aprovadas, o investimento volta.

E a reforma da Previdência?

Acho que todos os indicadores, os estudos, mostram que há uma necessidade dessa reforma. Ninguém consegue questionar o fato de que a expectativa de vida aumentou muito e vem aumentando, e a Previdência foi criada quando a expectativa de vida era outra. É um caminho que o Brasil precisa cumprir, não é algo que em lugar nenhum no mundo foi fácil fazer, sempre há distorções a serem corrigidas.

Quando você envolve a vida de cada um, há aquela sensação de perda, mas acredito que o processo de comunicação tem que ser muito bem feito, explorando realmente os pontos principais, e a sociedade vai entender. Vai ter um ou outro que não, mas acho que no geral vai entender, e todo mundo vai ter que dar a sua contribuição.

Como pensar principalmente na população mais pobre?

À medida que aprovamos uma reforma como a da Previdência, sobrará mais recursos para investir no social. E isso facilitará que essa camada da população passe a ter acesso a melhor saneamento, a sistema de saúde, porque teoricamente aparecem mais recursos para isso. Eu vejo assim: se há uma expectativa de vida menor para uma fatia da população é porque essa fatia tem menos acesso a serviços que as levaria a ter uma qualidade de vida melhor.

Como você vê a questão da corrupção?

Acho que foi exacerbado tudo aquilo que apareceu nos últimos tempos. Foi bom aparecer porque ações foram tomadas, mas ainda está longe de se resolver. Não é um problema só do Brasil, sabemos, mas o fato de estar sendo discutido mostra que existe um movimento de intenção para melhorar isso.

E é fundamental porque são recursos públicos, é a imagem do país. Voltamos para a questão do investimento do capital estrangeiro que, em um ambiente sem corrupção, flui muito melhor.

O que o senhor espera do novo governo?

O país precisa voltar a crescer. O governo tendo articulação e conseguindo fazer reformas, isso vai vir. Espero um pouco de estabilização no país, menos ruído vindo de corrupção e outras coisas, porque isso atrapalha e tira a energia dos governantes para fazer aquilo de que precisamos, que é governar, que é fazer o país crescer.

Não tenho ainda nenhum comentário a fazer porque são três meses de governo. Aos poucos vai se adaptando essa relação entre o estilo do governo, a sociedade, a imprensa. A minha esperança é que isso vá se acomodando, e efetivamente o governo foque no que tem que ser feito, que é governar o país e fazer o país crescer.

A Xerox tem um programa chamado coaching reverso. São jovens treinando executivos?

Tivemos algumas iniciativas. Não diria treinando, mas uma conversa, uma troca muito interessante. Foram iniciativas em que jovens com a cabeça muito digital e voltada para a modernidade, com alguma bagagem profissional, mas ainda sem aquela experiência que talvez poluísse a conversa, discutindo com executivos sênior da empresa sobre diversas formas de encarar a vida hoje em dia, e conversas abertas. É sempre uma troca interessante.

Como o senhor faz para lidar com a pressão do cargo no dia a dia?

Eu não tenho pressão nenhuma! Brincadeira. Tenho muitos anos de empresa (mais de 20 anos), tenho experiência. Sei que nosso papel como CEO é fundamental, não só para administrar os nossos anseios, a nossa pressão interna, mas para segurar uma organização que tem centenas de funcionários.

Essa pressão é muito facilitada quando temos resultado, e é muito mais difícil de administrar quando o resultado não está bom. E os resultados vêm com altos e baixos. Aqueles momentos de maior pressão normalmente estão atrelados ao momento em que o resultado não está tão bom.

Vai muito do estilo de cada um. Você como executivo da empresa constrói relações e, principalmente, credibilidade. Sabendo que aquela tensão não é algo pessoal, que você é visto como alguém que tem condições de passar do ponto A para o ponto B e sair de uma determinada crise, é algo importante. Saber que você tem a confiança da empresa para isso.

Que dicas práticas o senhor daria para construir uma carreira de sucesso?

Alguns clichês, mas não há como fugir. Primeiro fazer o que gosta, e não precisa acertar de primeira. Acho cruel aos 16 anos você ter que escolher uma profissão que vai seguir para o resto da vida. Pensar que você tem cinco ou seis anos até acertar e fazer aquilo de que você gosta...

Existem coisas básicas como dedicação, tratar com seriedade, entender que o mundo é competitivo, e não adianta simplesmente passar a mão na cabeça das pessoas, que elas não vão crescer. Procurar mentores, não ficar fechado em um mundinho entre você e a internet. Eu até hoje tenho um processo de gestão em que estou muito próximo das pessoas. É aí que escuto, que aprendo e que consigo fazer desvios de rumo na organização.

Algo que é fundamental, e às vezes as pessoas esquecem, é a ética permeando a carreira como um todo, desde o início até o final. Costumo dizer que, se você suja a mão de graxa, não limpa nunca mais. O resto é o básico, estudar muito, participar, ser melhor que os outros.

Há uma coisa que é importante que é a negociação. Não adianta você ser o melhor, se achar o melhor, esquecer que existe uma relação de negociação em tudo o que você faz no mundo corporativo. É meio cruel dizer, mas, às vezes, nas empresas você tem o que você negocia e não o que merece. Importante não esquecer esse ponto também, achar que vai cair do céu porque fui o melhor aluno do MBA, e as coisas vão retornar.

Como ser original sendo presidente da Xerox?

Cada um tem o seu estilo, e é saudável isso. Estou na empresa há 27 anos. Comecei como estudante e fui crescendo. Há uma relação de confiança mútua. Somos uma empresa, do ponto de vista de gestão, meio tradicionalista. As coisas têm que casar, não adianta querer impor certas características. Até tentamos algumas vezes, mas não deu certo. Não significa que não estamos abertos a mudanças, mas elas têm que ser mais ou menos no perfil da empresa, pelo menos do ponto de vista de gestão.

A Xerox e a Fuji estão travando uma batalha nos tribunais lá fora. Como isso reflete aqui no Brasil?

O que acontece entre Xerox e Fuji é que a Fugi fez uma oferta de aquisição da Xerox que não se materializou. Foi anunciado, havia a intenção das duas empresas de concretizar a transação, mas não chegaram a um acordo após vários meses de discussão. A Fuji entende que tinha avançado no processo, e isso causou um dano; a Xerox entende que não, e por isso estão discutindo.

Fora isso, que é discutido e definido entre conselho de administração, entre as empresas, muito longe da nossa realidade, eu diria que o impacto disso no nosso negócio é zero. A nossa vida segue, a vida da Fuji segue, são duas empresas com tecnologia de ponta. Se um dia a transação acontecer, será bem-vinda também, mas o que precisamos focar hoje é no nosso dia a dia e na nossa realidade, que hoje é não há transação entre as duas empresas.

Carine Wallauer/UOL e Arte/UOL

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