Fundos quantitativos

Fundos de algoritmos usam matemática e velocidade, ganham 4,8% no ano e superam Bolsa

Márcio Anaya Colaboração para o UOL, em São Paulo Getty Images/iStockphoto/Ratana21
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Fundos que usam a velocidade e cálculo frio da matemática, em vez da hesitação e da emoção humanas, estão conseguindo bons resultados para os investidores. Os fundos quantitativos são carteiras que utilizam algoritmos para gerir investimentos, com uso intensivo de tecnologia e análises de dados.

Uma pesquisa feita pela empresa de informações financeiras Economatica, a pedido do UOL, analisou o desempenho de 24 fundos quantitativos em 2020, até o fim de julho. Foram considerados os portfólios mais conhecidos nesse segmento, criados antes de janeiro deste ano.

O resultado mostra que, em média, tais produtos acumularam alta de 4,8%, frente a um ganho de 1,9% do CDI. No mesmo intervalo, o Ibovespa caiu 11%, e o dólar apresentou valorização de 29%.

Os quantitativos também são conhecidos como fundos "sistemáticos", pois tomam decisões com base em regras previamente estudadas e testadas, explica Rodrigo Maranhão, sócio da Kadima, gestora especializada no ramo mais antiga do país, existente desde 2007. Segundo ele, o objetivo é fazer escolhas baseadas em evidências.

Esses fundos aplicam em lugares variados ao mesmo tempo, como mercados globais de juros, Bolsas e câmbio.

Alessandro del Drago, gestor da Mauá Capital, destaca que esses portfólios podem abrigar diversos modelos matemáticos e, na prática, cada um deles equivale a um gestor tomando decisões em poucos segundos, que podem englobar ações, moedas, juros etc. "Uma das vantagens é tirar o peso emocional das escolhas em momentos de forte tensão. O modelo não vai hesitar nem se precipitar na hora de decidir."

O trabalho de um gestor de fundos quantitativos é semelhante ao de um cientista em laboratório. A partir de observações do mercado financeiro, criamos teorias e testamos se aquilo é verdadeiro ou não.

Rodrigo Maranhão, sócio e gestor da Kadima Asset Management

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Quanto maior a instabilidade, maior o retorno?

Ulisses Nehmi, diretor-presidente e sócio da gestora Sparta, diz que os fundos quantitativos acabam se beneficiando de períodos de alta volatilidade porque é quando surgem mais oportunidades. Como muitos investidores ficam assustados e vendem ativos a qualquer preço, esse comportamento causa distorções no mercado, ainda que momentâneas. "Os fundos têm estilos diferentes, mas em geral os algoritmos exploram justamente essas distorções."

Períodos muito conturbados, no entanto, não devem por si só guiar a escolha nem criar nos investidores desses fundos a expectativa de retornos excepcionais. "O melhor mês histórico do nosso fundo foi justamente em março [deste ano], quando o mercado estava derretendo, e o pior foi em abril, quando começou a recuperar", diz Nehmi. "Em alguns momentos ele vai conseguir se aproveitar da volatilidade, mas em outros não."

Maranhão, da Kadima, ressalta que o cenário de alta variação de preços no mercado pode ser mais ou menos benéfico dependendo do tipo de algoritmo do fundo. Nos últimos 13 anos, diz ele, o principal produto da casa foi melhor em momentos de maior volatilidade, mas isso é consequência de como está programado.

Os fundos quantitativos possuem uma capacidade de diversificação de risco muito grande, pois conseguem processar muitas informações ao mesmo tempo.

Alessandro del Drago, gestor da Mauá Capital

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Onde os fundos investem?

Segundo especialistas, o grande trunfo dos fundos quantitativos é não ter correlação com ativos tradicionais do mercado —o que acaba sendo uma oportunidade interessante para diversificar as aplicações.

Normalmente, quando há um estresse no mercado, a Bolsa cai e o dólar sobe, por exemplo. Para os quantitativos, no entanto, não existe essa relação direta. "Se o dólar está subindo ou os juros estão indo para um lado ou para o outro, tanto faz", diz Nehmi, da Sparta.

Conforme o algoritmo, tais fundos conseguem aplicar em diferentes classes de ativos ao mesmo tempo -como mercados globais de juros, Bolsas, câmbio e commodities-, variando também o horizonte do investimento.

Embora tenham características muito definidas, os quantitativos não possuem uma categoria própria, estando inseridos no universo dos fundos multimercados. Nehmi ressalta, no entanto, que o investidor deve estar atento às diferenças. Segundo ele, o que se vê atualmente são multimercados com estratégias de investimento muito parecidas, apostando basicamente nos mesmos ativos.

"Com isso, mesmo que o investidor coloque recursos em uma série de gestores diferentes, não consegue ter uma verdadeira diversificação", afirmou. "Já os fundos quantitativos são descorrelacionados tanto em relação a ativos tradicionais quanto entre eles. Cada um acaba tendo um tipo de comportamento."

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Como escolher um fundo quantitativo?

Rodrigo Terni, sócio-fundador e copresidente da Giant Steps Capital, outra gestora especializada em quantitativos, acredita que os investidores estão hoje mais abertos a entender esses fundos. "No passado, nossa vida não era tão permeada por tecnologia como é atualmente. Hoje, existem modelos matemáticos por trás das plataformas de filmes e dos aplicativos de transporte, por exemplo."

Ele defende, no entanto, que o principal motivo para se investir em qualquer portfólio, de qualquer categoria, deva ser a rentabilidade. "Não adianta ter um fundo que diversifica, mas não agrega retorno à sua carteira", afirma.

Não se deve, no entanto, decidir com base em resultados de curto prazo, lembra Maranhão, da Kadima. De acordo com ele, o investidor precisa entender a filosofia de gestão por trás do fundo pelo qual se interessou procurar saber se existem processos bem definidos, com controles de risco rigorosos —cuidados que valem para qualquer tipo de produto. "Isso, no longo prazo, tende a trazer bons resultados."

Na Mauá, Drago conta que a recomendação de fundos quantitativos se dá basicamente para o investidor que já possui multimercados. "A diferença é a sistematização do processo de tomada de decisão."

Quem faz gestão de recursos somente baseada no feeling ou na experiência, sem usar tecnologia para processar grandes quantidades de informações, provavelmente não terá um resultado satisfatório daqui para frente.

Rodrigo Terni, sócio-fundador e copresidente da Giant Steps Capital

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