Falta coordenação ao Brasil

País piorou e precisa de coordenação do governo e da sociedade civil, diz chefe da Bayer Agro

Beth Matias Colaboração para o UOL, de São Paulo Divulgação/Arte UOL
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O brasileiro estava otimista para este ano com relação à pandemia, mas o país piorou nesse aspecto. A análise é de Malu Nachreiner, primeira mulher a se tornar presidente da divisão agrícola da centenária Bayer do Brasil.

Ela disse em entrevista exclusiva na série UOL Líderes que o país precisa de maior coordenação do governo e da sociedade civil.

Malu, que começou como estagiária e comanda agora 4.000 funcionários pelo país, destacou a importância de as empresas promoverem uma "inclusão intencional" de mulheres, negros, pessoas LGBTQI+ e com deficiência.

Na entrevista, que pode ser acompanhada também pelo podcast do UOL Líderes, a executiva defendeu defendeu a importância dos agroquímicos para combater as pragas nas agriculturas tropicais, principalmente com o crescimento do agronegócio no país.

Ouça a íntegra da entrevista com Malu Nachreiner, presidente da divisão agrícola da Bayer do Brasil, no podcast UOL Líderes. Também pode assistir à entrevista em vídeo no canal do UOL no YouTube. Continue nesta página para ler os destaques da conversa.

País precisa ter mais coordenação

UOL - Como seus pares fora do Brasil veem nossa situação [em relação à pandemia]? Quem a gente deve começar a cobrar por não estarmos melhores?

Malu Nachreiner - A Bayer opera em vários países, tivemos uma troca intensa com nossos pares ao redor do mundo. Existe, sem dúvida nenhuma, uma preocupação com o Brasil, com a Índia, com a Europa.

A nossa expectativa no ano passado, não só no Brasil, mas de maneira geral, era de otimismo. Hoje percebemos que não conseguimos sair de onde estávamos. Pelo contrário, aqui no Brasil a gente piorou.

Há uma complexidade, e eu acho que no Brasil a gente precisa, de fato, ter uma coordenação maior e mais efetiva de todos os setores.

Obviamente o setor governamental tem um papel fundamental nesse processo, tem um papel, sim, de liderar essa coordenação. O privado e a sociedade civil também estão se organizando.

Há várias iniciativas, como a Unidos pela vacina, liderada pela Luiza Trajano. A Bayer tem feito várias contribuições. No ano passado, fizemos uma doação de mais de R$ 5 milhões para necessidades da covid-19.

Neste ano, demos quase R$ 3 milhões para o Unicef. Estamos com uma campanha: para cada real que um colaborador doa a uma instituição, a companhia coloca mais um real. Imaginamos investir mais de R$ 1 milhão.

É um momento de a gente se unir como sociedade civil, obviamente cobrando uma coordenação das autoridades, mas precisamos também nos movermos o máximo possível para sairmos o quanto antes dessa situação.

A Bayer é assim

  • Fundação (Grupo Bayer)

    1863 (mundo); 1896 (Brasil)

  • Funcionários

    100 mil (Grupo Bayer/mundo); 33 mil (divisão agrícola/mundo); 4.000 (divisão agrícola/Brasil)

  • Unidades Grupo Bayer

    385 (mundo); 35 (Brasil)

  • Presença do Grupo Bayer

    83 países

  • Faturamento (mundo)

    41,4 bilhões (global, cerca de R$ 247,8 bilhões); 18,84 bilhões (divisão agro, cerca de R$ 112,7 bilhões)

Excesso de insetos no país exige mais pesticidas

UOL - A indústria de agroquímicos sofre críticas pelo impacto dos defensivos na saúde das pessoas. Como a Bayer enfrenta essa questão?

Malu Nachreiner - Como setor e indústria, devemos promover o diálogo. O agricultor precisa entender a preocupação do consumidor final.

Da mesma forma, a população precisa também ouvir os desafios, entender o que é um sistema produtivo no Brasil, em regiões tão diversas.

O Brasil tem uma agricultura tropical que sofre muito mais do que a agricultura temperada, no hemisfério norte. Aqui, temos um ataque muito maior de doenças e pragas do que na agricultura temperada.

Por isso, precisamos de diferentes técnicas, produtos e ferramentas de controle dessas doenças e pragas porque, senão, pode se tornar inviável economicamente produzir em larga escala no país.

A agricultura no Brasil é hoje um quarto do nosso PIB [Produto Interno Bruto] agrícola. Não é só uma questão de produção de alimento, é uma questão de geração de renda e riqueza.

Devemos trazer a sustentabilidade para o centro da agricultura. Lançamos recentemente a Iniciativa Carbono Bayer.

Não cabe mais a discussão de produção de alimentos ou sustentabilidade. Essas duas coisas precisam caminhar em conjunto. Não é uma ou outra, é uma com a outra.

Poderia citar algumas pragas que só existem na agricultura tropical?

Sem ser muito técnica, o complexo de lagartas é um dos mais desafiadores em culturas como soja e milho. Mas temos o que chamamos de grupo de sugadores, como percevejos que também atacam outras culturas. É uma infinidade.

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Por muito tempo, as companhias acreditavam que isso seria natural, que as mulheres iriam ingressar, os negros iriam fazer parte da organização. Se deixarmos no crescimento orgânico, leva muito tempo. Não temos esse tempo. Para ser acelerado, esse movimento precisa ser intencional.

Malu Nachreiner, presidente da divisão Agrícola da Bayer do Brasil

"Não há uso de defensivo agrícola em demasia"

O Brasil é um dos maiores compradores de pesticidas. Não há excesso de agroquímicos na nossa lavoura?

Malu Nachreiner - O Brasil tem uma das legislações mais rigorosas do mundo. Somos uma empresa com sede na Europa e, inclusive, nossos pesquisadores e cientistas usam o sistema regulatório brasileiro como exemplo porque é um dos mais difíceis para conseguir avançar com aprovações e normatizações.

O que chega ao Brasil, o que é aprovado e utilizado nas lavouras agrícolas, passa por um processo extremamente rigoroso de ciência, de aprovação por todos os institutos regulamentadores.

Um defensivo agrícola tem regras e normas de utilização que estão sempre na bula. Ele é para a planta como um remédio é para nós.

Não vejo um uso em demasia ou incorreto. Claro que os agricultores precisam sempre estar atentos às regras de utilização.

Em algum momento, vamos conseguir ter uma agricultura totalmente sustentável, livre de defensivos?

Na Bayer, todo o investimento em inovação é também em sustentabilidade. Vamos avançar muito no uso cada vez mais assertivo de insumos. Para isso, é fundamental usar as ferramentas de transformação digital.

A Bayer possui uma plataforma que permite ao agricultor tomar uma decisão baseada em dados. É uma ferramenta digital que faz a leitura da área, gera diferentes mapas de solo, de produtividade, de aplicação e determina a necessidade de insumo naquele solo.

Acelerar a inclusão de mulheres e negros nas empresas

UOL - Como a Bayer estimula a diversidade e como a senhora enfrentou os desafios de ser uma mulher no mundo do agronegócio?

Malu Nachreiner - A missão da Bayer é saúde para todos, fome para ninguém. Ou seja, quando você quer atacar esses dois fatores tão relevantes não tem como fazer isso se não for por meio de inovação, de colaboração, de pensar diferente. Inclusão e diversidade são habilitadores para este fenômeno.

Não vemos inovação, criatividade se você tiver pessoas que vierem da mesma origem, de experiências muito similares.

Essa diversidade é fundamental quando você trabalha em uma empresa de inovação. Falo em inclusão, e não só em diversidade.

No ano passado, tivemos o programa de trainee 100% para formação de liderança negra. É muito importante fazer isso em um país como o Brasil, em que mais de 50% da população é negra e a representatividade dessa população em cargos de liderança é ínfima.

Que dicas daria para empresas aumentarem essa inclusão?

Primeiro é preciso ser uma decisão estratégica da organização. Por muito tempo, as companhias acreditavam que isso seria natural, que as mulheres iriam ingressar, os negros iriam fazer parte da organização. Se deixarmos no crescimento orgânico, levar muito tempo.

Não temos esse tempo. Para ser acelerado, esse movimento precisa ser intencional. Não é algo que acontece do dia para a noite. Precisamos avançar muito, precisamos ser intencionais, termos ações claras, compromissos claros e dar o exemplo.

Pequeno produtor agrícola precisa de apoio tecnológico

Quais são os principais desafios para os pequenos e médios agricultores nos próximos anos?

Malu Nachreiner - A transformação digital é um dos nossos pilares estratégicos. Temos três pilares: inovação, transformação digital e sustentabilidade.

O grande agricultor tem uma rede de apoio com agrônomo, acesso direto a grandes companhias como a Bayer, tem informação e conhecimento.

O pequeno agricultor tem uma carência maior dessa assessoria mais próxima, por exemplo, de uma plataforma digital que possa dizer quais são as melhores ferramentas de manejo, a melhor forma de utilizar determinado insumo.

Existe também uma transformação do perfil do agricultor brasileiro. Hoje ele é mais jovem, em média de 44 anos, e as mulheres têm um papel mais central.

Temos dados recentes da Associação Brasileira de Marketing Rural falando que pelo menos um quarto das propriedades rurais do Brasil tem uma mulher liderando ou coliderando a atividade.

Como a Bayer está trabalhando em meio à pandemia?

Quando olhamos para a nossa operação, para o nosso time, há um lado positivo que foi o de aprendermos a lidar com clientes e com nossos colaboradores a distância, mas percebemos um cansaço maior da organização como um todo.

Tínhamos a esperança de que em 2021 seria diferente, uma situação de mais normalidade, e isso não aconteceu.

A preocupação maior agora é com a saúde mental. É menos com a incerteza e com o negócio e mais com o cuidar das nossas pessoas, que muitas vezes estão cansadas, todos nós, eu também não estou isenta desse processo.

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