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REPORTAGEM

Queda como a de avião em 'Pantanal' teria matado Madeleine na vida real?

Madeleine (Karine Teles) morre em acidente de avião na novela 'Pantanal' (Globo) Imagem: João Miguel Jr./Globo

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

24/05/2022 13h19Atualizada em 25/05/2022 10h32

No episódio de sábado (21) da novela "Pantanal" (Globo), a personagem Madeleine, interpretada por Karine Teles, morreu em um acidente de avião. Na cena, a aeronave de pequeno porte cai na água, e a personagem acaba morrendo.

A cena, inclusive, lembrou a alguns internautas o acidente que matou a cantora Marília Mendonça, em novembro de 2021.

Situações como a da novela são muito raras. Mas, caso aconteçam, há chances de sobrevivência? O que costuma acontecer nessas situações?

Desaceleração brusca e colisão dos órgãos internos

Cena instantes antes do impacto do avião que levava a personagem Madeleine em 'Pantanal' (Globo) Imagem: Reprodução/TV Globo

A cena na novela aparenta ser um acidente, com o piloto perdendo o controle do avião e indo em direção à água. Isso não seria considerado um pouso em si, mas uma colisão com a água.

Nesse tipo de situação, a desaceleração brusca causa danos aos órgãos internos, que colidem com os ossos, por exemplo. Mesmo que o corpo pare junto com o avião, o cérebro, por exemplo, continuaria em movimento, colidindo com a caixa craniana e causando lesões e sangramentos que podem levar à morte.

Em um acidente parecido, Marília Mendonça sofreu "politraumatismo contuso", com o choque interno dos órgãos contra os ossos e outros órgãos e o choque do corpo com partes da aeronave.

Em outras situações, a pessoa pode desmaiar e acabar se afogando por não conseguir sair do avião.

Ocorrência similar à imaginada pela dramaturgia envolveu o ministro Teori Zavascki, do STF (Supremo Tribunal Federal). Em janeiro de 2017, ele viajava com destino à cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, quando a aeronave em que estava caiu na água, matando todas as cinco pessoas a bordo.

Naquele momento, o avião colidiu com a água, não ocorrendo, necessariamente, uma tentativa de pouso. O caso aparenta ser um acidente mais sério, e não um pouso na água, quando as chances de sobrevivência seriam maiores que em uma colisão.

O que fazer?

"Uma das piores coisas que um passageiro pode fazer em uma emergência como essa é entrar em pânico. Eventualmente, a pessoa tira o cinto e abraça alguém, um ente querido que está do lado, por exemplo. Pode pensar 'vamos morrer abraçados', mas, na verdade, há mais chances de morrer porque abraçou alguém", diz Thiago Brenner, piloto e professor da Escola Politécnica da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Nessas situações, afirma, o melhor é manter-se no seu assento, com o cinto afivelado e na posição de impacto, obedecendo aos comandos da tripulação.

"A desaceleração nesses pousos, inclusive em solo firme, é muito grande. Se você estiver sem cinto de segurança, vai permanecer em movimento e vai ser projetado para a frente. Se não houver ninguém na sua frente, você vai atravessar o para-brisa e sair 'voando'. Se houver algum na sua frente, você vai, provavelmente, matar essa pessoa. É como se uma bomba de canhão de 80 kg me esmagasse no meu banco", diz o piloto.

Pouso é diferente de colisão

Segundo Brenner, no caso de pousos na água, há grandes chances de sucesso.

"Existem muitos exemplos de aviões de pequeno porte que pousam na água com sucesso. Perceba que falo de pouso na água e não de queda na água, como, por exemplo, alguém que está voando sobre o oceano, identifica um problema e precisa pousar", diz o piloto.

Dessa maneira, a chance de sobrevivência é grande também. "O maior problema das pessoas que estão dentro do avião em uma emergência como essa é sobreviver à hipotermia, porque, depois do pouso, você fica dentro da água, e isso faz a temperatura do corpo cair. Nesse momento, é fundamental os sobreviventes serem resgatados o quanto antes", diz Brenner.

Entre os exemplos de pousos bem-sucedidos na água, está um realizado em abril de 2021 na Flórida (Estados Unidos), feito por um avião utilizado na Segunda Guerra Mundial. A aeronave restaurada enfrentou problemas e precisou pousar no mar próximo à praia, e o piloto saiu ileso da aeronave. O pouso foi tão tranquilo que, depois, ele ainda teve tempo de tirar o fone de ouvido, arrumar suas coisas e sair com calma do avião.

Outro caso bem-sucedido, mas com um avião de grande porte, foi o famoso pouso realizado em janeiro de 2009 no rio Hudson, em Nova York (Estados Unidos). Um avião Airbus A320 com 155 passageiros a bordo acabou no rio após enfrentar problemas com os motores instantes após a decolagem.

A história, relatada no filme "Sully: O Herói do Rio Hudson" (2016), terminou bem, sem nenhuma morte e com poucos casos de hipotermia, já que alguns passageiros foram para a água após o avião ser evacuado.

Situação rara

O pouso na água não é uma questão que costuma constar no manual dos fabricantes das aeronaves. De acordo com Brenner, durante o processo de desenvolvimento dos aviões, não são realizados ensaios desse tipo de pouso (exceto em hidroaviões) justamente porque a situação é muito rara.

Quanto à escolha de onde pousar em uma situação de emergência, diversos fatores devem ser levados em conta pelo piloto, que é quem tem a palavra final nesse tipo de ocorrência. Segundo Brenner, entre a água e uma região de floresta, como na Amazônia, pode ser preferível pousar na água, já que a chance de sobreviver ao acidente é, em tese, maior do que colidir com a copa das árvores e cair lá de cima.

Em situações envolvendo aviões de menor porte, uma recomendação entre os pilotos para situações como essa é abrir as portas ou o canopi (cobertura da cabine de comando) antes do toque na água. Como o impacto pode deformar a estrutura da aeronave, isso evita que as pessoas fiquem presas do lado de dentro e não consigam sair.

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