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Além do glamour dos empreendimentos digitais, há riscos e desafios

Rose Mary Lopes

Rose Mary Lopes

Colunista do UOL

Os jovens das novas gerações já nasceram no mundo da internet, dos equipamentos móveis e das comunicações digitais. A sua configuração de mundo já contempla os aplicativos, as possibilidades de comércio digital, as redes sociais, os compartilhamentos, a cocriação e coparticipação.

Quando pensam em empreender é muito natural pensarem e proporem novos aplicativos, marketplaces e sites de e-commerce. Isso vale mesmo para aqueles que não têm o conhecimento ou domínio técnico sobre as ferramentas necessárias de desenvolvimento e de programação.

Nesses casos, os idealizadores pensam logo que a solução para a falta de expertise é a terceirização do desenvolvimento do aplicativo, e que é fácil encontrar empresa ou desenvolvedor que o fará rapidamente e dentro das suas necessidades. Ou que contratarão alguém "freelancer" que assumirá essa importante atividade.

Mas é uma atividade crucial para o negócio. Quando questionados sobre os senões desse tipo de solução, quais os impactos sobre o negócio se houver erro ou atraso no desenvolvimento, se a empresa encarregada de desenvolver ou o freelancer não se dedicar ao seu projeto, ou até abandoná-lo, propõem então que podem contratar esse profissional.

Desse modo, acreditam que estará garantida a solução. E, para segurar o profissional na equipe, pensam propor-lhe participação no negócio. Decerto que não há solução única e infalível, mas é prudente se salvaguardar quando uma competência básica e central do negócio não for dominada pelos sócios.

Também é necessário ter em mente que o empreendimento digital precisa ter um bom modelo de negócios e com mercado suficientemente amplo para poder crescer. Os idealizadores/ empreendedores devem ter feito sua tarefa de casa, diligentemente. Ter tido muita interação com os possíveis clientes e/ou usuários.

Para conhecer suas dores. Ou seja, saber, do ponto de vista deles, qual é o problema, qual é a necessidade, como resolvem esse problema hoje e com quais fornecedores. Como avaliam as soluções. Quais são suas ressalvas. Precisam investigar antes mesmo de chegar propondo sua própria solução.

Chegar para o seu público-alvo ou usuário com a fala de que você tem um aplicativo ou um site que oferece X, Y e/ou Z, sem mesmo ter tido a humildade de questionar sobre as situações e circunstâncias deles, é quase que jogar batalha naval. Principalmente no início, quando muitos tiros vão ser na água.

Sua solução ou protótipo pode e deve ser montado quando você já tem mais dados e informações sobre o segmento ou nicho de mercado. Quando você já tem mais segurança que o produto ou serviço que oferece vai tirar a dor do cliente. E que tem como motivar seu futuro cliente a testar sua solução.

Lembre-se: mesmo assim, ele pode ficar com o pé atrás. Focalize no seu medo. Proponha algo que contorne esse medo e que o incentive a testar. Aqui é comum os novos empreendedores pensarem em oferecer gratuitamente o seu aplicativo / produto ou serviço. Podem até fazer isto para ultrapassar a barreira do conhecimento.

Mas, deixem claro por quanto tempo isto será feito. Estabeleçam quanto custará para ele, a partir de qual data e quais as funcionalidades a que terá acesso. E, lembre-se que enquanto o cliente não pagar por sua solução, você ainda não validou seu negócio. Sem que ele tire a mão do bolso de nada adiantam milhões de visitas e curtidas no site ou nas redes sociais.

O que tem que direcionar a cabeça e as ações dos novos empreendedores são dados e evidências de aceitação da solução. Precisam converter possíveis clientes em clientes reais. Sem ter um negócio rodando, com os primeiros clientes e vendas feitas, não imaginem que mais dinheiro e conseguir investidores será a solução para seu negócio crescer.

Se a equipe de empreendedores não estiver superempenhada, alinhada e disposta a ralar muito e dar um gás para construir o início do negócio, será perda de tempo ir atrás de quem invista em vocês. Os investidores querem ver paixão, ação e um time complementar em termos de competências e de funções.

E, se engajarem colaboradores, tem que ser gente que some, que arregace as mangas, que se disponha a fazer de tudo. Que também seja contaminada pela paixão de criar algo.

E, verifique seus resultados, as perspectivas e a sua ambição. Dependendo delas e para crescer mais rápido, aí sim poderá ser o caso de obter investimentos. Porém, fique claro que a partir deste momento o time empreendedor já terá que dividir parte da empresa e, quase certamente, não mais decidirá sozinho sobre os seus rumos.

Rose Mary Lopes

Professora e coordenadora do núcleo de empreendedorismo da ESPM.

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