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Empreendedor não é só quem cria uma start-up genial

Rose Mary Lopes

Rose Mary Lopes

Colunista do UOL, em São Paulo

Há alguns anos, os eventos e oportunidades para discutir e apresentar ideias, desenvolver rapidamente modelos de start-ups se disseminaram no Brasil. Atualmente ocorrem eventos intensivos, em fins de semana, até nos rincões mais distantes do país.

Eu mesma já fui aos interiores de Minas e Alagoas. Outras pessoas que conheço já foram a Pernambuco, Goiás, Amazonas, etc. Os Start-up Weekends em geral atraem pessoas interessadas em obter mentoria, ferramentas, conhecimentos e pulos do gato para rapidamente desenvolver, em times, ideias de negócio.

E o modelo mental mais disseminado é o das empresas do Vale do Silício. Mas, mesmo lá, os empreendedores que foram capazes de criar inovações disruptivas, encontrar um modelo de negócios que possa ser reproduzido, escalável, erigir uma empresa e crescer em progressão geométrica com lucros fantásticos, não são tão numerosos.

Há um desejo positivo de incentivar, sobretudo a nova geração, de enveredar pelo empreendedorismo tecnológico, utilizando pesadamente de ferramentas digitais, para criar e inovar aqui também. De fomentar a busca por modelos de negócio interessantes, que solucionem problemas reais de grandes mercados potenciais.

Deste modo haveriam chances de se criar empresas "gazela", de alto crescimento que, de fato, impactam mais rapidamente na economia, pois geram grandes resultados mais rapidamente do que outros tipos de negócios.

Entretanto, os jovens e outras pessoas mais maduras que são atraídas para estes eventos, em sua grande maioria, vão com ideias não tão geniais. Mesmo quando trabalhadas com o auxílio de mentores experientes, se transformam, no mais das vezes, em modelos de negócio possíveis, que podem ser executados. Que terão alguma chance de se viabilizar.

Difícil e raramente aparecem ideias novas, realmente inovadoras e com enorme potencial de arrebentar, de ter crescimento vertiginoso. E, aí me preocupo com os milhares de jovens e de pessoas que não conseguem chegar a esse modelo genial, que não conseguem ter este insight maravilhoso e gerar um negócio bilionário.

Será que não se frustram? Será que não se sentem incapazes? Será que, mesmo sem querer, passamos para eles a mensagem de que não são empreendedores? De que não terão chance de ter sucesso com seus empreendimentos?

Será que não seria o caso de frisarmos e enfatizarmos que o mundo dos empreendedores e dos negócios tem espaço para muitos perfis de empreendedores e empreendedoras? Que podem se realizar e ser úteis à sociedade mesmo quando não encontram este modelo genial?

Que é possível também não querer crescer tanto? Que há empreendedores que estão muito realizados com o porte de negócio que alcançaram? Que você deve se consultar internamente para saber o tamanho de sua ambição? E, se constatar que por perfil, características, tipo de vida, por escolha, prefere seu empreendimento mais modesto?

Mesmo sendo digital, pode ser apenas crowdfunding de projetos culturais, ou um distribuidor de livros, um fornecedor de soluções para apresentações, um e-commerce de acessórios para animais? De crescimento não meteóricos? Mas, que lhes permitam ter resultados positivos, empregar pessoas e viver bem?

E que o empreendimento não necessariamente precisa ser digital? Que empreendimentos de – idiomas para corporações, produção de filmes, loja de brinquedos infantis, espaço de eventos, consultoria técnica, representação de produtos médicos, loja e oficina de produtos ortopédicos, transporte de executivos etc. - também têm seu espaço na sociedade?

É importante despertar o potencial de nossos jovens para empreender. Mostrar que esta é uma possibilidade real de carreira e de realização pessoal. Contudo, enfatizo a importância de mostrar todo o espectro de possibilidades. Incluindo nelas os empreendimentos sociais. A pessoa deve ser conscientizada sobre todos os caminhos possíveis.

Para que possa questionar-se e refletir. Para que possa testar suas alternativas. Buscando seu melhor caminho. Onde possa se desenvolver e contribuir melhor. Sem ter que se encaixar apenas em modelos prefixados. Que possa perceber que, mesmo não sendo um fulgurante e genial empreendedor, ainda assim, é um empreendedor.

E tem muito a dar de si, a sua família, à comunidade e ao país. Ainda mais se puder gerar soluções e criar negócios que empreguem pessoas e recursos em tempos de crise!

Rose Mary Lopes

Professora e coordenadora do núcleo de empreendedorismo da ESPM.

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