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Cadeia de produção do açaí tem oportunidades para empreendedores

Rose Mary Lopes

Rose Mary Lopes

Colunista do UOL

Minha cultura é parcialmente nordestina. Com pais maranhenses, mas vivendo no interior de São Paulo, tínhamos laços com São Luís, capital do Maranhão, ainda que estes laços fossem dificultados, sobretudo nos anos 60. A integração do país por estradas e outros meios de transporte – aéreo - era ainda bem precária.

Mas, nas raras visitas de familiares, sobretudo da avó paterna, podíamos saborear diversas iguarias, bem raras. Acondicionadas domesticamente lá vinham os doces – de massa ou em calda - de bacuri, cupuaçu, murici, buriti. Até frutas in natura – pequenas porções – de pitomba, seriguela ou sapoti. Ou exemplares de graviola. Ou congeladas como o açaí.

Para minha mãe, esta era uma iguaria dos deuses. Jantava um bom prato de açaí, misturado com farinha – d´água - por favor! Aquela farinha amarela, bem caroçuda e de grânulos irregulares. Confesso que, destas frutas, a que menos me apetecia era o açaí.

Já nos 70, foi justamente o açaí que começou a se disseminar lentamente, no Rio de Janeiro. Recordo-me que eram raros os locais que ofereciam o açaí. Frutinha violeta escura, de sabor bem diferente, cuja polpa vinha do Pará, de forma ainda bem incipiente. E, que começou a ser consumida por praticantes de atividades físicas e esportivas.

Mas, se você não sabe, o açaí do Maranhão – chamado de açaí de juçara – é fruto de um outro tipo de palmeira: a Euterpe edulis Martius, que recebe diversos nomes, incluindo o de palmito-juçara, palmito doce. Por incrível que pareça, é nativa também na Mata Atlântica, onde está ameaçada de extinção (por motivos óbvios – a extração do palmito).

E a palmeira do açaí da região amazônica é outra - a Euterpe oleraceae. O que importa é saber que o fruto e a bebida obtida de ambos os tipos são bem semelhantes. E, que dos anos 70 para cá, seu consumo só aumentou.

Impulsionadas pela tendência da busca da saúde, as pessoas se preocupam muito mais com o tipo de vida que levam, seu ritmo de atividades e a qualidade dos alimentos que ingerem. Ao mesmo tempo em que exigem a facilidade, ou seja, que estes alimentos estejam prontos ou semiprontos para o consumo.

Também o desejo de prolongar a vida faz com que as pessoas busquem, cada vez mais, alimentos e soluções alimentícias que possam ajudar seu metabolismo, combatendo a oxidação e o envelhecimento. Daí que as consideradas superfrutas são procuradas por uma população ávida por atingir os benefícios apregoados.

Entre elas, consta o nosso açaí, que vem sendo misturado com outros produtos percebidos como saudáveis, sobretudo o xarope de guaraná e a granola. E outras como banana, morango, ou mais exóticas como o cupuaçu.

A gama de clientes – comerciais - é ampla. Hoje se oferece e consome açaí na praia, em lanchonetes, mercados, padaria e declicatessen, lojas de conveniência, mercados, cantinas de faculdades e colégios, academias de ginástica e clubes, hotéis etc. O açaí também movimenta patrocínios com atletas sendo estrelas de diversas marcas de produtos.

A cadeia do açaí movimenta desde a extração, em grande parte manual, pela população ribeirinha, a cadeia de processamento, sobretudo da produção da polpa congelada e, depois a produção de produtos como – sachês com o açaí puro ou misturado, potes, sorvetes, baldes etc. Há também o açaí em pó.

Dá para perceber que se movimenta toda uma cadeia logística entre o norte e outras partes do país, sobretudo o sudeste, grande centro consumidor. O maior produtor ainda é o Estado do Pará, seguido pelo Amazonas. 

A exportação do açaí tem crescido, graças a esforços de diversos empreendedores como os do Açaí Mil & Ross, Bony Açaí e Frooty Açaí. Esta última já emplacou seus produtos até em países asiáticos como China, Japão, Coreia, Singapura.

Com o aumento de demanda e concorrência o preço da fruta aumentou muito, para além da inflação. Ou seja, a produção do fruto e sua colheita são gargalos, seguidos pela armazenagem, processamento e transporte da região produtora para os centros de consumo ou de exportação.

Estes gargalos podem ser oportunidades para que outros empreendedores explorem mais e melhor a cadeia do açaí, ampliando a produção, melhorando a colheita, armazenagem, escoamento, processamento e distribuição. Consumidores brasileiros e internacionais parecem não faltar.

Rose Mary Lopes

Professora e coordenadora do núcleo de empreendedorismo da ESPM.

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