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Mulheres inovam com fitas, rendas e tricôs que valorizam produto brasileiro

Rose Mary Lopes

Rose Mary Lopes

Colunista do UOL

Desde a luta pela liberação feminina, a mulher tem avançado em todas as frentes. Desde as ocupações mais tradicionais, que representam uma extensão das funções femininas: na educação, nos cuidados de pessoas, nas áreas de limpeza, alimentação e vestuário. Mas também em áreas não tradicionais como: mecânica ou piloto de aeronave, maquinista de trem, engenheira, física, presidente de empresa e donas de negócios.

Relativamente, as brasileiras têm se educado mais do que os homens. Então, no mundo do empreendedorismo elas ajudaram a elevar a média de anos de estudo dos empreendedores brasileiros. Dados do Anuário feito por Sebrae e Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mostram que a maioria (55%) das empreendedoras de pequenos negócios tinham iniciado o ensino médio.

Mais empreendedoras iniciaram o curso superior – 18,6%. Mais anos de estudo favorecem a qualidade do empreendedorismo. Pois instrumentalizam a pessoa para identificação de oportunidades, para inovar e obter maior produtividade.

É fato que a presença feminina ainda é mais forte na área de serviços e comércio. E que as mulheres, em sua maioria, são donas ou sócias de pequenos negócios – Microempreendedor Individual (MEI), micro e pequenas empresas totalizam 98,5%. Apenas 1,7% e 0,2% são sócias/ empreendedoras de médias e grandes empresas, respectivamente.

Relatório Executivo Empreendedorismo no Brasil, da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) apontam participação de 45% de empreendedoras nascentes, em fases iniciais ou já estabelecidas. Uma percentagem muito próxima da encontrada pela pesquisa da Serasa Experian de 2015 – 43% -. Praticamente 5,7 milhões de mulheres são donas de negócios.

Assim, elas contribuem para a economia, gerando renda, inovando, agregando valor. E algumas se destacam por conseguir se diferenciar mesmo em atividades tradicionais, como é o caso do setor de confecção. Algumas até exportam. Vejamos alguns casos.

Quem disse que a fitinha de lembrança do Senhor do Bonfim serve apenas para amarrar no pulso? Criatividade faz a pessoa encontrar combinações diferentes partindo dos mesmos elementos. Pois é o que faz a empreendedora Nea Santanna, que costura desde adolescente.

Percebendo que os turistas apreciavam as fitinhas, uniu-as para criar peças de roupas, acessórios e calçados. Suas peças são criadas e vendidas por ela em seu ateliê, ou revendidas em outras duas lojas. Assim, faz moda com a marca da cultura baiana.

Renda renascença, tecida manualmente, uma herança italiana do século 16, introduzida no nordeste do Brasil por freiras europeias, aprendida com a mãe Marieta, serviram de inspiração para Maria de Fátima Xavier Mergulhão. Pernambucana, esta artesã empreendedora, desde cedo criou seus próprios desenhos com a renda. Desenvolveu-se como estilista.

Conquistou o respeito para as peças que cria, que se tornou uma grife: Fátima Rendas. Encontradas em lojas finas em alguns aeroportos brasileiros, além do ateliê que fica na Casa de Cultura de Pernambuco em Recife. Além das pessoas que lá trabalham, agrega centenas de rendeiras no interior do Estado. E deseja ultrapassar as fronteiras brasileiras levando a sua renda-arte.

Tricô é utilizado pela mineira Cecília Prado para criar roupas que, graças ao estilo, qualidade e preço, fizeram com que as peças criadas e tricotadas em Jacutinga, MG, alçassem voo para a China! Seus vestidos, blusas e biquínis realizam a proeza que é inverter o sentido do comércio, que na área de confecção é desfavorável para a produção brasileira.

Para outra empreendedora – Maysa Gadelha - a centelha do empreendedorismo se acendeu ao saber, em 2009, sobre as pesquisas da Embrapa de Campina Grande com o algodão naturalmente colorido. Foi atrás, conseguiu algumas centenas de quilos da pluma do algodão, que fez tecer pela Coteminas, e levou o tecido para a Fenit de 2000, em São Paulo.

Com a aceitação do produto, correu atrás da formação da cadeia produtiva. Desde o plantio, fiação, transformação em tecidos ou malha, em confecção de roupas, roupas de cama, brinquedos, incorporando itens decorativos criados por artesãos. Após longa e árdua trajetória, hoje Maysa é Presidente do Consórcio Natural Fashion e encabeça a CoopNatural, uma cooperativa de 23 empresas.

De Campina Grande, o Consórcio agrega empresas de confecção, serigrafias, cooperativas de artesanato, associações de artesãs e grupos de artesãos autônomos, clubes de mães, empresa de calçados, bolsas e acessórios, empresa de bordados, afora cooperativas consultoras. Os algodões marrom, rubi e safira desenvolvidao pela Embrapa frutificaram muito.

Com apoio do Sebrae na capacitação dos artesãos, as milhares de peças produzidas mensalmente agregaram o valor do trabalho manual, e abriram caminho para exportar parte da produção para Europa, Austrália e EUA. Conclusão: mesmo em áreas tradicionais as empreendedoras que inovarem e tiverem mais ambição podem voar mais longe. Levando produtos brasileiros com elas.

Rose Mary Lopes

Professora e coordenadora do núcleo de empreendedorismo da ESPM.

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