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Época de crise testa competência e resiliência dos empreendedores sociais

Rose Mary Lopes

Rose Mary Lopes

Colunista do UOL, em São Paulo

O Brasil enfrenta vários lodaçais. Lama real, lama política, afora a areia movediça da economia. Vários fatores somados estão causando estragos enormes ao país, à sociedade, aos trabalhadores, ao clima entre as pessoas, afetando as expectativas, refreando gastos e investimentos, além de baixar nível de emprego e arrecadação.

A inflação estimada e esperada até pelo governo já bateu em praticamente 10,5%. E, a depender da cidade ou região, já superou esse número. Veja o caso de Curitiba, com 12,24%, Goiânia com 11,44%, Porto Alegre com 11.20%, São Paulo com 10,87%, segundo dados do IPCA do IBGE, compilados pela Folha de São Paulo.

Extraoficialmente, a inflação é bem superior. Amigo com quem interagi nesta semana, e que segue os preços dos itens que adquire no supermercado: os itens de limpeza e higiene pessoal já dobraram.

O PIB estimado pelo mercado, segundo o boletim Focus, do Banco Central de 04/12 já projeta 3,5% negativos, e para a produção industrial sinaliza-se fechar a menos 7,6%. É bom lembrar que tudo isso se refere a tudo que o país produz, que está caindo em relação ao ano anterior em que já não crescemos. Ao contrário.

Além disso, o setor público acumula dívida líquida, estando agora em 35,55% do total do PIB. Esses dados mostram que a capacidade do país de investir para fazer a roda da economia girar positivamente é cada vez mais reduzida.

Há muito menos investimentos no país, incluindo os estrangeiros. Com menos investimentos, menos consumo e menos vendas, há menos empregos. O contingente de desempregados aumentou para 8,8 milhões (dado da pesquisa Pnad contínua do IBGE calculado em agosto). Mesmo entre os brasileiros empregados a média de seus salários caiu 1,1% comparativamente ao ano anterior. Na marca de R$ 1.882 mensais.

Ora, se você fosse um empreendedor social ou filantrópico, já estaria há muito, com a mão na cabeça (para não dizer nos bolsos)! Pois as fontes de renda para as entidades – doações de pessoas físicas e jurídicas, doação de notas fiscais, repasse de parte de impostos pelas prefeituras – todas estão minguando.

Um exemplo que atesta como o tamanho do cobertor está encolhendo: o próprio governo do Estado de São Paulo, recentemente, adiou um semestre a liberação dos créditos disponíveis para as pessoas físicas, além de ter diminuído o percentual distribuído.

Atestando esta diminuição das fontes, a Diretora Executiva da Associação Brasileira de Organizações Governamentais (Abong), Vera Marzagão declarou recentemente que houve queda média de 30% nas doações. O superintendente de marketing e captação de recursos da Associação de Assistência à Criança Deficiente – AACD - Ângelo Franzão, corrobora.

Ora, se as pessoas gastam menos, perdem empregos, de fato o governo arrecada menos impostos. As prefeituras arrecadam menos ISS. Constrói-se menos. Menos propriedades novas são lançadas no mercado. Isto bate no IPTU arrecadado.

Prefeituras e governos estaduais com dificuldades de caixa para bancar as despesas, ou passam menos repasse para as entidades assistenciais ou as deixam sem sustentação. Por outro lado, com a crise, essas mesmas entidades, de modo geral, assistem a aumento de procura de ajuda médica e outras.

O que fazer? A Apae São Paulo estuda reduzir projetos que não sejam de atendimento direto. A Federação das Entidades Assistenciais de Santo André (Feasa) revê seus números. Afinal, as entidades também precisam fechar as contas. Há casos em que fecharam unidades ou demitiram funcionários, que são soluções no lado das despesas.

Do lado das receitas, o que os empreendedores sociais podem fazer são incentivar ainda mais as campanhas de sensibilização e os eventos para arrecadar dinheiro. Podem estimular a doação do direito às notas fiscais (onde este mecanismo existir). E também a de outros bens que sejam possíveis de vender ou leiloar.

Ou examinar as especialidades da própria entidade e verificar se há algum serviço que possa oferecer. Exemplo: serviços de gestão de serviços médicos para prefeituras. A Associação Prato Cheio encontrou a alternativa de oferecer oficinas de culinária pagas para arrecadar recursos.

O fato é que não é hora de arrear os pneus. A crise aí está e coloca à prova os empreendedores sociais na sua capacidade de resiliência, criatividade, energia e na possibilidade de encontrar alternativas para fazer com que as entidades que representam sobrevivam e resistam a ela. Os amparados agradecem!

Rose Mary Lopes

Professora e coordenadora do núcleo de empreendedorismo da ESPM.

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