! Vale: China e estabilização dos preços do minério não impactam otimismo - 12/07/2010 - InfoMoney
 

12/07/2010 - 15h16

Vale: China e estabilização dos preços do minério não impactam otimismo

SÃO PAULO – No Ibovespa, as ações da Vale (VALE3, VALE5) têm sofrido nas últimas semanas. O noticiário econômico recente, principalmente aquele que envolve a China, principal máquina de propulsão das exportações de minério de ferro da companhia, preocupa os investidores, que temem por uma desaceleração mais acentuada do crescimento econômico do país.

Para Ricardo Martins, analista da Planner, é natural que os ativos da companhia listados em bolsa respondam negativamente a índices mostrando desaceleração, por menor que esses recuos sejam. Nesse caso, o movimento vendedor que faz que com a Vale apresente queda de 6,8% em 2010 está se adiantando a um cenário negativo para a mineradora?

Não, ao menos na opinião dos analistas. A perspectiva operacional para a empresa, na verdade, é bastante otimista. A expectativa é que os ajustes no preço do minério de ferro na nova base, agora trimestral, que estão sendo implementados ao longo desse ano impulsionem o lucro da companhia em 2010, com impacto forte já no resultado relativo ao segundo trimestre, que será divulgado no dia 29 de julho.

Otimismo em números

Pedro Galdi, estrategista-chefe da SLW, se baseia em números para mostrar porque está otimista com a empresa. O analista leva em consideração um aumento de 90% no preço do minério de ferro no segundo trimestre (o mercado chegou a mencionar reajuste de 110% com alguns consumidores), ao lado de uma evolução nas vendas de 15%.

Com essas premissas, a Vale teria dado um salto nas vendas, nos últimos três meses, de 57 milhões de toneladas de minério de ferro para 65 milhões de toneladas. O faturamento bruto, considera Galdi, avisando que nessas contas não está considerando o negócio com pelotas, teria passado de R$ 6,7 bilhões para R$ 14,7 bilhões – ou seja, teria mais do que duplicado.

Para o Bradesco, em relatório assinado por Raphael Biderman e Gina Montone, o novo sistema de precificação deve ter ocasionado um aumento de mais de US$ 4 bilhões no Ebitda (geração operacional de caixa) da companhia no trimestre passado. 

Acomodação natural

Para o segundo trimestre, o ajuste dos preços do minério de ferro feitos com base no mercado spot chinês devem elevar os valores em 30% a 35%, de acordo com Martins e Galdi. Para o terceiro quarto de 2010, o analista da Planner acredita que os valores da commodity devem continuar em ascensão, de cerca de 23%.

Já para o quarto trimestre, diz Ricardo Martins, os preços podem permanecer estáveis ou até mesmo caírem um pouco. Nesse ponto, Martins lembra que pelo modelo acordado pelo IODEX (Iron Ore Index), caso no mercado spot os preços apresentem variação de apenas 5%, tanto para cima quanto para baixo, o valor do minério de ferro para aquele trimestre não é reajustado.

Mesmo com a perspectiva de estabilidade dos preços no final do ano, Martins não demonstra insatisfação com a companhia. Em sua opinião, o reajuste de 100% do início do ano foi um efeito atípico, promovido pela reativação de fornos siderúrgicos parados durante a fase mais aguda da crise mundial. Agora, o que se pode esperar é uma acomodação natural do crescimento, e também uma relação mais estável entre oferta e procura, avalia Martins.

Galdi diz que alguns economistas “gostam de terrorismo” e que existem extremismos para o bem e para o mal, mas que em sua opinião a tendência é mais de ajuste das economias do que de nova recessão, como alertam alguns, concordando assim com a visão de Martins.

Sentimento excessivamente negativo

Pedro Galdi mantém a linha de raciocínio e mais uma vez usa números para defender sua tese: “A Vale vendia o minério de ferro por cerca de US$ 60 dólares por tonelada. Agora, ao invés de US$ 160, talvez ela tenha que negociar seus produtos por US$ 140. Isso é ruim?”, pergunta Galdi.

O JPMorgan, em relatório assinado por Rodolfo de Angele, também acredita que o sentimento do investidor está excessivamente negativo com as ações da empresa, percepção essa que é injustificada, já que a atual cotação dos papéis implica preço de US$ 48 da tonelada de minério de ferro, distante tanto da média atual quando do preço realizado em 2009, de cerca de US$ 57 por tonelada. O banco norte-americano também apontou que o resultado referente ao segundo trimestre pode ser um importante catalisador para os ativos da mineradora. 

Para Rafael Ferri, diretor-geral da TBCS, a Vale tem potencial de valorização bastante grande, por estar bastante descontada. Ferri também é da opinião de que a desvalorização do papel não condiz com as notícias chinesas, já que o indicador de produção industrial, por exemplo, caiu apenas 2%.

Além da indústria como um todo, números relativos ao setor siderúrgico chinês contribuíram para essa perspectiva negativa que dominou as ações da companhia nas últimas semanas. Os dados de junho da CISA (Associação Chinesa de Ferro e Aço) para o setor mostraram que que os preços e também a produção estão em queda.

No entanto, para o UBS, em análise de Rene Kleyweg, Marcelo Zilberberg e Onno Rutten, os preços do aço teriam que cair muito mais do que 10% para que o valor do minério de ferro no mercado spot chinês, que serve como benchmark para o IODEX, caísse abaixo do patamar de US$ 90.

Fim da greve na INCO também é driver

O último driver citado pelos analistas consultados pela InfoMoney é o recente acordo para interrupção de greve de funcionários na INCO, mineradora canadense comprada pela Vale em outubro de 2006. De acordo com o Bradesco, embora o mercado esteja dando pouca importância ao impacto econômico do fim do impasse, a expectativa é de que a retomada das operações nas plantas do Canadá deva aumentar o Ebitda da companhia em US$ 622 por trimestre.