! Bancos ganham menos quando o cliente escolhe o melhor da renda fixa - 25/07/2009 - UOL Economia
 

25/07/2009 - 07h00

Bancos ganham menos quando o cliente escolhe o melhor da renda fixa

Sílvio Crespo

Em São Paulo
Alguns títulos do Tesouro Direto têm dado uma rentabilidade bem acima da média dos fundos de investimento de renda fixa, descontadas as taxas e impostos (veja quadro abaixo). Mas o banco pode se sentir tentado a oferecer ao cliente esta segunda opção, menos rentável.

O motivo é simples: as instituições financeiras ganham mais quando seus fregueses aplicam em fundos do que quando eles compram títulos diretamente com o governo.

A conclusão pode ser tirada a partir de dados sobre rentabilidade levantados pelo economista Pedro Raffy Vartanian, professor da Trevisan Escola de Negócios, a pedido do UOL.


QUANTO SE GANHA NA RENDA FIXA
(12 meses até junho)
Tesouro Direto - pré-fixados14,42%R$ 57.210
CDB (100% do CDI)10,17%R$ 55.085
Poupança7,99%R$ 53.995
Fundo de Renda Fixa (média dos principais bancos)6,6%R$ 53.300
AplicaçãoRendimento líquido (descontandos taxas e impostos)Retorno de uma aplicação hipotética de R$ 50 mil


Quem investiu R$ 50 mil no Tesouro Direto em julho do ano passado conseguiu um ganho de R$ 7.210 ao longo dos 12 meses encerrados em junho de 2009, o que corresponde a uma rentabilidade de 14,42%, já descontados as taxas e o Imposto de Renda que incide sobre uma aplicação de um ano.

Já os fundos de investimento de renda fixa ofereceram ganho aproximado de apenas R$ 3.300 no período, o que significa uma rentabilidade de 6,6%, descontadas as taxas e o imposto. No cálculo, Vartanian considerou uma média da rentabilidade verificada nos cinco principais bancos privados do país e uma taxa de administração de 3%.

Para os títulos do Tesouro, o economista escolheu dois papéis pré-fixados (a LTN e a NTN-F) e calculou a média, descontando uma taxa de 0,5% cobrada pela instituição financeira (percentual usualmente praticado no mercado) e mais o 0,4% que é pago à BMF Bovespa.

"O Tesouro Direto permite que a própria pessoa administre as suas aplicações. Ao passo que, ao operar no fundo, o investidor tem uma pessoa que administra seus investimentos", explica José Alexandre Vasco, superintendente de Proteção e Orientação aos Investidores da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Quando uma pessoa investe em um fundo, ela compra muito mais serviços do que quando adquire papéis diretamente no Tesouro, o que justifica uma taxa maior para o primeiro caso (entenda como as instituições financeiras ganham com as aplicações).

Normalmente, as taxas de administração de fundos são menores em fundos que exigem um valor mais alto de aplicação mínima. No entanto, alguns fundos têm baixado o capital mínimo exigido para se adaptar ao novo cenário e competir com outros tipos de aplicações, como o Tesouro Direto e a poupança, afirma o economista Vartanian.

O fato de a instituição financeira ganhar mais com fundos do que com Tesouro Direto, no entanto, não pode ser interpretado como uma certeza de que o banco vá deixar de indicar aos clientes a melhor aplicação.

Em 30 de junho último, o Diário Oficial da União publicou uma deliberação do Coremec (comitê que regula os mercados) para a adoção de normas que obriguem as instituições a adequar o produto ou serviço financeiro "às necessidades, interesses e objetivos dos clientes ou participantes dos planos de benefícios".

A CVM, responsável por fiscalizar os fundos, estuda colocar em consulta pública um normativo a respeito do assunto. "A instituição financeira tem a responsabilidade de procurar indicar apenas produtos financeiros que estejam adequados ao perfil daquele investidor ou consumidor", avalia Vasco, da CVM. Isso "passa a ser cada vez mais uma obrigação".