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Por que as principais inovações da CES demoram para chegar ao Brasil?

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Fabricante chinesa Byton mostrou seu carro com um painel de 48 polegadas Imagem: Divulgação
Wilson Mateos

Wilson Mateos

É vice-presidente executivo de Criação da agência Leo Burnett. Acumula passagem por agências nacionais e internacionais. Atuou em empresas como Lew'Lara TBWA, F/Nazca S&S, AlmapBBDO e Y&R, entre outras. Antes de ingressar na Leo, atuou por dois anos nas agências norte-americanas David & Goliath e 180LA. Paixões como heavy metal, motocicletas Harley-Davidson, cerveja artesanal, fotografia de rua, drones, mangá, figuras de ação de G.I. Joe e skateboarding também fazem parte do seu portfólio.

2019-01-11T17:48:02

11/01/2019 17h48

"CEStreante". Esta foi minha primeira vez na CES (Consumer Electronics Show), o maior evento de tecnologia do mundo, que acontece todos os anos em Las Vegas (EUA). Como publicitário, acredito que é fundamental entender de antemão como as novas tecnologias vão afetar a vida das pessoas e, por consequência, a comunicação e o consumo. Mas o meu perfil era exceção. A grande maioria do público é formada por profissionais da indústria da tecnologia, cientistas, inventores, investidores e startups, de todos os tipos, tamanhos, cores e formas. 

Isso faz da CES uma mistura de Nasa, feira de ciências e shopping "ching ling". Na mesma proporção que você encontra inovações acachapantes, como carros 100% autônomos, telas de LCD dobráveis e drones que carregam pessoas, você também encontra soluções simples e engenhosas para problemas do dia a dia, bem como várias quinquilharias basicamente inúteis. 

Por ter tanta coisa tão diferente, uma palestra de Gary Shapiro, CEO da CTA (Consumer Technology Association, organizadora da feira), mapeou as tendências do evento deste ano. Eu listo as principais --e comento os maiores empecilhos para que nós, brasileiros, tenhamos acesso a estas tecnologias tão cedo. Ou talvez nem tão tarde. Mas, veja, esta é só minha opinião, sem nenhum embasamento técnico ou científico profundo. 

Veículos autônomos 

Enquanto as péssimas condições das nossas ruas e a falta de infraestrutura tecnológica nas cidades (nem semáforos inteligentes temos) devem atrasar em várias décadas o passeio de um carro autônomo pelo Brasil, muitas das tecnologias desses veículos poderão aparecer em nossos carangos nos próximos anos.

Eu apostaria em inteligência artificial tomando diversas decisões pelo motorista, como mantê-lo automaticamente a uma distância segura do veículo da frente ou frear sozinho quando detecta parada brusca do trânsito à frente. Também acredito que possamos ter carros que obedeçam a comandos de voz ("ligue o motor", inclusive) e retrovisores que usem câmeras em vez de espelhos. A traseira do seu carro agradece.

"Wearables"

A tecnologia "de vestir" tornou-se um conceito bastante amplo. Você pode ter desde exoesqueletos que ajudam pessoas a levantar pesos inimagináveis até pulseiras para ciclistas, conectadas ao GPS do celular, que vibram quando você precisa virar para direita ou esquerda. Também há muitas soluções interessantes para pessoas com deficiências físicas, doenças crônicas (como diabetes ou pressão alta) e, principalmente, para idosos.

Vi, por exemplo, diversas soluções de prevenção ou socorro em caso de queda. Aqui não vejo outros impeditivos para o público brasileiro, senão o preço. A alíquota de importados faz com que a gente tenha que vender a roupa do corpo para comprar um "vestível", o que é um grande contrassenso.

Casas inteligentes

Assistente de voz que se comunica com a TV, que conversa com a geladeira, que, por sua vez, fala com as lâmpadas, cortinas, fechadura das portas e, até mesmo, com os vasos sanitários. Enquanto ter uma casa no estilo dos desenhos animados dos Jetsons está bem fácil para o resto do mundo, sou obrigado a levantar duas questões da nossa realidade.

A primeira é que a maioria dos assistentes de voz ainda não fala português. As máquinas ainda estão aprendendo a língua de Camões a duras penas, e isso deve atrasar a popularização dessas novidades por aqui.

Outro problema é que, quando tudo está conectado à internet, tudo consome banda: consequentemente, deixa aquele boleto do provedor mais salgado. Já pagamos uma das internets mais caras do mundo (e bem longe de ser das melhores). Se for para a conta explodir, vamos continuar nos levantando para ligar a luz ou fechar a porta, concorda?

Cidades inteligentes

Tecnologias que conectam veículos, pedestres e infraestrutura podem diminuir o trânsito, salvar vidas e fazer o mundo lá fora menos perigoso. Mas, para isso funcionar, é preciso do 5G, que proporciona a cobertura total de internet com altíssima velocidade. Só que a licitação para essa tecnologia só deve começar no Brasil em 2020. Aí ainda tem o tempo de planejar, instalar e testar, entre outros possíveis atrasos. Ou seja: a inteligência das nossas cidades está nas mãos da inteligência dos nossos políticos.

"E dou-lhe fé"

Fora o que já disse sobre cada categoria, de modo geral, o brasileiro ainda precisará vencer a barreira da desconfiança. Tudo que envolve conectividade implica geração de dados sobre você, sua família, sua vida financeira e padrões de consumo, por exemplo.

Mas somos o povo das três vias autenticadas no cartório. Será que, como consumidores, teremos tranquilidade, segurança e garantias legais suficientes para deixarmos tantos dados pessoais pairando por aí? E como empresas? Será que seremos transparentes e éticos para não invadirmos a privacidade das pessoas? 

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Por fim, a minha conclusão é que, aqui no Brasil, poderemos ter à nossa disposição toda a parte "ching ling" da CES. Poderemos ter boa parte da "feira de ciência". A parte "Nasa"? Bem, com altos impostos, falta de estrutura e muita burocracia, se o Brasil não resolver seus problemas, tudo o que foi apresentado de mais brilhante na CES deste ano só será visto por aqui se colocarmos óculos de realidade virtual. 

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