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Brasileiros no exterior relatam até vaga sobrando, enquanto falta no Brasil

Maik Uchôa, 25, foi para os Estados Unidos em setembro de 2020, no meio da pandemia Imagem: Arquivo pessoal

Nivaldo Souza

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/09/2021 04h00

Brasileiros na Europa e nos Estados Unidos relatam um cenário inverso ao do Brasil no mercado de trabalho. Enquanto aqui o desemprego segue em níveis altos, perto do recorde histórico, por lá já está acontecendo a retomada do emprego, e em alguns casos chega a faltar trabalhador.

O Brasil registra 14,4 milhões de desempregados e uma taxa de desemprego de 14,1% no segundo trimestre. Países europeus apresentam taxas bem mais baixas, como Portugal (4,3%) e Espanha (4,3%). Nos Estados Unidos, o desemprego, que era de 7,8% há um ano, está em 5,2%. Em julho, o país tinha quase 11 milhões de vagas abertas, de acordo com a secretaria de estatísticas de trabalho do país, maior nível da série histórica, iniciada em dezembro de 2000.

'Recebo oportunidades de trabalho semanalmente'

Fernanda Naconeski, 31, se mudou para Londres, na Inglaterra, há seis anos Imagem: Arquivo pessoal

Fernanda Naconeski, 31, de Curitiba, emigrou para Londres, na Inglaterra, há seis anos, com medo da violência no Brasil. Durante a pandemia, a especialista em estratégia de vendas ficou desempregada por alguns meses.

"A empresa onde eu trabalhava decidiu fechar o escritório em Londres e desligar os empregados do Reino Unido. Foi bem difícil ficar sem emprego na pandemia", afirma.

Mas Fernanda já encontrou um novo emprego e relata que amigos brasileiros que ficaram desempregados também já voltaram ao mercado.

Com a retomada da economia, principalmente neste segundo semestre em 2021, percebi que estão surgindo muitas vagas. Recebo oportunidades de emprego dos recrutadores semanalmente.
Fernanda Naconeski, brasileira que mora em Londres

No Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte), a taxa de desemprego atingiu 4,7% no segundo trimestre deste ano, ante 5,2% no final de 2020. Em junho, por exemplo, foram criados 182 mil postos de trabalho. A região tinha uma taxa de 4% antes da pandemia.

Verão trouxe empregos

Flávia Faccini, 41, de São Bernardo do Campo (SP), chegou a Lisboa, em Portugal, no início de 2019, também em busca de um lugar mais seguro e para fugir da tensão política no Brasil. Logo encontrou emprego no comércio, mas perdeu-o na pandemia.

Apesar do susto, ela conseguiu um novo trabalho pouco tempo depois, como gestora de contas em uma rede de moagem e padarias.

Ela diz que o verão de 2021 (entre junho e setembro, no hemisfério Norte) se mostrou um divisor de águas para muitos brasileiros que se viram sem emprego em Portugal.

Os empregos sempre sobem no verão, mas no do ano passado simplesmente não havia nenhum. Neste ano, dá para ver que a economia voltou, e há emprego outra vez.
Flávia Faccini, brasileira que mora em Lisboa

'Com a vacinação, estou recuperando minha renda'

Pedro Richardson, 46, mora na Europa há 18 anos Imagem: Arquivo pessoal

Morador de Londres, Pedro Richardson, 46, de Montes Claros (MG), sentiu o peso da perda de renda na pandemia. Ele vive na Europa há 18 anos e, desde 2015, presta consultoria a hotéis londrinos e mantém quatro sites especializados em turismo.

"Perdi 80% da minha renda e tive que dispensar três colaboradores que ajudavam com os sites", relata.

Como muitos brasileiros no Reino Unido, Pedro buscou alternativas e começou a fazer traduções. "Alguns começaram a fazer entregas de comida por aplicativo", afirma. Ele relata que a maioria dos brasileiros que conhece obteve ajuda financeira do governo britânico na pandemia.

Embora a consultoria ainda não tenha voltado ao pré-pandemia, Pedro diz que o pior já passou e que a economia está sendo retomada, com o ritmo com a vacinação acelerada. Cerca de 65% da população do Reino Unido já recebeu as duas doses da vacina ou o imunizante de dose única.

Com britânicos e americanos viajando, o tráfego nos meus sites melhorou e a minha renda está em recuperação. Ainda não recontratei os colaboradores, mas espero recontratar pelo menos um deles nos próximos meses.
Pedro Richardson, brasileiro que mora em Londres

Estudante chegou aos EUA no meio da pandemia

O estudante Maik Uchôa, 25, de São Paulo, chegou aos EUA no meio da pandemia, em setembro de 2020, e conseguiu trabalho como babá. Morando na Filadélfia, ele participa do programa au pair, o que também permite que ele estude enquanto estiver lá. "Cheguei no meio da pandemia e ficarei mais um ano até o Brasil melhorar", diz.

Maik conta que conhece outros brasileiros que chegaram aos EUA durante a pandemia com a mesma intenção e acharam emprego. "Moro com uma família e ganho em dólar semanalmente para cuidar dos filhos deles, ajudar com línguas, atividades, levar e buscar na escola", diz.

Cidade de Portugal não consegue preencher vagas

Em Castelo Branco, cidade portuguesa com cerca de 50 mil habitantes e berço de Pedro Álvares Cabral, há milhares de vagas e faltam trabalhadores para ocupá-las. O problema já acontecia antes, mas foi agravado pela pandemia.

A Associação Empresarial da Beira Baixa (AEBB) estima que haja hoje cerca de 4.000 postos de trabalho em aberto na cidade, que na última década viu os jovens formados em áreas de tecnologia se mudarem para Lisboa. Estima-se que a cidade tenha perdido quase 4.000 habitantes na última década.

Castelo Branco aderiu a um programa criado pelo governo português para atrair portugueses e descendentes nascidos em outros países, como o Brasil. A Medida de Apoio ao Regresso de Emigrantes a Portugal oferece dinheiro para quem quiser trabalhar na cidade ou abrir um negócio lá.

O programa deveria ter acabado no ano passado, mas foi estendido até o final de 2023. Ele oferece até 1.316 euros para custear a viagem, igual valor para transportar mudança, um adicional de 658 euros para morar no interior, entre outras benesses. O governo português mantém um site com detalhes do programa.

Reino Unido tem problema ligado ao 'Brexit'

No Reino Unido, a falta de mão de obra em alguns setores está ligada à saída da União Europeia, que levou muitos trabalhadores da zona do euro a deixarem a Grã-Bretanha.

É o caso da indústria de carnes e do setor de transportes, por exemplo. Neste último, faltam mais de 100 mil motoristas na Inglaterra, segundo o escritório de estatísticas nacionais do país.

Isso porque caminhoneiros que foram da ilha para o continente europeu não voltaram para a Inglaterra em razão da burocracia para liberar cargas. Antes do Brexit, eles entravam e saíam com facilidade. Agora, como recebem por quilômetro rodado, dizem perder dinheiro em razão da demora de até 11 horas para entrar no Reino Unido.

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