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Empregos e carreiras

Por que cada vez mais empregados pedem demissão no país, apesar da crise?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Vinícius Silva

Colaboração para o UOL, em São Paulo

16/07/2022 04h00

Apesar da crise econômica, há um aumento de pedidos de demissões ocorrendo. De acordo com especialistas ouvidos pelo UOL, esse fenômeno do "eu me demito" pode ter a ver com descontentamento de parcela mais privilegiada da população com seu modelo antigo de trabalho.

O que está acontecendo? Essas pessoas estão insatisfeitas com o emprego, seja o ambiente ou a remuneração. Também pode ter mudado sua visão do trabalho a partir da pandemia, identificando novas possibilidades, como o home office, disse Anapaula Iacovino Davila, professora de economia na FAAP.

Quais são os números de demissão? Um levantamento da LCA Consultores, baseado em dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), mostra que, no acumulado até maio, o Brasil teve 6,175 milhões de pedidos de demissão nos últimos 12 meses -maior número desde o início da série, em 2020.

De acordo com a consultoria, os pedidos representam 33% do total de demissões no período. Portanto, os pedidos de demissão oriundos do próprio trabalhador são um a cada três.

Vida diferente para esta professora: A professora Bruna Vitória, 35, faz parte da estatística. Após trabalhar dando aulas de forma remota durante todo o período mais agudo da pandemia do coronavírus (covid-19), ela optou por pedir o desligamento da escola em que trabalhava em abril deste ano.

Segundo ela, a pandemia fez com que ela compreendesse que havia outras formas de trabalho, que não presencial, que ela poderia buscar.

"Eu passei dois anos dando aulas para as crianças de modo online. Vi que era possível ter uma vida diferente do que ter que me deslocar todos os dias até a escola, perdendo muitas horas no trânsito. Quando o pior da pandemia passou e a escola nos chamou de volta, achei que era hora de sair", afirmou.

Além disso, a estafa de trabalhar durante dois anos sem muito descanso a fizeram repensar se realmente valia a pena continuar no emprego. "E também pensei, nesse tempo, que talvez nem fosse feliz no atual emprego. Por isso, decidi pedir demissão, fui morar no interior e estou em busca de outro trabalho", contou.

O que há no exterior sobre isso? Segundo especialistas ouvidos pelo UOL, o caso de Bruna faz parte de um fenômeno, mais comum nos EUA e na Europa, mas que também dá a cara por aqui: lá está sendo chamado em inglês de "great resignation" (que pode ser traduzido como grande renúncia ou grande demissão).

De acordo com Anapaula Iacovino, o fenômeno tem origem na pandemia, com as possibilidades de trabalhos remotos, ou pela mudança de como as pessoas enxergam o emprego.

Salário melhor e qualidade de vida: Pode indicar várias coisas, desde a busca por uma qualidade melhor de vida e uma melhor remuneração ou mesmo pessoas que estavam em postos de trabalhos ruins e não queriam sair no meio da pandemia e, agora, buscam algo melhor, diz.

Além disso, os trabalhadores que continuam empregados estão sobrecarregados e sem contrapartidas em termos salariais. Isso gera uma frustração e também motiva saídas, declara.

É coisa só de jovens? Segundo Vivian Almeida, economista e professora do Ibmec-RJ, os jovens lideram esse processo de busca por um emprego com maior liberdade e renda.

Há pessoas em geral buscando melhores oportunidades, mas há também uma fatia de jovens que querem uma relação mais saudável entre vida pessoal e trabalho, afirma Vivian.

Nova lei trabalhista facilita? Outro detalhe que pode ajudar a explicar os números é que, desde 2017, a reforma trabalhista permitiu que funcionário e patrão negociem uma demissão, de comum acordo.

O trabalhador que opta por essa nova forma de demissão perde o direito ao seguro-desemprego e ganha só metade do aviso prévio e da multa do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). O total é 40%; portanto, o empregado recebe 20%. Também pode sacar 80% do fundo.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, diz que ficou mais fácil o trabalhador peça demissão em vez de esperar ser demitido.

No Brasil, por enquanto, é para elite: Anapaula Iacovino declara que, apesar de o fenômeno de grandes demissões já ser visto com maior intensidade na Europa e nos EUA, no Brasil, ele é localizado em setores mais elitizados da sociedade, com mão de obra qualificada.

Essa fatia consegue emprego mais fácil depois. Aqui no Brasil, os número de demissões são altos, mas ainda precisamos de mais estudos para entender melhor esse fenômeno recente, disse

Segundo Vivian Almeida, é um fenômeno de nicho, para poucos com renda maior.

Alex Agostini afirma que o fenômeno deverá continuar até que a economia se estabilize, volte a crescer e a gerar empregos de forma consistente, o que só deve ocorrer, se tudo der certo, após 2025.

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