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Carla Araújo

Salles reedita disputa entre ala militar e ideológica no governo

Bolsonaro e Ricardo Salles - Nelson Almeida/Getty Images
Bolsonaro e Ricardo Salles Imagem: Nelson Almeida/Getty Images
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

23/10/2020 13h20Atualizada em 23/10/2020 14h14

Não adianta o presidente Jair Bolsonaro e os ministros palacianos dizerem que "não há ala militar" no governo. Ela existe, e esse grupo, que tem como origem os quartéis, é alvo da ala ideológica que também integra o governo. E não é de hoje. Desde o início do mandato de Bolsonaro as divergências entre os lados foram amplamente explicitadas.

O novo capítulo dessa disputa tem no centro do ringue o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. E acredite: o presidente como o juiz.

Do lado de Salles, a justificativa para o ataque público —com a postagem que chama Ramos de "maria fofoca"— é que não seria de hoje que o ministro, que possui uma sala no quarto andar do Palácio do Planalto e goza de anos de amizade com o presidente, teria o interesse em derrubar o titular do Meio Ambiente.

Uma das teorias criada pela ala ideológica —que conseguiu derrubar o antecessor de Ramos, o também general Carlos Alberto dos Santos Cruz— é de que o militar "fala demais, fala com a imprensa".

Na ala ideológica os preceitos são ditados por um dos filhos do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro. Para ele a comunicação do governo deve ser feita pelas redes sociais. Não importa se há palavrões, grosserias. Bolsonaro venceu a eleição assim.

Já o lado fardado tem na sua base a hierarquia. Ao ponto de um general como Eduardo Pazuello (Saúde) protagonizar a cena ao lado de Bolsonaro em que disse que "um manda e outro obedece", após ter sido desautorizado.

O Exército, que tenta sem sucesso se desvencilhar de Pazuello, não usa o verbo mandar, opta pelo "comandar". "Comandar é impessoal e transitório. Depende da investidura em um cargo que confira essa prerrogativa", explica um general.

Por outro lado, conforme a constituição, o presidente é o comandante Supremo das Forças Armadas.

Ministros brigões

Salles e Ramos não são os únicos ministros que não se dão bem no governo Bolsonaro. As divergências entre o titular da Economia, Paulo Guedes, e seu antigo subordinado —o agora ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) se acumulam com o tempo.

Guedes já disse que Marinho é o "ministro fura-teto" e que isso era comportamento de "batedor de carteira".

Aliás, a suposta origem da briga de ontem, que envolve recursos para o combate às queimadas, tinha tudo para ser um novo episódio dessa disputa, já que Salles reclamou do ritmo do ministério da Economia e Marinho se apressou, e arrumou recursos para o Meio Ambiente.

Hoje pela manhã, no entanto, Guedes —que acabou ficando de fora dos holofotes da briga— liberou também recursos para Salles, que agradeceu ao ministro no Twitter.

Presidente e seus aliados

Em meio a briga pública —apesar de Ramos não ter respondido o colega de Esplanada —, o presidente ouviu os lados. Chegou junto com Ramos à cerimônia pelo Dia do Aviador. Salles também estava lá.

Num dado momento, Salles e Ramos ficaram no mesmo círculo do presidente, que não parecia incomodado com nenhuma desavença.

Bolsonaro agiu assim até agora com Guedes e Marinho. Ora acenou para um lado, ora fez afagos no outro.

Sobre a possível saída de algum dos dois ministros, auxiliares diretos do presidente dizem que não há isso no radar.

"Cada um tem um papel no governo, não tem racha", dizem.

Pode até ser que não haja mudanças de ministros. Agora, na composição do ministério em 2021 ainda há muitas fichas em disputa.

Importante lembrar que agora, além dos militares e ideológicos, também está nessa briga o "velho e bom centrão".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.