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Carla Araújo

Com canetada, Bolsonaro corta imposto de games e agrada filho 'zero quatro'

Jair Bolsonaro e o filho Jair Renan Bolsonaro - Evaristo Sá / AFP
Jair Bolsonaro e o filho Jair Renan Bolsonaro Imagem: Evaristo Sá / AFP
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

27/10/2020 12h50Atualizada em 27/10/2020 15h38

Enquanto o governo tenta —ainda sem sucesso— arrumar uma solução para conseguir financiar um programa social que pode atingir milhares de brasileiros carentes, o presidente Jair Bolsonaro resolveu em uma "canetada" ajudar um único setor: o de jogos eletrônicos.

Pela segunda vez em seu governo, Bolsonaro baixou o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) que incide sobre os videogames, uma agenda que não devia, nem de longe, ser prioridade.

Com a decisão, só em novembro e dezembro deste ano, o governo deixará de arrecadar R$ 5,4 milhões. Para 2021, o impacto anual deverá ser de R$ 36 milhões e para o exercício de 2022, R$ 39 milhões.

Considerada a renúncia fiscal até 2022 e usando o valor do auxílio emergencial de R$ 300, o montante de que o governo abrirá mão poderia beneficiar 268 mil famílias.

A medida vai na contramão do que busca o ministro Paulo Guedes (Economia), que quer cortar despesas, e não abrir mão de receitas. A austeridade nos gastos, após a economia sofrer fortes impactos por causa da pandemia, deveria ser prioridade de todos, principalmente, do presidente.

Além disso, ao agradar apenas um único setor da economia, a política econômica do governo fica ainda mais distante da agenda liberal de Guedes e se assemelha à fórmula usada por governos passados, do PT, que era duramente criticada pelos liberais.

A vez do "zero 4"

O presidente costuma agradar seus filhos. Pela ordem, o primogênito Flavio Bolsonaro, hoje senador, é o que preocupa o presidente com movimentações suspeitas e investigações com acusações de rachadinha. O presidente é, inclusive, investigado no STF (Supremo Tribunal Federal) por supostas interferências na Polícia Federal para proteger aliados, e deve depor em breve.

O "zero dois", vereador Carlos Bolsonaro, tem a senha das redes sociais do pai e dita boa parte da comunicação do presidente. "Carluxo", como é apelidado em Brasília, é um dos filhos que traz mais preocupação a Bolsonaro, que teme que ele seja incluído em inquérito que apura disseminação de Fake News.

O "zero três", deputado Eduardo Bolsonaro, é apontado como embaixador informal e era desejo do presidente enviá-lo para ser embaixador oficial nos Estados Unidos.

Agora, chegou a vez de Jair Renan, filho do casamento com Ana Cristina Valle, que era assessora parlamentar de Bolsonaro. O "zero quatro", que já deu sinais de que pode também entrar na política, é "gamer".

No fim de agosto, Renan foi recebido pelo secretário de Cultura, Mario Frias, para tratar do futuro dos "egames" ou eSports. Jair Renan é adepto das competições de games eletrônicos. "O futuro do E-sporte sendo pautado", escreveu o filho do presidente na foto ao lado de Mario Frias.

Ontem, após a divulgação de que Bolsonaro havia beneficiado o setor, o filho zero 4 postou uma foto no Twitter chamando o deputado Kim Kataguiri de "mentiroso oportunista", porque ele celebrou a medida e afirmou que ela aconteceu "após nossa pressão nas redes".

Se não foi a pressão das redes, e sim uma iniciativa própria do presidente, vale lembrar que, neste fim de semana, Bolsonaro agiu de modo extremamente rude com um cidadão que pediu que ele baixasse o preço do arroz. "Tu quer que eu baixe na canetada? Se você quer que eu tabele, eu tabelo. Mas você vai comprar lá na Venezuela", disse.

O tabelamento de preços do arroz está longe de ser uma medida apoiada pelos liberais, mas uma coisa é cada vez mais evidente: a tinta da caneta Bic do presidente tem mais força quando o assunto leva o mesmo sobrenome que o seu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.