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Carla Araújo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Exército aposta em exemplo de 'general de Doria' para reduzir tensão em 7/9

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

23/08/2021 16h32Atualizada em 23/08/2021 20h45

O afastamento do coronel Aleksander Toaldo Lacerda, que convocou policiais para manifestações bolsonaristas no dia 7 de setembro, foi visto por militares da ativa como uma atitude importante para evitar uma contaminação nas forças de segurança e também tentar arrefecer os ânimos nas polícias estaduais.

Segundo um militar de alta patente ouvido pela coluna, o Exército acompanha a situação e está atento às manifestações que vão ocorrer no próximo dia 7, particularmente nos potenciais conflitos entre públicos. Até agora, diz o militar, a avaliação é que "a situação se mantém no nível da segurança pública, podendo ser gerida pelas polícias estaduais".

Generais ouvidos pela coluna exaltaram o papel do general João Camilo Pires de Campos, que é o atual secretário de Segurança Pública de São Paulo, e classificaram o afastamento do coronel como exemplar para tentar minimizar potenciais levantes de agentes de segurança.

"Ele atuou rapidamente e isso é importante", disse um militar do Alto Comando.

O general Campos, que não gosta do apelido de 'general do Doria', serviu ao Exército por 48 anos e esteve por duas vezes à frente do Comando Militar do Sudeste (CMSE). Ele está na reserva desde 2018.

Apesar de trabalhar desde janeiro de 2019 com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o general tem ao longo de sua gestão no governo tucano - segundo fontes militares - trabalhado "abaixo da superfície", ou seja, de forma discreta para conter o bolsonarismo entre as forças policiais.

Os militares reconhecem que o presidente Jair Bolsonaro tem uma base forte de apoio entre os policiais, mas acreditam que é possível conter ímpetos que possam incitar a violência com base nos regulamentos internos de disciplina.

Alguns militares de alta patente tentam minimizar o exemplo ruim dado pelo próprio Exército de não punir o general Eduardo Pazuello por participar de ato político com Bolsonaro, mas admitem que a ausência de punição pode ter ajudado para que os policiais bolsonaristas tenham decidido se expor.

Apesar disso, afirmam que é o momento é de olhar para o futuro e não pelo retrovisor.

O encontro realizado nesta segunda-feira (23) com diversos governadores, segundo os militares, tende a ajudar a conter qualquer insubordinação das forças policiais, já que uma ação coordenada dos Estados, seguindo o exemplo de São Paulo, pode ser mais eficiente.

Bolsonaro continuará imagem dos militares

Não há, no entanto, o que possa ser feito com policiais e outras forças de segurança da reserva como o caso relevado pelo jornal O Estado de S. Paulo do atual diretor-presidente da Ceagesp, o coronel da reserva da PM paulista Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, que também tem feito convocações nas redes sociais para as manifestações do dia 7.

Os militares reconhecem inclusive que a politização e o chamado para as manifestações do dia 7 de setembro tendem a se intensificar ainda mais nos próximos dias por conta da atitude do presidente Jair Bolsonaro.

Há, pelo menos até 7 de setembro, a previsão de participação de Bolsonaro em um ato oficial do Exército: a Solenidade do Dia do Soldado, no próximo dia 25.

Cautela com revolta na base

Apesar de no Alto Comando do Exército o sentimento ainda ser o de que não há clima para golpe ou ruptura, a avaliação de outros oficiais é de que há espaço para crescimento dos protestos nas ruas de ambos os lados e isso pode acabar com a quebra de hierarquia dos agentes de segurança.

"Existe risco das PM dos Estados não obedecerem seus governadores e isso não tem a ver só com o presidente. Há sim muitos militares que estão revoltados com os abusos e a parcialidade do STF", disse um desses oficiais, que possui simpatia pelo presidente.

Nos grupos de mensagens de oficiais, segundo essa fonte, a convocação para o 7 de setembro está de fato crescente e a tendência é de participação de pelo menos à paisana daqueles militares simpáticos a causa levantada por Bolsonaro.

Exército pode ser chamado via GLO

O Exército não possui controle sobre as polícias militares. Sua única missão com esses agentes de segurança é a determinação da quantidade e dos tipo de armas que as polícias desejam adquirir, que é regulado por lei.

Apesar disso, as Forças Armadas podem vir a ser chamadas em caso de conflito e desordem. Neste caso, no entanto, o acionamento de uma Operação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) poderia até ser feita por algum governador, mas só pode ser autorizada pelo presidente da República.

No caso de São Paulo, fontes do Ministério da Defesa dizem não ver chance de o governador João Doria pedir algo neste sentido ao presidente. Já em outros estados é possível que os militares venham a ser acionados.

E, em caso de acionamento via GLO, os militares são unânimes em dizer que a medida é lei e será obedecida. "Mas, sim, sabemos que será um risco de acirrar ainda mais a violência", disse um general da ativa, que reforçou que ainda acredita em uma solução pacífica.

Nesta segunda-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão falou que vê ato a favor de Bolsonaro "como fogo de palha".

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