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Carla Araújo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Bolsonaro confirma pedido de troca na PF e diz que Moro pediu vaga no STF

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Colunista do UOL*

04/11/2021 11h51Atualizada em 04/11/2021 17h12

O presidente Jair Bolsonaro prestou depoimento para a Polícia Federal na noite de quarta-feira (3), no Palácio do Planalto, em Brasília, no âmbito do inquérito que apura se ele interferiu indevidamente no órgão.

O presidente negou qualquer ingerência na PF, mas confirmou que em meados de 2019 solicitou ao ex-ministro Sérgio Moro a troca do então diretor Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, "em razão da falta de interlocução que havia entre o presidente da República e o diretor da Polícia Federal".

Segundo Bolsonaro, não havia qualquer insatisfação ou falta de confiança com o trabalho realizado por Valeixo, apenas "uma falta de interlocução".

Bolsonaro confirmou também que sugeriu a Moro a nomeação de Alexandre Ramagem para o cargo. Segundo o presidente, a escolha seria "em razão da sua competência e confiança construída ao longo do trabalho de segurança pessoal do declarante durante a campanha eleitoral de 2018".

À PF Bolsonaro disse que Moro concordou com indicação de Ramagem "desde que ocorresse após a indicação do ex-ministro da Justiça à vaga no Supremo Tribunal Federal".

Bolsonaro disse ainda que nunca teve como intenção, com a alteração da direção-geral da PF, obter informações privilegiadas de investigações sigilosas ou de interferir no trabalho de Polícia Judiciária ou obtenção diretamente de relatórios produzidos pela Polícia Federal.

Questionado pelo delegado Leopoldo Soares Lacerda o que quis dizer quando afirmou que tinha uma "PF que não me dá informações", durante a reunião ministerial que Moro usou para acusá-lo de interferência, Bolsonaro declarou que "quis dizer que não obtinha informações de forma ágil e eficiente dos órgãos do Poder Executivo, assim como da própria Polícia Federal e que quando disse "informações" se referia a relatórios de inteligência sobre fatos que necessitava para a tomada de decisões e nunca informações sigilosas sobre investigações.

Bolsonaro disse ainda que não possuía acesso ao Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência), coordenado pela ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) e que "muitas informações relevantes para a sua gestão chegavam primeiro através da imprensa, quando deveriam chegar ao seu conhecimento por meio do Serviço de Inteligência".

Moro nega pedido por vaga no STF e defesa reclama

Após o conteúdo do depoimento de Bolsonaro vir a público, o ex-ministro Sergio Moro divulgou uma nota negando as declarações do presidente.

"Jamais condicionei eventual troca no comando da PF à indicação ao STF. Não troco princípios por cargos. Se assim fosse, teria ficado no governo como Ministro", escreveu o ex-aliado de Bolsonaro.

Segundo Moro, nem os próprios ministros do governo ouvidos no inquérito confirmaram a versão apresentada pelo Presidente da República.

"Quanto aos motivos reais da troca, eles foram expostos pelo próprio Presidente na reunião ministerial de 22 de abril de 2020 para que todos ouvissem. Também considero impróprio que o Presidente tenha sido ouvido sem que meus advogados fossem avisados e pudessem fazer perguntas", disse.

O advogado do ex-ministro Sergio Moro, Rodrigo Sánchez Rios, também divulgou uma nota em que diz que a defesa do ex-ministro foi surpreendida pela notícia de que o presidente prestou depoimento à autoridade policial "sem que a defesa do ex-ministro fosse intimada e comunicada previamente, impedindo seu comparecimento a fim de formular questionamentos pertinentes, nos moldes do que ocorreu por ocasião do depoimento prestado pelo ex-ministro em maio do ano passado".

Segundo a defesa de Moro, "a adoção de procedimento diverso para os dois coinvestigados não se justifica, tendo em vista a necessária isonomia entre os depoentes".

A decisão de autorizar o depoimento de Bolsonaro sem a presença dos advogados de Moro foi do ministro do STF, Alexandre de Moraes.

Insatisfação com apuração do atentado

Bolsonaro foi indagado também se a troca no comando da PF também estaria sendo motivada por uma eventual falta de empenho da PF nas investigações sobre o atentado a faca que o presidente sofreu durante a campanha de 2018.

O presidente disse que cobrou de Moro uma investigação mais célere e objetiva sobre o atentado que sofreu e que não observou nenhum empenho do ex-ministro em solucionar o assunto.

Segundo Bolsonaro, ele participou de uma apresentação do delegado responsável pela investigação do atentado com a presença do ex-ministro Moro, mas que não fez nenhum tipo de pedido na direção da investigação ou qualquer outra interferência no andamento dos trabalhos.

Ontem, o TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) tomou uma decisão que pode reabrir a investigação sobre a facada em Bolsonaro. Em julgamento da segunda seção do tribunal, os desembargadores autorizaram quebras de sigilo e apreensões contra o advogado de Adélio Bispo, autor do atentado. As medidas estavam suspensas desde 2019.

Caso porteiro e assassinato Marielle

Bolsonaro também respondeu à PF sobre o caso do porteiro de seu condomínio no Rio de Janeiro, que teria levantado suspeitas sobre o seu envolvimento com o assassinato da vereadora Marielle Franco.

Segundo Bolsonaro, ele teria cobrado um maior empenho de Moro na investigação sobre as declarações do porteiro, mas também não observou nenhum empenho ou preocupação de Moro em solucionar rapidamente o caso.

O presidente disse ainda que soube pelo ex-ministro que havia sido aberta uma investigação na Polícia Federal e que foi constatado um equívoco por parte do porteiro.

Bolsonaro disse ainda que foi divulgado na impressa que seu filho Jair Renan teria namorado a filha do ex-policial militar acusado pelo assassinato da vereadora, mas que posteriormente ficou esclarecido pelo próprio ex-ministro que o ex-policial militar declarou que a sua filha nunca namorou Jair Renan

Segundo o presidente, esse esclarecimento só veio à tona em razão dos insistentes pedidos feitos por ele a Moro para que solucionasse o caso e que não havia uma proatividade do ex-ministro.

Segurança da família

Bolsonaro afirmou ainda que quando disse "Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui", estava se referindo a um núcleo do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) na cidade que poderia ser melhorado, especialmente em relação à proteção de seu filho que mora na capital fluminense, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos).

Moro tinha carta branca

Questionado sobre o que entende por "interferência política" na PF, Bolsonaro disse que para ele interferência política são pedidos políticos e não técnicos de gestores de Órgãos Públicos com a intenção de haver influência política sobre os trabalhos desenvolvidos pelo órgão.

Nesta resposta, o presidente reiterou que jamais teve qualquer intenção de interferência política na Polícia Federal quando sugeriu a Moro a alteração na gestão da Direção Geral ou em Superintendências Regionais e afirmou que quando o convidou para ser ministro concordou em "dar carta branca" para que cada um montasse sua equipe e os órgão vinculados com os nomes que entendessem, mas que ele teria poder de veto.

"Tanto foi assim que o ex-ministro Sérgio Moro trouxe para o seu ministério os profissionais que ele teve contato em Curitiba-PR", disse o presidente, que afirmou ainda que em determinado momento percebeu que o ex-ministro estaria administrando a pasta "sem pensar no todo, sem alinhamento com os demais ministérios e o Gabinete da Presidência".

Bolsonaro ainda pediu para acrescentar que "sempre respeitou e respeita a autonomia da Polícia Federal" e que entende que mesmo com a alteração de dirigentes de unidades da PF, não é possível interferir nas investigações em razão do sistema penal brasileiro e na cultura organizacional enraizada na instituição.

Depoimento presencial

No mês passado, Bolsonaro mudou sua estratégia e pediu para prestar o depoimento de forma presencial.

O depoimento do presidente foi uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, relator do processo do STF, que autorizou que Bolsonaro falasse no Palácio do Planalto e sem a presença de advogados de Moro. O teor do documento foi tornado público pelo STF, mas, segundo a PF, a oitiva não foi gravada.

Motivada por denúncias do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, a investigação acontece desde abril do ano passado e já foi prorrogada várias vezes, a última em julho deste ano.

Este é um dos quatro inquéritos que correm contra Bolsonaro no Supremo.

*Colaboraram Eduardo Militão e Luciana Amaral, do UOL, em Brasília

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