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Sem trabalho e renda, morador da periferia depende do Bom Prato para comer

Unidades do Bom Prato nas periferias da zona sul de São Paulo só abrem de segunda-feira a sexta-feira - Patricia Santos/Desenrola e Não Me Enrola
Unidades do Bom Prato nas periferias da zona sul de São Paulo só abrem de segunda-feira a sexta-feira Imagem: Patricia Santos/Desenrola e Não Me Enrola

Patrícia Santos, do Desenrola e Não me Enrola

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

01/09/2022 04h00

Como os preços dos alimentos estão aumentando cada vez mais, moradores das periferias de São Paulo deixam de ir ao mercado e feiras livres por falta de dinheiro, e recorrem ao Bom Prato como alternativa para fazer refeições essenciais como café da manhã, almoço e jantar. Esse é o caso de Antônio Inácio de Lima, 65, que vai todos os dias almoçar e jantar na unidade do Bom Prato Capão Redondo, na zona sul de São Paulo.

O morador do Capão Redondo vive sozinho há 15 anos, desde a morte da esposa. Ele ainda não conseguiu se aposentar pelo fato de a documentação estar incompleta. Neste momento, Lima está tentando reunir todos os documentos necessários, como a certidão de nascimento que se encontra em Pernambuco, onde nasceu. Enquanto isso, usa o pouco recurso que consegue com a ajuda de vizinhos e amigos para pagar as refeições no Bom Prato.

"O dinheiro que eu tenho é só para comer aqui. Minha salvação é essa, não tem outra coisa para mim. Se eu for comer em um bar por aí são R$ 20 ou R$ 30 no almoço. Eu não tenho, e a comida daqui é maravilhosa", diz.

Custando R$ 1 por refeição e R$ 0,50 no café da manhã, o Bom Prato se tornou a principal alternativa viável para moradores das periferias que não têm condições de comprar alimentos ou pagar por refeições em estabelecimentos comerciais.

Sem renda e sem condições físicas para trabalhar, Antônio conta com a ajuda de vizinhos, que dão algumas moedas para ele conseguir comprar a comida no restaurante popular. Para suprir a necessidade do café da manhã, ele recebe o auxílio dos moradores à sua volta, que oferecem diariamente dois pães e café preto. "Os vizinhos me dão algumas moedas para comprar comida. Eu não tenho renda nenhuma e também não consigo trabalhar, não tenho mais saúde pra isso", explica Antônio.

Renda insuficiente

Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a cesta básica em São Paulo no mês de julho custava R$ 777,01, em média. Esse valor destinado à alimentação de uma família de quatro pessoas corresponde a 64% do salário mínimo.

A Constituição estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para suprir as necessidades e despesas da família com relação a alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene e lazer.

No entanto, o Dieese mostra que o valor necessário para cobrir essas e outras demandas de uma família com quatro pessoas deveria ser de R$ 6.527,67, ou 5,39 vezes o valor atual do salário mínimo, de R$ 1.212.

Os estudos do Dieese têm forte conexão com a realidade vivida diariamente por Marcela Silva de Souza, 53, moradora do Capão Redondo, que tem apostado na atividade de catadora de recicláveis como uma alternativa para gerar renda e conseguir alimentar os três filhos e dois netos.

Os preços dos alimentos nos mercados e feiras livres são incompatíveis com o orçamento da família. O Bom Prato surge como a única solução de fácil acesso que permite a ela se organizar financeiramente.

"Em dias bons, consigo fazer dinheiro suficiente para dar comida para todo mundo, mas tem dias em que temos que dividir para não faltar no dia seguinte", diz a catadora de recicláveis, apontando que a cultura de dividir para não faltar já faz parte do cotidiano dos filhos e netos, ainda crianças.

Unidades fixas fecham aos finais de semana

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, durante a pandemia de covid-19, o Programa de Segurança Alimentar Bom Prato teve um aumento de 23,1% na distribuição de refeições. Entre 2020 e 2021, foram distribuídas mais de 78 milhões de refeições. Já nos anos de 2017 a 2019, o programa distribuiu 63 milhões de refeições.

Atualmente são servidas mais de 114 mil refeições por dia nas 83 unidades do Bom Prato. Dessas, 22 unidades estão localizadas em endereços fixos e outras dez estão em unidades móveis na cidade de São Paulo. As unidades do programa de segurança alimentar localizadas na 25 de Março, Brás, Campos Elíseos, Guaianases, Lapa e São Mateus abrem sete dias por semana.

No entanto, as demais unidades instaladas em endereços fixos das regiões norte e sul do município atendem de segunda-feira a sexta-feira. Esse expediente não considera a demanda da população local, que, evidentemente, precisa se alimentar no sábado e domingo. Dessa forma, Antônio e a Marcela são afetados diretamente pelo fechamento das unidades.

"Chega sexta-feira, eu pego duas marmitas: uma para jantar e uma para comer no sábado. No domingo, os vizinhos me dão comida. Com fome eu não fico, graças a Deus e a eles, mas seria bom se [o Bom Prato] abrisse no domingo, aí eu não ia ficar dependendo só deles [dos vizinhos] para comer", diz Antônio.

No caso da Marcela, mesmo pegando duas marmitas (o limite permitido por vez), ainda é pouco para alimentar seis pessoas por mais dois dias. "Já cheguei a ir até Santo Amaro pegando carona nos ônibus para pegar marmita, mas é muito difícil, nem todo motorista quer dar carona", relata.

A periferia no combate à fome

Marisa Mateus (a segunda, da esq. para a dir.) e as cozinheiras da ONG O Amor Agradece, que servem marmitas no Jardim Carumbé - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marisa Mateus (a segunda, da esq. para a dir.) e as cozinheiras da ONG O Amor Agradece, que servem marmitas no Jardim Carumbé
Imagem: Arquivo pessoal

Marisa Mateus, 64, é moradora do Jardim Carumbé, na Brasilândia, zona norte de São Paulo. Ela atua como coordenadora do Núcleo Carumbé da organização social O Amor Agradece, que entrega marmitas aos domingos para moradores da Ocupação Nova Carumbé.

A organização existe há quatro anos, mas o Núcleo Carumbé, responsável pela distribuição de refeições, surgiu durante a pandemia de covid-19, mesmo período no qual o Bom Prato teve um aumento considerável na distribuição de refeições.

"Em abril de 2021, recebi uma ligação de uma amiga, dizendo que um grupo que distribuía marmitas estava precisando de um carro para fazer o recolhimento. Eu disse que poderia, sim, fazer, mas distribuiria aqui na minha comunidade, pois temos uma ocupação de moradia em situação de vulnerabilidade. Assim conheci a Rute Correia, que é coordenadora da ONG O Amor agradece", relembra.

Em 2021, a pedido de Rute Correia, Marisa passou a cozinhar junto com as irmãs e vizinhas do bairro onde mora, e hoje somam juntas dez cozinheiras e algumas ajudantes no coletivo. Elas cozinham em suas casas, e o projeto recolhe as marmitas e as distribui na região.

"Hoje são 250 marmitas distribuídas para aqueles que estão na fila todos os domingos. O critério para distribuirmos nesta região é a proximidade. A comida chega quentinha ao nosso público", diz Marisa.

O Bom Prato da Brasilândia também funciona só de segunda-feira a sexta-feira. Com isso, os moradores ficam vulneráveis à falta de alimentação nos finais de semana, fato que reforça a importância da atuação da organização social na região.

Segundo a secretaria, as unidades do Bom Prato que funcionam aos fins de semana são definidas de acordo com a demanda de usuários da região.

"A frequência de abertura e funcionamento das 83 unidades do Bom Prato são determinadas por meio de um mapeamento de demanda. Há três opções de abertura que atendem a frequência dos clientes e pessoas em situação de rua em seus diferentes territórios do estado: segunda-feira a sexta-feira, segunda a sábado, e segunda a domingo", diz.