Rumo a um PIBinho?

Mercado estava otimista com Bolsonaro, mas agora avalia que 2019 está perdido, com fraqueza e desemprego

Luma Poletti Colaboração para o UOL, em Brasília
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A fraqueza da economia

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) anunciou o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre de 2019 --houve queda de 0,2%. É o primeiro PIB divulgado na gestão de Jair Bolsonaro.

Analistas dizem que o governo tem de tomar medidas urgentes para recuperar a economia, mas isso só deve acontecer em 2020, porque em 2019 a situação não deve melhorar. O emprego, por exemplo, pode ficar pior do que em 2018. Há fatores globais e nacionais para esse diagnóstico.

No ambiente doméstico, dificuldades na articulação política com o Congresso e na consolidação de uma base de apoio coesa contribuem para que medidas econômicas como a reforma da Previdência avancem com dificuldade. O emprego não melhora, e a economia não decola.

Por outro lado, eventos externos como a crise econômica na Argentina e a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China influenciaram no cenário brasileiro. Veja abaixo explicações de especialistas para o fraco desempenho do país nos primeiros meses do ano.

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Agora é pensar em 2020, porque 2019 já está perdido, diz analista

Economistas avaliam que o resultado negativo do PIB do primeiro trimestre, que encolheu 0,2%, não pode ser considerado um fator determinante para os próximos trimestres, mas compõe um cenário que até então não se mostra favorável para a economia do país.

Para José Luis Oreiro, professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), o governo precisa adotar algumas medidas para garantir o crescimento econômico dos próximos anos.

O ano de 2019 nós já perdemos. Vai ser um ano de crescimento muito baixo, eu acho que 1% é o teto de previsão de crescimento para 2019, mas vai ser menos do que isso. É possível sair dessa situação? Sim, mas você tem que criar estímulos de demanda agregada.
José Luis Oreiro

Segundo ele, isso significa "flexibilizar mais ainda a política monetária, rever os congelamentos de gastos (principalmente o de R$ 30 bilhões) e parar de reduzir o tamanho do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A curto prazo são essas as medidas que deveriam ser tomadas para tentar salvar o crescimento de 2020, porque o de 2019 já está comprometido".

Alexandre Espírito Santo concorda que a perspectiva para o restante do ano não é muito animadora.

A gente provavelmente terá um segundo trimestre também fraco, o que compromete, porque metade do ano vai ser de PIB muito fraquinho, e o PIB do ano fechado vai sofrer de inanição.
Alexandre Espírito Santo

O economista, porém, faz uma ressalva: "Se eventualmente as reformas começarem a andar, eu acho que a gente vai para um segundo semestre muito melhor".

Governo espera crescimento

O governo ainda espera uma aceleração do crescimento do PIB este ano: "Mesmo com o ritmo da economia brasileira aquém do esperado para o início do ano, tanto as projeções governamentais quanto as de mercado apontam para uma aceleração do crescimento do PIB em 2019. Diversas ações têm sido tomadas na direção de elevar o crescimento não apenas neste ano, como de forma sustentável para os próximos anos", informou o Ministério da Economia.

Gabriel Paiva/Agência O Globo Gabriel Paiva/Agência O Globo

Desemprego pode ser ainda maior neste ano que em 2018

De acordo com a última Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua, o país somava 12,7% de desempregados no primeiro trimestre do ano, o equivalente a 13,4 milhões de pessoas.

Com a economia estagnada, não há perspectiva de reversão do quadro a curto prazo. A estimativa de especialistas é de que o cenário comece a melhorar a partir do ano que vem.

Se confirmar esse resultado de crescimento pífio da economia em 2019, é provável que o desemprego médio de 2019 seja maior do que o de 2018. Nesse cenário, o desemprego só vai começar a cair a partir de 2020, e mesmo assim bem devagar. Para a gente ficar com o desemprego abaixo de dois dígitos, abaixo de 10%, eu acredito que só a partir de 2021 ou 2022.
José Luis Oreiro

O analista Alexandre Augusto Seijas de Andrade destaca a dificuldade na criação de vagas de emprego com carteira assinada e o consequente aumento da informalidade.

As condições do mercado de trabalho são muito desfavoráveis ainda, o desemprego segue em níveis bastante elevados. A gente não observa uma recuperação dos empregos formais. O que a gente observa de aumento no nível de emprego se concentra em setores informais, trabalhadores que atuam por conta própria. Isso é um reflexo de fragilidades no mercado de trabalho: pessoas que são empurradas para a informalidade porque não conseguem ser absorvidas pelo mercado formal.
Alexandre Augusto Seijas de Andrade

O consenso entre os economistas é: enquanto não houver melhora nos índices de confiança dos consumidores e empresários, o desemprego não dará trégua. Além disso, a permanência de incertezas no cenário político não contribui para a solução do problema.

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Previsão de recuperação em 2019 levou ducha de água fria

O início do ano de 2019 foi marcado por um período de lua de mel entre o mercado e o novo governo. Havia um otimismo em relação às ações a serem tomadas pela equipe econômica comandada por Paulo Guedes, mas logo o clima arrefeceu.

Para especialistas, as razões passam por conjunturas internas e externas. Entre os fatores internos, está a fraca demanda em função do alto índice de desemprego.

A situação do mercado de trabalho impacta diretamente na confiança dos consumidores, que reduzem o nível de consumo em função da incerteza em relação às perspectivas de emprego. Os empresários, por sua vez, evitam aumentar os investimentos diante deste cenário.

Além disso, os atritos entre o governo e o Congresso têm atrasado a tramitação de reformas consideradas essenciais, como a da Previdência.

Na virada do ano existia uma expectativa de que as reformas iriam ser aprovadas de maneira mais célere, sem tanta dificuldade porque havia uma percepção de que existia um consenso de que a reforma da Previdência e outras reformas a reboque eram absolutamente necessárias. Houve, sem dúvida nenhuma, a quebra dessa expectativa positiva por conta da dificuldade que está sendo prosperar com as reformas na velocidade adequada. E, mais do que isso, você começa a desidratar a reforma. Com isso tudo, a gente teve uma espécie de ducha de água fria em relação ao crescimento para 2019.
Alexandre Espírito Santo, economista da Órama

Governo culpa clima e Brumadinho

O governo diz que o início do ano foi marcado por intempéries climáticas que afetaram a produção agropecuária: "Todavia, as estimativas mais recentes apontam para recuperação da safra ao longo do ano, o que deverá contribuir para a retomada do PIB do setor agropecuário. No caso da indústria, houve impacto da tragédia de Brumadinho com reflexos na produção extrativa mineral", informou o Ministério da Economia.

Além disso, a economia brasileira também sofre efeitos da conjuntura internacional, como a crise na Argentina. O país vizinho é um grande parceiro comercial do Brasil. A recessão e a disparada da inflação afetam a indústria automobilística nacional, que tem a Argentina como destino de exportação de veículos.

A guerra comercial entre EUA e China também tem efeitos por aqui. A reação do PIB das duas maiores economias do mundo a essa disputa gera consequências para a atividade econômica em escala mundial.

O primeiro trimestre desse ano foi aquém do esperado em termos de expectativa. Começamos o ano com um otimismo mais elevado, mas logo esse otimismo já havia caído em fevereiro e março.
Tatiana Pinheiro, economista chefe da BNP Paribas Asset Management

"O mundo também começou a mudar a chavinha do otimismo para o pessimismo a partir de fevereiro, principalmente em março. A Europa começou a apresentar dados mais fortes de desaceleração. A questão da 'trade war' [guerra comercial] foi sendo jogado cada vez mais para frente, sem uma definição", disse Tatiana.

Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Bolsonaro não tem toda a culpa sobre primeiro trimestre

Este é o primeiro PIB do governo de Jair Bolsonaro. Para especialistas, transferir a responsabilidade do resultado integralmente para a atual equipe econômica não seria adequado, uma vez que o desempenho econômico dos três primeiros meses do ano é muito influenciado pela trajetória do ano anterior.

Normalmente quando a gente pensa em PIB, essas tendências ou de contração ou de recuperação, a análise tem que ser mais longa; no curto prazo, não dá. Política monetária leva de seis a nove meses para fazer efeito na atividade econômica.
Tatiana Pinheiro

O ministro Paulo Guedes (Economia) participou de uma audiência na Comissão Mista do Orçamento e afirmou que a economia do país está "no fundo do poço".

Na ocasião, Guedes disse cabe ao Congresso tirar o país dessa situação. No entanto, a falta de articulação entre governo e parlamentares tem provocado alguns reveses, como a demora no avanço da reforma da Previdência.

É pouco tempo para se avaliar a atuação do governo. Ao mesmo tempo a gente entende que dada a gravidade das contas públicas, do quadro fiscal da economia, algumas medidas precisariam já estar numa trajetória mais consistente. A tramitação da reforma previdenciária poderia estar mais avançada. Alguns problemas de comunicação, alguns ruídos que foram criados desnecessariamente no debate acabaram atrasando essa tramitação. É um problema mais urgente que precisa ser resolvido. Quanto antes isso for tirado da frente, o governo poderá trabalhar com mais celeridade em outras questões que precisam ser tratadas.
Alexandre Augusto Seijas de Andrade, analista da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado

Ministério diz que antes políticas eram desastrosas

O Ministério da Economia também transfere parte da fatura para gestões anteriores: "Não se devem subestimar os efeitos perversos de políticas desastrosas realizadas nas últimas décadas. O país se deparou com uma queda significativa de produtividade na presente década em resultado de piora na eficiência alocativa promovida por políticas de estímulos a setores específicos, e deterioração nas contas públicas. O quadro atual ainda é resultado desse ambiente construído por muitos anos", disse o ministério em nota.

Além da Previdência, outras medidas vêm sendo tomadas pela equipe econômica do governo. Em abril, Jair Bolsonaro assinou a medida provisória da liberdade econômica, com a promessa de reduzir a burocracia para empresas. No mesmo mês, o presidente assinou um projeto de lei que estabelece a autonomia do Banco Central.

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