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Opinião: Boicote presidencial à Folha é jogo político ou ato institucional?

Luiz Peres-Neto

Luiz Peres-Neto

Luiz Peres-Neto é professor doutor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo (PPGCOM) da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

03/12/2019 14h00

Na última semana, uma notícia desatou amores e dores nas redes (anti)sociais. O zum-zum-zum ainda ecoa nos corredores das agências de publicidade e nas redações dos principais jornais brasileiros.

De uma tacada, o presidente da República confirmou, em primeiro lugar, a exclusão da Folha de S. Paulo da licitação para assinatura de jornais do governo. Na sequência, na mesma entrevista em que ratificou o veto à Folha, clamou a empresas a não anunciarem seus produtos e serviços na mesma. Além disso, afirmou que não compra qualquer produto das empresas que anunciam na Folha.

Como se tudo isso fosse pouco, convocou um boicote a toda e qualquer marca que anunciar no referido jornal. O epílogo, digno de espanto, foi a explicação para tal exasperação: nas palavras do presidente, "a Folha de S. Paulo não serve nem para forrar aí o galinheiro do Alvorada" por ser um jornal que "não diz a verdade".

Certamente, a caixa de comentários deste texto estará repleta de opiniões, quer seja defendendo, quer seja atacando tal decisão. Mas, caro leitor ou leitora, antes de verter o teu ímpeto, como professor dedicado a pesquisar esses temas, permita-me que te convide para uma breve reflexão.

Depois, como não poderia ser de outra forma, faça bom uso do teu (e do nosso) direito de expressar-se livremente. Claro, não esqueça das regras mínimas de civilidade. Afinal, conviver é preciso. Lacrar, não.

Consumo, uma bandeira política

Pode parecer exótico, mas, acredite, o consumo é uma das práticas sociais centrais da nossa vida cotidiana. Até mesmo aqueles que dizem não consumir precisam consumir para sobreviver. Não confundamos, contudo, o consumo com o seu excesso, o consumismo.

Por meio do consumo, estamos continuamente comunicando valores, desejos, sentimentos e pertencimento. Ao escolher entre, por exemplo, comer um pão de queijo no boteco da esquina ou um sanduíche na franquia dos Arcos Dourados há um sem-fim de elementos socioculturais que sustentam a sua escolha.

Para seguir neste exemplo, você pode ser fã de hambúrguer, mas, se a sua paquera te convidar para um pão de queijo, talvez a balança se incline a favor do boteco. Pela companhia. Ou não.

Isso serve para comida, mas também para a mídia que você consome. O cinema do final de semana. A cor do carro, ou a opção entre ônibus, metrô ou helicóptero. O bairro onde mora. A escola em que quer estudar.

Lembre-se de que nem todos consumimos as mesmas coisas e tampouco fazemos da mesma maneira. Afinal, nesse jogo sociocultural, o poder econômico também dá as cartas.

Boicote, ato genuinamente político

Em meio às revoluções burguesas do século 19, o proprietário irlandês Charles Boycott viu os arrendatários para os quais cedia parcialmente suas propriedades organizarem um levante.

Amotinados, decidiram cruzar os braços ante as péssimas condições e terríveis exigências impostas por Boycott. Como movimento político, surgia o boicote.

Do mundo do trabalho, o século 20 adentrou em cheio no universo do consumo, muito especialmente impulsado pela onda hippie e demais movimentos sociais dos anos 1960 do passado século.

O consumo, como dizíamos anteriormente, é uma manifestação sociocultural. Comunica nossos valores. Uma ou mais visões de mundo. Assume, portanto, uma dimensão política. Indica nossas preferências e ideologias. Até mesmo quando não consumimos. Um boicote nada mais é do que um ato genuinamente político.

Ato político ou ato institucional?

E, aqui, não podemos fugir da reflexão mais simples: que um político convoque seus votantes, simpatizante ou, até mesmo, a sociedade para consumir (ou não consumir) um determinado produto ou serviço é perfeitamente defensável. É parte do jogo político.

Assim, quando um político clama um boicote ao consumo de um meio de comunicação ou defende que compremos uma determinada loção capilar que apoia a causa ecológica temos uma clara ação política. Simples assim.

O problema, contudo, se dá quando não se trata apenas (ou tão somente) de uma ação de um político e, sim, de um ato institucional (sem trocadilhos).

Chefe de Estado não fala só por si

Políticos podem, pela natureza da sua ação, vir a ocupar cargos institucionais. A depender do cargo que ocupem, representam não apenas a si mesmo e a seus votantes. Isso se dá, por exemplo, quando um político assume as funções de chefe de estado.

Dadas tais circunstâncias, representa não apenas a si e aos seus, mas, simbolicamente —e pelo período que corresponda, excetuando as monarquias e as ditaduras— representa o Estado em questão. Personifica transitoriamente o todo.

O leitor que não me abandonou até este parágrafo certamente saberá que um chefe de Estado não deixa de sê-lo quando dorme. Será chefe de Estado 24 horas por dia, sete dias por semana.

Isso não quer dizer que não tenha direito à vida privada. No entanto, quando manifesta-se publicamente, não fala por si. Dadas as especificidades do cargo que ocupa, fala em nome da instituição que representa. Perde-se, nesse caso, a aura privada nas suas comunicações com o público.

Antes que algum apressado se adiante, vou logo às comparações mais estapafúrdias. Não é comparável a função pública de um chefe de Estado com a do CEO da firma. Este último, dada a natureza privada do seu cargo, quando vai a público pode optar falar por si ou pela empresa que preside. Afinal de contas, ninguém é CEO de uma nação.

A comparação, confesso, é tosca. Entretanto, nos tempos que correm, é necessário deixar claro: a função pública tem uma dimensão representativa que dista das responsabilidades do mundo privado. Ainda mais nas Repúblicas e nas democracias. Por isso, é tão distinto quando um presidente ou um monarca falam sobre o mundo do consumo.

Rainha da Inglaterra x Hugo Chávez

Se você viajar ao Reino Unido (ou se já o fez, certamente lembrará que), ao consumir certos produtos, observará uma reminiscência feudal que perdura na terra da rainha. Uma série de produtos, que vão de uísque a tecido, podem receber o selo de aprovação dado por sua alteza real.

Uma chancela muito apreciada por determinadas marcas que surfam na reputação (e na tradição) da Casa de Windsor. Porque representa um seleto grupo de produtos que supostamente passaram por uma triagem. Que têm qualidade chancelada pela rainha. De tal sorte que a instituição (monarquia) empresta o seu capital simbólico a tais produtos.

Mas, se a rainha da Inglaterra pode chancelar um ou outro produto e comunicar ao mundo com o seu selo real aqueles que são realmente excelsos, porque o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, já em fase de delírio revolucionário, foi extremamente criticado após defender, em seu programa televisivo semanal, que a população preferisse produtos bolivarianos àqueles que não tivessem comprometidos com a causa?

Calma lá! Aqui temos, antes de mais nada, que apresentar algumas diferenças fundamentais. A existência de uma República como sistema de governo requer a impessoalidade da chefia do Estado. Como é sabido, isso é impossível nas monarquias. Afinal, estas se baseiam em laços genéticos hereditários, e não na decisão soberana do povo nas urnas.

A despeito disso, é preciso acrescentar a dimensão histórica de uma instituição, como a monarquia britânica, cujo peso imperial e colonialista ainda ressoa.

Só nos resta lamentar

Assim sendo, por mais que, no caso brasileiro, o atual presidente tenha devaneios imperialistas, ao propor um boicote a anunciantes ou vetar um determinado meio de comunicação, fere de morte os princípios reitores da República.

Fere a chamada "liturgia do cargo", que ocupa transitoriamente. Fere a sociedade e a liberdade de escolha. Fere o mercado e a igualdade competitiva.

Em síntese, todos, inclusive Bolsonaro, saem perdendo. Mais do que defender ou criticar só nos resta lamentar. Situações como essa apequenam a nossa República.

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