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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pandemia pode impulsionar inovação, mas dinheiro e mão de obra são desafio

Rafael Vasconcelos

Rafael Vasconcelos

Professor do Departamento de Economia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)

15/07/2021 04h00

A inovação é um dos motores do crescimento econômico de longo prazo dos países, segundo o vencedor do Prêmio Nobel em Economia Paul Romer. Nesse sentido, a pandemia de covid-19 pode influenciar também a dinâmica de inovação no Brasil. Devido à ausência de evidências empíricas e dados consolidados até o momento, é prematuro afirmar taxativamente que o efeito final dessa influência será negativo ou positivo. Mas podemos entender quais são os efeitos ambíguos envolvidos.

Parafraseando o filósofo Platão, a necessidade é mãe da inovação. A corrida por inovação para combater a covid-19 gerou o desenvolvimento de diversas inovações farmacológicas, como as vacinas. Segundo a Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Wipo, na sigla em inglês), o setor que mais investe em inovação no mundo e o setor com mais depósitos de patentes é justamente o setor farmacêutico.

Como o processo inovador demanda pesquisadores, máquinas e equipamentos e conhecimento, esses fatores permanecerão após a pandemia e propiciarão a criação de mais inovação. Desse modo, existe um importante efeito positivo sobre inovação.

No caso do Brasil, segundo os dados do Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), cerca de 20% das patentes depositadas desde 1996 são de tecnologia médico-farmacológica. Instituto Butantan e Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) estão na linha de frente da produção de vacinas no Brasil e também no desenvolvimento de inovações como a vacina ButanVac.

Existem também diversas iniciativas pró-inovação, como a parceria entre o Instituto Leloir, o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (ambos da Argentina) e a Escola Paulista de Medicina para a criação de uma vacina de segunda geração 100% sul-americana, a CoroVax. Por isso, a corrida por vacinas contra a covid-19 pode gerar um importante efeito positivo para a inovação no Brasil.

Por outro lado, é evidente que existem efeitos negativos sobre inovação. Um efeito é a menor disponibilidade de recursos que a pandemia provoca para os investimentos em inovação. Tanto pelo menor gasto governamental com pesquisa e desenvolvimento, como pela contenção dos investimentos privados.

Essa redução do investimento em pesquisa teria um efeito negativo sobre a inovação do Brasil. Segundo o pesquisador Philippe Aghion, países com restrições de acesso a crédito, como o Brasil, deveriam aumentar as intervenções que favorecem os investimentos em inovação durante as crises econômicas.

Na contramão disso, segundo os dados do Siop (Sstema Integrado de Planejamento) do governo federal, o orçamento aprovado para 2021 do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações é cerca de 30% menor que o executado em 2020.

Outro efeito negativo relacionado à restrição de recursos é a redução de crédito para inovação. Essa redução tende a ocorrer devido à mudança de composição de crédito disponível. Segundo dados do Banco Central do Brasil, a concessão de crédito livre para capital de giro aumentou 10,7% entre janeiro e dezembro de 2020, mesmo com a redução de 6,1% do total de concessões de crédito livre no mesmo período.

Esse crescimento do crédito para o capital de giro ainda é potencializado pelo programa de Capital de Giro para Preservação de Empresas e outras políticas contracíclicas de expansão de crédito adotadas no Brasil. Desse modo, pode haver menos investimentos em inovação como efeito colateral da sobrevivência das empresas brasileiras durante a crise.

Outro efeito negativo surge da redução de capital humano para inovação. Não há inovação sem pesquisadores. Com isso, o falecimento de relevantes pesquisadores, acometidos pela covid-19, pode gerar também um efeito negativo sobre a inovação no Brasil.

Além disso, a situação também é preocupante para os jovens pesquisadores. As altas taxas de desemprego e a baixa remuneração real não são atrativos aos jovens pesquisadores e isso pode fazer com que esses pesquisadores busquem ofertas de trabalho no estrangeiro (fuga de cérebros), aceitem ofertas de trabalhos com salários mais baixos ou com piores condições de trabalho, mudem de profissão ou fiquem desempregados.

Como sugerido pelo pesquisador Ufuk Akcigit e coautores, quanto mais pesquisadores e maior for a interação entre eles, maior será a taxa de inovação de um país. Nesse sentido, a menor quantidade de pesquisadores que interagem na pesquisa e no desenvolvimento pode ser outro efeito negativo sobre a inovação no Brasil.

Esses são alguns efeitos causados pela pandemia de covid-19 e que podem influenciar a inovação no Brasil. Se o efeito líquido deles será positivo ou negativo ainda não é evidente. Tenha em mente que essa pandemia é um evento histórico sem igual. Todavia, a pandemia ocorre em um período de maior capacidade de inovação dos países. Por isso, a inovação é um fator fundamental para a humanidade ultrapassar os obstáculos impostos pela pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL