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Carla Araújo


Impasse sobre demissão de Moro ainda não foi resolvido, dizem militares

Presidente Jair Bolsonaro e ministro da Justiça, Sergio Moro, no Palácio do Planalto -
Presidente Jair Bolsonaro e ministro da Justiça, Sergio Moro, no Palácio do Planalto
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

23/04/2020 19h52Atualizada em 24/04/2020 10h35

O dia foi tenso no Palácio do Planalto com a possibilidade de saída do ministro da Justiça, Sérgio Moro. A decisão de o presidente Jair Bolsonaro mudar a cúpula da Polícia Federal trouxe uma nova crise para o governo.

"Ainda temos um impasse", disse uma fonte palaciana no início desta noite, acrescentando que a situação pode se arrastar, mas que "não pode ser descartado um desenlace brusco".

Segundo um militar que assessora o presidente, o dia foi de tentar distender as crises. "Por enquanto tudo segue do mesmo modo. Ministro fica no cargo. Ele é durão", avaliou.

Durante a tarde, ministros palacianos que tentaram arrefecer a crise afirmavam que não era intenção do presidente demitir Moro. Alguns auxiliares, no entanto, salientavam que já não dá mais para esconder que a relação entre os dois é de um "casamento com uma crise arrastada".

Outro militar fez uma analogia a mitologia romana e atribuiu o papel do presidente Bolsonaro a Netuno, o Deus dos mares e oceanos. "O mar sempre revolto. Ele está mais para Netuno (do que marinheiro). Ele é que balança o mar", avaliou.

Bolsonaro já vinha demonstrando insatisfação com o diretor da PF, Maurício Valeixo, desde o ano passado. "Ele vem falando isso há algum tempo. Resolveu que seria agora", disse um general. "Mas agora pode não ser mais neste momento. Tudo está em conversação", completou.

O desgaste em torno da eventual e cada vez mais provável saída de Moro ainda tende a aumentar se o presidente começar a ceder cargos para parlamentares do chamado centrão. Uma fonte palaciana disse acreditar, inclusive, que a decisão da troca da PF foi um pedido direto de deputados que têm problemas na Justiça e que o presidente tem buscado uma aproximação.

"Creio que é parte da fatura que o centrão cobrou para apoiar o governo, tirar o Moro e sua patota", declarou a fonte.

Outro antigo assessor palaciano avaliou que a situação do presidente é complicada independente do desfecho da "novela Moro". "Ficou ruim, porque se o presidente não trocar o diretor da PF vai parecer que está na mão do Moro. E se trocar o Moro não tem como ficar", avaliou.

E o posto Ipiranga?

A disposição de Bolsonaro em enfrentar Moro fez crescer ainda mais rumores de fragilidades do ministro da Economia, Paulo Guedes. No ministério, porém, a ordem é seguir o barco e evitar holofotes negativos.

Em entrevista mais cedo ao UOL, o número dois da Economia, o secretário-executivo, Marcelo Guaranys, destacou que a relação do presidente com Guedes é de extrema parceria e que não acreditava que uma saída de Moro pudesse fortalecer uma demissão de Guedes.

No Planalto, o pedido de auxiliares é "um capítulo por vez". "É uma série com várias temporadas e capítulos", disse um militar, acrescentando que não apenas o roteirista (que seria o presidente) é bastante criativo. "Os personagens também são".

Agora, é aguardar para ver qual será o próximo episódio.

Carla Araújo