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Carla Araújo


Planalto tem dificuldade para achar substituto de Weintraub; centrão espera

Participação de ministro em manifestação desagradou o governo  - Dida Sampaio/Estadão
Participação de ministro em manifestação desagradou o governo Imagem: Dida Sampaio/Estadão
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

colunista do UOL e Luciana Amaral, do UOL, em Brasília

17/06/2020 01h30Atualizada em 17/06/2020 15h32

O Palácio do Planalto tem tido dificuldade em achar um nome viável para substituir Abraham Weintraub à frente do Ministério da Educação. Enquanto isso, senadores e deputados, em especial do centrão, permanecem em compasso de espera pela eventual saída do ministro.

A avaliação de integrantes do governo é que a situação do ministro se tornou insustentável porque nem o Congresso Nacional nem o STF (Supremo Tribunal Federal) respeitam mais ele.

Há ainda a tendência de Weintraub se complicar cada vez mais em inquéritos do Supremo, como o das fake news, após declaração em reunião ministerial de que colocaria "vagabundos" na cadeia, começando pelo tribunal. Ele é também investigado por suposta mensagem racista contra chineses.

No entanto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não quer ser pressionado na procura de um substituto e busca alguém alinhado às ideologias que defende, inclusive por influência dos filhos Eduardo e Carlos Bolsonaro. Weintraub é um dos defensores mais fervorosos do governo e, hoje, no Congresso, conta apenas com o apoio da direita mais radical.

Apesar disso, a participação do ministro na manifestação do último domingo, sem máscara, e repetindo as acusações ao STF, foi classificada pelo próprio presidente como não muito prudente.

Auxiliares militares, por exemplo, reconheceram que a situação "está muito mal e algo terá que ser feito". Do outro lado, a família e membros da chamada ala ideológica do governo afirmam que Weintraub é um aliado que não pode ser abandonado. Por isso, o Planalto busca algum espaço para que ele continue no governo.

Congresso em compasso de espera

Os parlamentares esperam por uma definição após vários "alarmes falsos", nas palavras de um deputado. Em um primeiro momento, a expectativa era de que a eventual demissão de Weintraub acontecesse até esta terça-feira (16), para que não houvesse constrangimentos de representantes de outros Poderes na posse do deputado Fábio Faria (PSD-RN) como ministro das Comunicações, pasta recriada. O evento está marcado para esta quarta (17).

Partidos do centrão já foram contemplados na área de educação com diretorias no FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), vinculado ao ministério. Hoje o fundo tem grande preponderância no orçamento da pasta e até na formulação de políticas públicas.

Dois presidentes de partidos proeminentes na Casa, um do centrão, afirmaram não acreditar que o eventual sucessor de Weintraub sairá do Congresso pelas conversas com o Planalto até agora.

Um deles afirmou que, mais do que o comando do MEC em si, uma demonstração de boa vontade do governo seria acelerar o pagamento de emendas, mesmo as obrigatórias, que às vezes dependem de uma ajuda política para serem liberadas.

O senador Esperidião Amin (PP-SC) afirmou que Bolsonaro deve estar consultando o "fichário" da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), em referência à origem militar do presidente, e verificando a "cola na mão esquerda" dele ao analisar nomes de possíveis ex-colegas.

Uma deputada de centro afirmou, reservadamente, que é "impossível" dialogar com Weintraub pelo fato de o ministro ser agressivo e dividir o mundo entre o bem e o mal.

Justamente por causa dessa guinada ideológica na pasta e perspectiva de que a orientação continue sendo essa mesmo com a saída de Weintraub é que muitos parlamentares estão pensando duas vezes se vale se envolver com o comando o MEC.

O DEM, partido ligado ao setor da educação nos últimos anos, por exemplo, não deve ser contemplado com o ministério, se Weintraub sair. "Ninguém quer essa bucha", afirmou um deputado da sigla.

Segundo apurou o UOL, a bancada do partido na Câmara não foi sondada para fazer indicações até o momento, e parte se opõe à possibilidade.

Um ponto visto como impeditivo para que o MEC seja entregue ao DEM é o fato de já terem ministros de Estado — Tereza Cristina (Agricultura) e Onyx Lorenzoni (Cidadania) —, embora sejam considerados como da cota "técnica" e "pessoal" de Bolsonaro, respectivamente.

Portanto, se o centrão pressionar, a propensão é que o ministério vá para partidos do grupo informal com bancadas grandes no Congresso, como PP, PL ou Republicanos.

Outro fator é o relacionamento ruim entre o Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Eles não se dão bem nos bastidores e mantêm somente um relacionamento institucional necessário.

Carla Araújo