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Carla Araújo


Carla Araújo

"Peguei mofo no pulmão": Bolsonaro continua a fazer piada com coronavírus

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante sua live semanal (30/07/2020) - Reprodução/YouTube
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante sua live semanal (30/07/2020) Imagem: Reprodução/YouTube
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

30/07/2020 21h11Atualizada em 30/07/2020 21h20

"Depois de 20 dias dentro de casa a gente pega outros problemas. Peguei mofo, mofo no pulmão", disse o presidente Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (30). A declaração, seguida de uma gargalhada, foi dada quase ao encerrar a sua tradicional transmissão ao vivo que acontece semanalmente.

Bolsonaro — que já chamou a covid-19 de gripezinha e comparou a doença a uma chuva — mostra que o coronavírus, que o atingiu por quase 20 dias e que já matou mais de 90 mil brasileiros, ainda é motivo de brincadeiras para ele. Sem graça.

A declaração, além de ser de mau gosto, reforça o discurso do presidente contra o confinamento, medida eficaz para combater a disseminação do vírus e, desde o início, criticada pelo presidente.

E a transparência?

A fala no fim da transmissão aconteceu quando o presidente confirmou que cumprirá agendas amanhã em Bagé, no Rio Grande do Sul. A região está em pleno inverno e o presidente reconheceu que vai se expor a temperaturas baixas.

"Amanhã, barra pesada, porque a temperatura lá em Bagé tá zero grau", disse Bolsonaro, que tossiu algumas vezes durante a live.

Segundo o presidente, ele ainda continua sendo medicado. "Estava com um pouco de fraqueza ontem, um pouco de infecção também. Estou agora no antibiótico", disse.

A declaração levanta dúvidas sobre o real estado de saúde do presidente, que declarou no último sábado que seu teste para coronavírus havia dado negativo.

Bolsonaro fez algumas vezes exames para verificar a presença da doença. Os primeiros foram alvos de disputa judicial para que ele apresentasse os resultados negativos. Na época, ele escolheu pseudônimos para realizar os testes.

No dia 7, convocou uma coletiva com poucos jornalistas no Alvorada para dizer que testou positivo. No período que esteve com a doença fez testes e exames, como eletrocardiogramas. Nenhum laudo ou boletim médico foi divulgado.

Presidente insiste em dispensar a máscara

A transmissão durou cerca de uma hora e teve a presença do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. Nenhum dos dois usou máscara, mesmo estando no Palácio da Alvorada, residência também da primeira-dama, Michele, que foi diagnosticada hoje com coronavírus.

E cabe uma última observação: o presidente nada falou também do estado de saúde de sua esposa.

Hoje, em agenda pelo Nordeste, em sua primeira agenda pública após ter tido a doença, o presidente chegou a tirar a máscara.

O uso do equipamento individual é uma das formas de proteger não apenas a si mesmo mas também ao próximo de uma eventual contaminação de um terceiro.

Garoto-propaganda da cloroquina, remédio sem eficácia cientificamente comprovada para combater a doença, o presidente poderia usar todo seu empenho também para informar seu real estado de saúde. Afinal, esse é o dever de qualquer homem público.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Carla Araújo