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Carla Araújo

Relação de Trump e Bolsonaro não favoreceu Brasil e rendeu vantagem aos EUA

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

07/11/2020 13h45

O presidente Jair Bolsonaro não escondeu sua preferência pelo presidente norte-americano Donald Trump na disputa com o democrata Joe Biden e, sempre que pode, gosta de exaltar uma suposta amizade com o presidente dos Estados Unidos.

Essa relação, porém, não se converteu em benefícios para o Brasil e, por outro lado, acabou rendendo mais vantagens aos EUA, de acordo com economistas ouvidos pela coluna.

"O Brasil aceitou a cota de etanol, aceitou a sobretaxa de produtos brasileiros como o aço, e, apesar de uma recessão dos dois lados por conta da pandemia, é fato de que a exportação brasileira para os Estados Unidos caiu muito mais", diz o professor Simão Davi Silber, da Faculdade de Economia e administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

Na avaliação do professor, o tratamento diferenciado da relação entre Trump e Bolsonaro se traduziu como "o pobre fazendo concessão para o rico". "Eu não chamaria isso de amizade e sim de subserviência", completou.

Para Rafael Cortez, cientista político e graduado em relações internacionais, a aproximação de Bolsonaro com Trump teve resultado apenas na estratégia do presidente brasileiro de sinalizar um posicionamento distante da esquerda. "Do ponto de vista econômico essa aproximação não se materializou, não avançou", afirma.

Cortez também cita o setor siderúrgico e de etanol como exemplo de relação que favoreceu apenas os norte-americanos. "Quando os EUA precisaram dar sinais domésticos esse suposto status de parceiro e essa relação de amizade não se concretizaram para o Brasil", diz.

Balança comercial

De acordo com os dados do Monitor de Comércio Brasil-Estados Unidos produzido pela Amcham (Câmara Americana de Comércio no Brasil), no acumulado do ano até setembro, as exportações brasileiras para os EUA caíram 31,5% em relação ao mesmo período do ano passado e somaram US$ 15,2 bilhões. É o menor valor, em termos relativos, desde 2010.

O relatório aponta três fatores principais para explicar a forte redução das trocas bilaterais: a combinação dos graves efeitos da crise econômica causada pela pandemia, a queda do preço internacional do petróleo e de restrições comerciais em setores específicos, como o siderúrgico.

Apesar das questões pontuais, o relatório ressalta que os EUA foram os mais afetados entre os 10 principais destinos das exportações brasileiras.

O déficit comercial com os EUA até setembro foi de US$ 3,1 bilhões e, segundo a Amcham, a tendência é que o Brasil registre o maior déficit dos últimos cinco ou seis anos.

Mesmo com números negativos, os EUA continuam sendo segundo principal parceiro comercial para o Brasil, com 12,3% do total de suas trocas com o mundo, atrás somente da China, que aumentou sua fatia para 28,8%.

Troca de comando

A vitória de Biden, na avaliação de especialistas, não tende a mudar muito o cenário das relações comerciais, já que o democrata também possui uma visão protecionista.

Em nota, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que a indústria brasileira "enxerga com tranquilidade o resultado das eleições presidenciais americanas" e que o segmento "tem bom histórico de relacionamento com candidatos tanto do Partido Republicano quanto do Partido Democrata".

"O setor privado tem grande expectativa para o início das negociações dos acordos de livre comércio e para evitar a dupla tributação. Também defende um diálogo para a remoção de barreiras ao comércio e aos investimentos entre os dois países", diz a nota.

Apesar da relativa estabilidade nas relações comerciais, a avaliação feita por especialistas é que o Brasil terá que fazer mudanças, principalmente, na visão atual da diplomacia e da agenda ambiental.

"Com a vitória de Biden, o governo brasileiro terá que virar de ponta cabeça, principalmente no quesito ambiental", avalia Silber.

Para o professor, Bolsonaro terá que mudar o titular do Ministério das Relações Exteriores (MRE), hoje sob o comando de Ernesto Araújo, ligado a ala ideológica do governo. Além de Ernesto Araújo, o atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também tende a perder força no governo, na avaliação de Silber.

"O presidente tem apreço pela ala ideológica, mas ele é apegado apenas a família e a 2022, ou seja, se perceber que mudanças serão fundamentais para as relações comerciais ele deverá fazê-las", diz.

Cortez corrobora e diz que a agenda ambiental é muito forte para o Biden e que a Amazônia passará a ganhar ainda mais espaço nas relações.

Bolsonaro já fez crítica a postura de Biden, mas auxiliares do presidente salientam que com a vitória do democrata o discurso brasileiro terá que ser amenizado.

Segundo auxiliares, Bolsonaro tinha sido orientado a não comentar as eleições norte-americanas antes do resultado, o que ele não cumpriu. Agora, avisam interlocutores do presidente, é preciso deixar as preferências de lado, agir como "gente grande" e pensar em uma agenda que interesse ao Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.