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Carla Araújo

Ligado à pasta de Guedes, Ipea contraria governo e defende distanciamento

Presidente Bolsonaro se encontra com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto apesar de recomendações de distanciamento social contra coronavírus - ADRIANO MACHADO
Presidente Bolsonaro se encontra com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto apesar de recomendações de distanciamento social contra coronavírus Imagem: ADRIANO MACHADO
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

25/01/2021 12h58

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) continua contrário ao fechamento das atividades e insiste na defesa da cloroquina para o tratamento da Covid, um estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão vinculado ao Ministério da Economia, defende que sejam adotadas com maior rigor medidas de distanciamento físico para tentar conter o avanço da doença e critica a divulgação de notícias falas.

Sem citar a cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra a doença, mas defendido por Bolsonaro, o estudo diz ainda que "a circulação de informações falsas acerca de supostos tratamentos para a Covid-19 - ou fármacos capazes de prevenir a doença - pode ter contribuído para percepções ilusórias de "segurança" em parte da população, reduzindo a probabilidade de adesão a normas de distanciamento".

A nota técnica do IPEA aponta que, em dezembro de 2020, o rigor das medidas de distanciamento físico foi menor em todas as Unidades da Federação (UFs) em comparação ao grau de rigor em abril de 2020, "ainda que várias partes do país houvessem entrado na segunda onda da pandemia".

"Desde o início de dezembro de 2020, medidas de distanciamento têm se mantido menos rigorosas do que as adotadas antes e durante a primeira onda da pandemia. Em consequência, níveis de isolamento social têm se mantido abaixo do observado em estágios anteriores da pandemia, ampliando o risco de que a segunda onda se manifeste de forma tão - ou mais - intensa do que a primeira", diz o documento, assinado pelo técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte) do Ipea, Rodrigo Fracalossi de Moraes.

O documento cita a situação de Manaus e afirma que o aumento de casos, internações e óbitos em Manaus a partir de dezembro de 2020 indica que a imunidade de rebanho não foi atingida e que o crescimento do número de casos, internações e óbitos pode ocorrer de maneira acelerada em apenas poucos dias.

Recomendações

Como é papel do IPEA dar suporte técnico e institucional às ações governamentais, o documento faz algumas recomendações para evitar uma rápida disseminação do vírus.

Segundo o estudo, em locais com crescimento persistente do número de casos/óbitos, internações e percentual de leitos ocupados os governos devem considerar "urgentemente a imposição de medidas mais rígidas - sob pena de não conseguirem atender a população que necessite de atendimento médico".

Além disso, o estudo recomenda que os Estados que não possuem planos robustos de flexibilização do distanciamento - com parâmetros claros, objetivos, transparentes e abrangentes - deveriam adotá-los urgentemente.

Campanha de incentivo

Uma das recomendações, no entanto, dificilmente será seguida pelo presidente Bolsonaro. De acordo com o estudo, seria importante a criação de campanhas que estimulassem a adesão da população às normas de distanciamento físico.

Desde o início da pandemia, o presidente, no entanto, tem evitado uso de máscara e provocado aglomerações, justamente o contrário do que as autoridades de saúde recomendam.

Segundo o estudo, há uma extensa literatura na área de psicologia da saúde que mostram que as pessoas têm maior probabilidade de responderem positivamente a alertas de saúde pública quando elas acreditam que estão individualmente suscetíveis a desenvolverem a doença.

Também aumentam as chances de adesão quando as pessoas "consideram que a condição de saúde é grave; consideram que as ações preventivas recomendadas são eficazes; acreditam que são capazes de realizar as ações preventivas", afirma.

O pesquisador alerta, no entanto, que "bombardear" pessoas com informações pode criar confusão e provocar ansiedade em excesso, disparando respostas cognitivas que podem levá-las a evitar informações negativas e minimizar a ameaça. "Daí a importância de que haja coordenação nas mensagens a serem transmitidas à população", afirma.

Fim do auxílio emergencial

O estudo destaca ainda que a importância de campanhas de conscientização da população deve crescer em função do fim do auxílio emergencial. "Com o fim do auxílio, parte da população precisará gerar renda, criando maior dificuldade para governos suspenderem atividades econômicas e aumentando a importância da adesão voluntária às medidas por aqueles que possuem melhores condições de fazê-la", diz.

Apesar da crescente pressão pelo retorno do auxílio emergencial, a equipe econômica ainda tenta ainda usar um cardápio de medidas de menor impacto fiscal.

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