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Carla Araújo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro apela para a fé, mas Deus não resolverá inflação e desemprego

Presidente Jair Bolsonaro e ministro da Economia, Paulo Guedes, durante evento no Palácio do Planalto - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro e ministro da Economia, Paulo Guedes, durante evento no Palácio do Planalto Imagem: ADRIANO MACHADO
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

19/08/2021 18h16

O presidente Jair Bolsonaro foi autor de frases extremamente infelizes e até desrespeitosas durante toda a pandemia do coronavírus. "Eu não sou coveiro"; "é só uma gripezinha"; o Brasil tem que "deixar de ser um país de maricas", só para ficar em alguns exemplos.

Agora, enquanto faz viagens pelo país para tentar estancar a perda de popularidade, o presidente resolveu apelar para a religiosidade e para a fé das pessoas como possível solução para os problemas na economia.

"Tem inflação, tem desemprego. Tem dias, realmente, angustiantes. O que posso dizer aos senhores? Com fé, com vontade, com crença, nós podemos superar esses obstáculos", afirmou o presidente durante uma agenda com evangélicos na última quarta-feira (18), no Pará.

Com todo respeito à religiosidade e à fé das pessoas, que é um valor extremamente pessoal, Bolsonaro deveria apresentar soluções, mostrar o que de fato tem feito para combater a alta da inflação, que atinge itens básicos da vida dos brasileiros, como o arroz e o feijão. Isso sem falar no gás de cozinha, que tem feito muitos brasileiros usarem lenha para cozinhar.

O presidente aposta que somente com promessas vazias vai convencer o povo que "Deus acima de tudo" resolverá o desemprego e a inflação. Que somente na base da crença alguma divindade vai tirar do papel, por exemplo, o novo Bolsa Família.

Bolsonaro já disse também que apesar de ser "Messias" ele não faz milagres.

Talvez se o presidente deixasse de lado suas batalhas inócuas como a teoria da conspiração de fraude do voto eletrônico, que ele não consegue apresentar provas, ou ainda usasse a energia que tem gastado para brigar com o Judiciário em prol do país, o brasileiro pudesse ter algum alento maior do que rezar.

Bolsonaro disse ainda que muitos dos problemas que o país está enfrentando "não estavam previstos", como a pandemia e seus reflexos, mas o governo conseguiu criar o auxílio emergencial e algumas outras medidas para mitigar os impactos da pandemia. Agora, não só a economia como outras políticas importantes de bem-estar social e educação estão praticamente paralisadas enquanto os brasileiros assistem aos arroubos retóricos de Bolsonaro.

A nova derrota iminente do governo deve ser a reforma do Imposto de Renda, que prevê a correção da tabela com a isenção para quem ganha até R$ 2.500. O texto sofreu uma série de remendos no Congresso e agora tem altas chances de ser enterrado.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, que não fica muito atrás do presidente na coleção de frases infelizes, poderia ao menos dizer ao presidente que a situação vai mal e que a tendência é piorar. Que a hora é de falar menos e trabalhar mais.

As eleições estão ai e governos anteriores sabem que o bolso é mais sensível aos eleitores do que qualquer discurso inflado ou apaixonado.

Como diz o ditado popular "amor não enche barriga" e Deus também não paga contas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL