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Carla Araújo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Combustíveis fósseis produzirão 48% das novas energias no Brasil até 2026

Projeto leva energia solar para garantir serviços de saúde a aldeias indígenas do Amapá - Rafael Kotchetkoff Carneiro
Projeto leva energia solar para garantir serviços de saúde a aldeias indígenas do Amapá Imagem: Rafael Kotchetkoff Carneiro
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

24/09/2021 04h00

Enquanto o Brasil vive uma de suas mais graves crises hídricas, o governo do Jair Bolsonaro segue apostando no uso das usinas termelétricas para o suprimento de energia no país. Essas usinas, além de produzir uma energia mais cara, são mais poluentes, pois são abastecidas por combustíveis fósseis, com o carvão e gás natural.

A potência total das usinas termelétricas contratadas pelo governo de Bolsonaro por meio de leilões nos últimos anos, e que já contam com alguma previsão de data para entrada em operação, supera tudo aquilo que entrará no sistema ao longo dos próximos cinco anos por meio de energia solar e eólica (também contratadas via leilões de energia).

As tabelas do governo indicam que volume de energia termelétrica previsto até maio de 2026 representa 47,7% de tudo o que será gerado pelas demais usinas em implantação, de todas as demais fontes.

Segundo dados da primeira semana de setembro, do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, empreendimentos termelétricos que saíram vencedores de leilões de energia nova realizados nos últimos anos terão o potencial de injetar no Sistema Interligado Nacional um total de 5.847 MW.

Nessa conta não entra, por exemplo, a usina nuclear de Angra III, também categorizada como térmica, com potência de 1.405 MW, mas que ainda não tem previsão de data para iniciar sua operação.

A energia gerada pelas térmicas supera a soma do que está previsto para entrar em operação por meio de usinas solares (1.635 MW) e eólicas (3.976 MW). No caso das hidrelétricas (inclusive as PCHs, pequenas centrais hidrelétricas), a previsão de geração nova ao longo dos próximos anos é de 791 MW.

Essa tendência amplamente dominada por termelétricas indica que o Brasil ainda irá demorar para de fato diversificar sua matriz energética, com priorização de soluções que não dependam da queima de combustíveis fósseis, como é o caso do Diesel e do gás natural, outros principais elementos nas caldeiras das usinas termelétricas - além do custo elevado associado ao acionamento dessas usinas, que se reflete nas tarifas cobradas na conta de luz.

A coluna procurou o Ministério de Minas e Energia para comentar as projeções, mas não obteve retorno.

Na contramão

As decisões de políticas energéticas do governo brasileiro estão na contramão da tendência internacional.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tem feito discursos e promessas de investimento em energia limpa. No último dia 8, o governo dos Estados Unidos divulgou um plano para que a energia solar seja responsável por garantir 40% do fornecimento elétrico do país até 2035. A meta é que até 2050 a energia solar chegue a 45%. Atualmente, nos EUA apenas 4% vêm de fonte solar.

Pauta no Congresso

A Câmara aprovou em agosto um projeto de lei que cria um marco regulatório para a mini e microgeração distribuída, no que seria um estímulo para a adoção da energia solar de forma descentralizada.

O projeto, no entanto, ainda está no Senado e chegou a ter oposição de determinados segmentos do setor elétrico, como grandes distribuidoras de energia e as geradoras termoelétricas, mas houve um acordo para alteração do texto e aprovação do PL. Nesta semana, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), designou o senador Marcos Rogério (DEM-RO) para ser relator do projeto.

O presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), Ronaldo Koloszuk, diz que a atual crise hídrica reforça o papel estratégico da energia solar como parte da solução para diversificar e fortalecer o suprimento de eletricidade no País.

Segundo Koloszuk, é mais barato para o governo incentivar a energia solar, seja das grandes usinas contratadas em leilão ou pela geração própria em telhados e pequenos terrenos, do que pedir para a população economizar energia. "As usinas solares de grande porte geram eletricidade a preços até dez vezes menores do que as termelétricas fósseis emergenciais ou a energia elétrica importada de países vizinhos atualmente, duas das principais responsáveis pelo aumento tarifário sobre os consumidores", aponta.

Koloszuk afirma ainda que por conta da agilidade da tecnologia solar, "basta um dia de instalação para transformar uma residência ou empresa em uma pequena usina geradora de eletricidade limpa, renovável e acessível. Já para uma usina solar de grande porte, são menos de 18 meses desde o leilão até o início da geração de energia elétrica. Assim, a solar é reconhecidamente campeã na rapidez de novas usinas de geração", afirma.

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Errata: o texto foi atualizado
O texto anterior destacava no título que o carvão é a principal fonte de energia, mas as termelétricas usam também outras fontes fósseis para seu funcionamento, como o gás natural e o diesel. O erro havia sido destacado na homepage do UOL. O título foi corrigido.