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Carla Araújo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Show de improviso e populismo de Bolsonaro pressionam ainda mais Guedes

21.out.21 - Jair Bolsonaro - Reprodução
21.out.21 - Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

21/10/2021 17h07Atualizada em 21/10/2021 20h04

O presidente Jair Bolsonaro dobrou a aposta e fez com que o ministro da Economia, Paulo Guedes, perdesse de uma só vez quatro secretários responsáveis pela área do Tesouro. São os técnicos que cuidam do cofre do governo.

O show de improviso do presidente em fazer anúncios sem respaldo da área econômica acontece em um dos momentos de maior fragilidade de Guedes, que, além de ter que continuar a explicar a existência de investimentos no exterior, já mostra ceder na flexibilização do teto e agora terá que recuperar forças para - nas palavras de uma fonte próxima - dar limites a rompantes populistas do presidente.

Durante o fim de semana alguns boatos circularam colocando em dúvida a continuidade do ministro no cargo, mas fontes da Economia e do Planalto negaram que Guedes deixaria o posto. Agora, a dúvida volta a pairar, com um ministro cada vez mais isolado.

Falas de candidato

No palanque em Sertânia, em Pernambuco, nesta quinta-feira (21), Bolsonaro não escondeu que sua maior preocupação agora é com a corrida eleitoral de 2022 ao fazer a promessa, sem explicar como, de ajudar 750 mil caminhoneiros para compensar o aumento do Diesel.

Na segunda-feira (18), também em palanque, desta vez em Minas Gerais, Bolsonaro falou que definiria ainda nesta semana a continuação do auxílio emergencial e avisou que iria oferecer um benefício mínimo de R$ 400.

O presidente foi além: mandou preparar um evento na terça-feira (19) para celebrar o Auxílio Brasil sem o desenho do programa estar fechado economicamente. Acabou tendo que recuar diante da reação do mercado e da ameaça de debandada na equipe de Guedes. Que acabou se concretizando.

Hoje, o mercado já vinha reagindo mal à fala do ministro da Economia, que pediu "licença" para gastar e sinalizou que o teto de gastos, que ele tanto defendia, deve sim ser quebrado, ou, no mínimo, driblado.

Piorou ainda mais quando saiu a informação de um acordo do governo com o relator da PEC dos Precatórios, deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB), que incluiu em seu novo parecer um espaço fiscal próximo de R$ 83 bilhões para o governo gastar a mais em 2022.

Mas o presidente parece não se importar com a reação ruim do mercado, nem com o desgaste na credibilidade de Guedes e foi além mais uma vez ao fazer a promessa para os caminhoneiros, que ameaçam greve, mas também avisam que podem deixar de apoiar o presidente no ano que vem.

Oficialmente, o Ministério da Economia ainda não explicou como será esse programa para os caminhoneiros. Fontes da pasta, aliás, também foram pegas de surpresa com o anúncio súbito do presidente de mais uma conta para o governo pagar. Já o Ministério da Infraestrutura afirmou, via assessoria, que o assunto "não tem relação com as atribuições do Ministério" e sugeriu que os ministérios da Economia e de Minas e Energia fossem procurados.

O centrão e a política

As recentes ações de Bolsonaro estão sendo apoiadas (ou impulsionadas) pelos seus ministros palacianos mais fortes do momento: Ciro Nogueira (PP-PI), chefe da Casa Civil, e Flávia Arruda (PP-PI), que comanda a articulação do governo com o Congresso.

Ao lado do ministro da Cidadania, João Roma (Republicanos-BA), que também precisará de votos em 2022, os dois formaram o grupo que derrotou Guedes nas negociações do Auxílio Brasil e que está prestes a conseguir derrubar o teto de gastos e abrir a porta dos cofres públicos.

"É a solução Roma", disse a ministra da Secretaria de Governo na última terça-feira ao ser questionada pela coluna se o governo havia encontrado uma solução para a contabilidade criativa do Auxílio Brasil.

O grupo é de certa forma comandado por Ciro Nogueira, político experiente e que já foi apoiador do ex-presidente Lula, possivelmente o maior rival de Bolsonaro em 2022. São eles que têm incentivado "o chefe" a ser mais popular.

Ao lado do "fura-teto"

Pelo visto, Bolsonaro tem seguido o conselho e não está preocupado nem com mercado e nem com o seu Posto-Ipiranga da economia. Uma das fotos da viagem de Bolsonaro hoje pelo Nordeste é justamente ao lado do ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), desafeto de Guedes e que já foi chamado pelo ministro da economia de "fura-teto".

Marinho está em um tour de viagens pelo país batizado de 'Jornada das Águas'. São dez dias percorrendo os nove estados do Nordeste com anúncios e entregas de obras.

Ontem, tentando explicar a gambiarra que o governo quer fazer para pagar os R$ 400 do Bolsa Família, o ministro João Roma disse que não se tratava de uma medida eleitoreira. O que nesta altura do campeonato é impossível de concordar. Bolsonaro só tem um objetivo atualmente: recuperar a popularidade. Ele só pensa na eleição.

Registros do passado

A ironia do destino é Bolsonaro usar justamente o programa Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil, para angariar popularidade.

No passado, ainda quando deputado, Bolsonaro sempre se mostrou contra o programa e falava em compra de votos.

Já presidente, em agosto de 2019, ele comparou o Bolsa Família a uma espécie de "condução coercitiva" do PT para as pessoas mais pobres.

"Eu lembro que, num debate de 2014, uma candidata bateu no peito e disse que 'em nosso governo 50 milhões de pessoas vivem do Bolsa-Família'. Obviamente, muita gente humilde necessitava até disso daí. Mas, outra parte, não. Porque não era também estimulada a sair desse tipo de condução coercitiva, vamos por assim dizer", afirmou.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL