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O que pensam os iranianos sobre a crescente tensão entre o país e os EUA

22.jun.2019 - Pintura no muro da antiga embaixada dos EUA em Teerã, capital do Irã, mostra o aiatolá Khomeini e a bandeira iraniana - Atta Kenare/AFP
22.jun.2019 - Pintura no muro da antiga embaixada dos EUA em Teerã, capital do Irã, mostra o aiatolá Khomeini e a bandeira iraniana
Imagem: Atta Kenare/AFP

Redação - BBC News Mundo

16/07/2019 16h58

Em um momento em que crescem as tensões entre o Irã e os Estados Unidos, a BBC obteve uma permissão excepcional para entrar no país asiático e conversar com os cidadãos sobre o tema.

Muitos iranianos não concordam com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar o país americano do acordo nuclear com o Irã e impor fortes sanções contra Teerã.

Durante a visita ao país, houve controle das autoridades em relação às entrevistas - como acontece com todos os meios de comunicação estrangeiros, cujas equipes são acompanhadas por representantes do governo em todos os momentos.

Este é o relato do correspondente da BBC Martin Patience sobre sua visita a Teerã e à cidade sagrada de Qom:

Mesmo nos meses quentes de verão, ainda é possível ver neve nos altos picos das montanhas de Alborz, que são um cenário espetacular para a capital iraniana.

Dos subúrbios mais ricos, é possível ver as encostas das montanhas, que oferecem um alívio do calor e da poluição que afetam a cidade de quase 9 milhões de habitantes.

Durante os finais de semana, muitos iranianos - jovens e velhos - percorrem as trilhas dessas montanhas com suas mochilas e bengalas, deixando para trás a cidade.

Mas mesmo nessa área não é possível se esquecer das sanções dos Estados Unidos.

"Quem não está sofrendo?", pergunta um homem, retoricamente. Ele me mostra seu gancho de montanhismo, que está pendurado no cinto: hoje custa quatro vezes mais do que um ano atrás.

Donald Trump impôs sanções contra o Irã no ano passado, depois de retirar os Estados Unidos do acordo assinado em 2015 pelo Irã e outras seis potências mundiais.

O presidente dos Estados Unidos considera que esse acordo era generoso demais com o Irã e que deu ao país carta branca para desenvolver mísseis balísticos e se intrometer no Oriente Médio.

Trump quer aplicar "pressão máxima" para forçar Teerã a retornar à mesa de negociações. Muitos temem que isso possa gerar um conflito armado.

O Irã se sente traído pelos Estados Unidos e abandonado pelos países europeus que ainda apoiam o acordo: Reino Unido, França e Alemanha.

A decisão dos EUA fortaleceu os iranianos linha-dura que defendem que o Irã nunca deveria confiar em Washington.

Essa desconfiança em relação aos EUA (e ao Reino Unido) não é nova no Irã.

Os dois países coordenaram um golpe que derrubou o primeiro-ministro iraniano democraticamente eleito em 1953.

"Nós, iranianos, temos uma história muito longa e sempre enfrentamos adversidades", diz Hadi, que trabalha em um dos pequenos cafés que oferecem bebidas às pessoas que caminham nas montanhas.

Seu café está construído em partes, com uma tenda como um telhado, mas ele me convida para um chá com frutas.

Hadi menciona que os americanos achavam que as sanções provocariam transtorno, e que o governo iraniano não teria escolha e teria que ceder.

No entanto, ele garante que as sanções tiveram efeito oposto: uniu liberais e conservadores em todo o país.

"Aqui temos união nacional e, quanto mais difícil a situação, mais as pessoas se unirão."

Longe das montanhas, na neblina dos subúrbios do sul de Teerã, é onde as sanções são mais sentidas com mais intensidade.

É um labirinto de ruas estreitas e casas empilhadas umas sobre as outras. É onde a classe trabalhadora mora.

Eles já estavam lutando para sobreviver, mas as sanções do ano passado levaram muitos ao limite.

Muitos preços de alimentos mais que dobraram e, com a economia em crise, muitos têm dificuldade para encontrar trabalho e subsistir.

"Não sei o que Donald Trump ganha nos machucando", diz Zohreh Farzaneh, uma mãe de três filhos que dobra roupas para ganhar a vida. Ela recebe cerca de US$ 2 (ou cerca de R$ 7,50) por dia de trabalho.

Ela diz que as sanções colocaram sua família na pobreza e que ela não pode mais comprar carne ou um inalador para a asma.

Ela deixa seu filho de 11 anos em uma instituição de caridade para que ele tenha pelo menos uma boa refeição por dia. A humilhação que ela sente por ter que pedir ajuda dói.

"Agradecemos a Deus por termos um pedaço de pão ou queijo para comer", ela me disse. "Pelo menos temos paz no Irã, não há guerra."

Todos os iranianos com quem falei nesta viagem de dez dias achavam improvável que houvesse uma guerra com os Estados Unidos, apesar da escalada das tensões depois que Washington culpou Teerã por atacar petroleiros no Golfo de Omã e derrubar um drone de vigilância dos EUA sobre o Estreito de Ormuz.

O ex-vice-ministro das Relações Exteriores do Irã Hossein Sheikholislam acredita que a guerra não seria oportuna para nenhum dos dois países.

"Não vai haver guerra. É claro que é possível que alguém cometa um erro, mas não queremos uma guerra", disse ele.

"E eu acho que o presidente Trump entende que uma guerra não o favorece, porque uma guerra contra nós significa soldados dos EUA mortos, e ele não está disposto a ter um funeral em Washington", disse Sheikholislam.

De volta à montanha, continuo subindo mais alto, passando por uma corrente de água cristalina.

Conheci uma jovem, Nasim, que estava caminhando com um grupo de amigos.

Perguntei a opinião dela sobre o presidente Trump. Ela riu. E levantou as mãos, com as palmas para cima, em um gesto de não saber o que dizer.

Mas, em seguida, fiquei surpreso com o que ela disse.

"Talvez fosse melhor para nós se houvesse uma guerra."

Eu perguntei: "Por que alguém iria querer uma guerra?"

"Na verdade, poderia levar a uma mudança em nosso sistema de liderança. Poderia levar a uma situação melhor. Mas se chegássemos a ter uma guerra civil, não, não seria bom", respondeu.

Em 2009, pessoas como Nasim foram às ruas para protestar depois da disputada reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Foi a chamada "Revolução Verde" - cor utilizada na campanha de um dos candidatos da oposição à Presidência, Mir Hossein Mousavi, que foi derrotado e está em prisão domiciliar desde então.

As autoridades reprimiram de forma dura os protestos em massa e insistem que não há um movimento forte de oposição no Irã.

Mas este é um país de muitas opiniões políticas.

Há conservadores religiosos linha-dura, assim como liberais, e provavelmente a maioria dos iranianos que querem evitar essas controvérsias. Essas são as divisões que o presidente Trump acredita que pode explorar.

Não se deixe enganar, são os radicais linha-dura que dirigem este país.

Mas quando o Irã enfrenta os Estados Unidos, a maioria dos iranianos, conservadores ou liberais, parece colocar seu país em primeiro lugar.

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