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Tarifas de Trump são a "última coisa de que precisávamos"

Frederic Tomesco

05/03/2018 11h50

(Bloomberg) -- As tarifas dos EUA sobre importações de aço e alumínio formam um "coquetel de incertezas" que ameaça frear os investimentos das empresas, estimular a inflação e atrapalhar o crescimento global, de acordo com o responsável pelo segundo maior fundo de pensão do Canadá.

"Desde a crise, os investimentos corporativos foram um dos pontos fracos" da expansão da economia global, disse Michael Sabia, presidente da Caisse de Depot et Placement du Quebec. Sediada em Montreal, a Caisse tem 298 bilhões de dólares canadenses (US$ 230 bilhões) em ativos e administra o plano de aposentadoria da província de Quebec e planos de seguro.

No mundo todo, as companhias "têm sido muito cautelosas - mantendo muito dinheiro parado e preocupadas com o retorno que vão obter se fizerem investimentos", relatou Sabia. "Nos últimos oito a 12 meses, isso pareceu melhorar e as empresas começaram a investir. Por isso, a última coisa de que precisávamos é de circunstâncias que as levem a colocar o pé no freio de novo."

Na última quinta-feira, o presidente americano, Donald Trump, anunciou que pretende impor tarifas de 25 por cento sobre as importações de aço e 10 por cento sobre as importações de alumínio por "um longo período". A expectativa é que a ordem formal seja assinada na semana que vem.

A postura agressiva de Trump alimentou temores de retaliação comercial e abalou os mercados globais. O dólar se desvalorizou pelo segundo pregão seguido em relação a uma cesta de moedas e as bolsas de valores caíram nos EUA, Ásia e Europa. O dólar canadense recuou e caminha para registrar a maior perda semanal em um ano.

Reação da China

A reação da China será crucial para determinar se haverá mesmo uma grande guerra comercial, na visão de Sabia.

"Os chineses têm sido muito moderados em suas reações a tudo", disse ele. "Se reagirem fortemente e os europeus seguirem seus passos, está armado o palco para um conflito comercial que, francamente, não é do interesse de ninguém."

Uma guerra comercial constituiria um "vento contrário ao crescimento econômico global e particularmente contrário à confiança das empresas, afetando os investimentos corporativos", afirmou Sabia. "Essas questões precisam ser acompanhadas com muito cuidado e podem ter impacto significativo."

As tarifas sobre aço e alumínio sem dúvida causarão inflação, o que pode levar o banco central dos EUA (Federal Reserve) a acelerar os acréscimos planejados na taxa básica de juros, acrescentou Sabia.

Pressão inflacionária

"Aço e alumínio são insumos importantes", explicou ele. "Quanto mais um mercado se fecha, particularmente de produtos como aço e alumínio, isso eventualmente é repassado para os preços. Juntando tudo isso, talvez comece a haver mais pressão inflacionária nos EUA. E como o Fed reage? Isso vira um enorme ponto de interrogação."

Pelo menos por ora, Sabia acredita que o Fed evitará "uma trajetória mais agressiva" nos juros. Ele ressaltou comentários recentes de representantes do Fed sugerindo que "três ou quatro elevações de 0,25 ponto percentual" na taxa básica são possíveis neste ano.

O tombo das bolsas globais desde o anúncio das tarifas "só demonstra até que ponto o mercado é sensível aos juros", disse Sabia. "É um terreno difícil. Requer muita vigilância de nossa parte."

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