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Um império bilionário do varejo no Brás

Fernando Scheller

São Paulo

  • Divulgação

    Fachada do shopping Vautier Premium, na região central de São Paulo

    Fachada do shopping Vautier Premium, na região central de São Paulo

Passa das 4h30 da madrugada, mas é horário de pico nos shoppings da região do Brás, centro de São Paulo. O shopping Vautier Premium é um dos mais movimentados. Com iluminação e corredores escolhidos por um dos principais especialistas em varejo do país, faz parte de um movimento de empresários do centro --de origem árabe e judaica-- para concorrer com os camelôs que sempre dominaram as ruas durante a noite.

Esse grupo, liderado pelo Mega Polo Moda, já inclui seis famílias que tradicionalmente investem na região. Segundo fonte próxima aos empresários, o patrimônio imobiliário é estimado em R$ 1,6 bilhão.

Ao todo são 11 shoppings funcionando em ruas do Brás e do Pari, em um percurso que pode ser facilmente feito a pé. Entre lojistas e donos de pequenos boxes, são mais de 5.000 empreendedores. Só no Shopping Vautier, erguido no prédio da antiga fábrica da empresa de biscoitos Tostines, são 1.500 pequenos varejistas.

Foi um império construído aos poucos. O primeiro passo foi dado há 12 anos, pela família libanesa proprietária da distribuidora de produtos de bebê Brascol.

Os libaneses se uniram à família judia que tinha um centro comercial vizinho, dando origem aos shoppings Mega Polo Moda 1 e 2, que serviram de embriões para um movimento que tomou conta das ruas adjacentes.

Tradicionais empresários do centro foram aos poucos se juntando ao grupo --incluindo a família Kherlakian, que abriu uma filial da Galeria Pagé na região há cerca de um ano. Para construir o portfólio, os empresários adquiriram terrenos que aos poucos foram ficando vagos, como escolas sem alunos e concessionárias de veículos sem giro suficiente para sustentar o ponto.

Todos os shopping centers foram pensados para atender o principal público-alvo: lojistas de outros estados que vêm a São Paulo para abastecer seus estoques.

Shopping e hotel

O conceito dos empreendimentos foi desenvolvido pelo arquiteto Júlio Takano, consultor que já trabalhou para grupos como C&A, Tramontina e Riachuelo.

Foi com a ajuda de Takano que os shoppings se distanciaram do estilo caótico que marca a imagem do comércio da região. Hoje, todos os empreendimentos têm ar condicionado e são mais bem iluminados.

Alguns deles têm hotéis anexos, para que os clientes não precisem se deslocar para descansar; o Mega Polo Moda abriga uma torre de escritórios para empresários de fora que queiram montar centros de compras no Brás; e os empreendimentos têm estacionamento para ônibus e oferecem "mimos" para motoristas e guias.

Após passar anos ganhando musculatura silenciosamente, o grupo está pronto para dar um passo definitivo rumo à profissionalização. Segundo o diretor comercial do Mega Polo Moda, Adelino Basílio, o objetivo agora é criar uma holding para investimentos em São Paulo e também em outros estados do país.

É um movimento que os empresários estão fazendo para organizar a gestão e, quem sabe, atrair um fundo de investimento no futuro.

A reorganização interna não quer dizer que os empresários do Brás pretendam tirar o pé do acelerador. Em agosto, o Mega Polo Moda vai ganhar uma unidade em Goiânia, com mais de 200 pontos de venda.

Depois de dar os primeiros passos fora do ramo das confecções ao se associarem à Galeria Pagé, tradicional vendedora de eletrônicos, a holding em formação está de olho em um novo segmento: o de beleza. O terreno para um shopping que venderá esse tipo de produto já foi comprado. A meta é inaugurar o empreendimento já no ano que vem.

Informalidade

À medida que crescem, os shoppings do Brás querem distanciar seus empreendimentos da informalidade que predomina nas ruas de comércio popular do centro de São Paulo --na região, há muitos shoppings "abre-e-fecha", que são alvos constantes de batidas da Receita Federal.

Para evitar esse tipo de problema, o grupo exige que todos os donos de lojas e boxes tenham empresa aberta ou, no mínimo, registro de microempreendedor individual.

A pirataria também está proibida --quem anda pelo Brás durante a madrugada vê muitas versões falsificadas de roupas de marcas como Oakley e Lacoste nos camelôs, mas o mesmo não acontece dentro dos shoppings.

O consumidor deve ter em mente que a aquisição de um produto ilegal ajuda no financiamento ao crime organizado e tira dinheiro da economia formal, afirma Edson Vismona, presidente do Instituto Etco e do FNCP (Fórum Nacional de Combate à Pirataria).

A compra de imitações de grandes marcas, entretanto, ainda é uma prática comum para pelo menos 60% dos brasileiros, diz Vismona. "Se o empreendedor cria uma marca própria, é isso que a gente quer ver. Isso se sustenta no longo prazo."

Para as famílias que são sócias dos 11 shoppings do Brás, o produto pirata pode ser um risco para um modelo de negócio que já começa a ganhar fama internacional, segundo o arquiteto Julio Takano, que também é conselheiro do grupo.

"Apresentei o projeto em uma conferência internacional e fomos convidados pela prefeita de Guadalajara, no México, a desenvolver um projeto semelhante por lá." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Como é difícil encontrar um produto "Made In Brazil" no comércio local

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