Reformar para sobreviver

O país não sobreviverá sem reformas da Previdência, política e fiscal, diz vice-presidente da Microsoft-AL

Do UOL, em São Paulo
Keiny Andrade/UOL e Arte/UOL
Keiny Andrade/UOL Keiny Andrade/UOL

Tecnologia na ponta

O Brasil precisa evoluir para ser competitivo, e isso inclui fazer as reformas da Previdência, política e fiscal. A opinião é da vice-presidente de Vendas, Marketing e Operações da Microsoft América Latina, Paula Bellizia, em entrevista exclusiva na série UOL Líderes. Ela foi presidente da Microsoft Brasil até esta semana e acabou de ser promovida a VP da América Latina.

A executiva falou sobre o futuro do país e destacou que a tecnologia, se bem usada, pode ajudar a combater males com o câncer, colaborar com a educação e promover integração cultural. Admite que muitos empregos serão perdidos ou transformados pela tecnologia, mas outros virão.

País precisa evoluir para competir

UOL - O que esperar do Brasil? 

Paula Bellizia - Espero um Brasil melhor, que a democracia continue sendo respeitada e melhorada. Espero que possamos evoluir na questão das reformas que são tão importantes para o médio prazo do Brasil.

O país não sobreviverá sem a reforma da Previdência, sem a reforma política, fiscal. Que tenhamos um ambiente mais transparente para fazer negócios, que evolua nesse sentido.

E espero que seja um governo em que haja oportunidades para as pessoas. O Brasil tem questões importantes de competitividade. Quando você olha o ranking dos países em termos de competitividade e produtividade, deixamos de evoluir há alguns anos.

Os países ao nosso redor estão evoluindo na agenda de transformação digital. Como é que fica o nosso posicionamento num cenário em que não haverá esse desenvolvimento? Espero que não seja esse o caso. Que realmente tenhamos uma agenda de transformação que nos leve à competitividade, à geração de emprego. 

Educação é muito importante, não há como chegar à competitividade, à democracia, sem oferecer o melhor da educação, preparada para o século 21, não preparada para o século 19.

A senhora nasceu em Angola. Tem alguma lembrança do período conturbado de lá? E como vê a democracia brasileira?

Nasci em Angola, sou fruto de uma família refugiada no Brasil, que foi muito bem recebida. O Brasil é um país incrível do ponto de vista da receptividade das famílias que chegaram aqui. Vivemos um momento em que a questão dos refugiados é muito latente, cada vez mais uma questão humanitária.

Acho que é uma felicidade ter tido a oportunidade. Eu me considero brasileira, tenho filhos brasileiros, meu coração é brasileiro.

Gosto de pensar que, no médio prazo, estamos numa direção correta. A democracia brasileira tem sido testada, as instituições brasileiras têm sido testadas e elas têm funcionado. Eu sou uma otimista.

Estive com a ex-ministra Eliana Calmon (STJ), de quem eu aprendi uma frase maravilhosa: "O oceano se move com o movimento das marés". Então, existem movimentos de alta e descida da maré. Mas o importante é que estamos num movimento de longo prazo correto. É assim que eu avalio a democracia brasileira. 

Acho que a gente tem instituições fortes. Vamos construir uma democracia forte com a participação popular. Estamos vendo as pessoas cada vez mais participando e discutindo. Isso não é ruim, isso é bom.

Como tratar a questão ética no mundo da inteligência artificial?

Certamente nós já estamos convivendo com cenários de inteligência artificial que não nos damos conta. Existem alguns modelos de atendimento que você não sabe se está sendo atendido por um humano ou por um chatbot (robô).

A questão da ética tem a ver com transparência. O consumidor terá sempre o direito de saber por que método ele está sendo atendido. O consumidor vai demandar essa transparência, então é importante que as empresas, dentro do seu próprio direcionamento estratégico, estejam prontas para fazer esse compartilhamento de informações com seus clientes.

Tenho que ter o direito de saber, e é isso que diz a Lei Geral de Proteção de Dados do Brasil e da Europa.

Tenho o direito de saber onde os meus dados são usados, onde estão armazenados, para que fins estão ali. Tenho o direito de pedir para que sejam apagados. 

Pessoalmente acho que a sociedade vai precisar discutir isso mais e mais. Nem sempre uma regulamentação mais dura vai garantir chegar onde se quer. Vai ter de haver uma flexibilidade que não impeça também o desenvolvimento da tecnologia. 

Qual é o meio-termo? Não sabemos, ainda vamos descobrir, mas acho que o Brasil tem tido discussões importantes: o marco civil da internet, a Lei Geral de Proteção de Dados.

País precisa se renovar

Depende de nós usar a tecnologia para o bem

UOL - A senhora diz que a tecnologia precisa ajudar a humanidade. Como a Microsoft desenvolve isso?

Paula Bellizia - Quando falo em tecnologia para ajudar os desafios da humanidade, falo em colocar todo o poder computacional que hoje a Microsoft tem, com data centers espalhados no mundo inteiro [mais de cem, inclusive no Brasil), para ajudar a resolver desafios como o câncer. 

Hoje temos inteligência artificial. Isso é muito importante. Queremos ser a empresa que vai democratizar o acesso e o impacto de tecnologias, para resolver problemas como a cura do câncer, como a inclusão das pessoas pela acessibilidade. 

Desenvolvemos um aplicativo recente chamado Seeing AI, tecnologia de inteligência artificial para a visão. Usando essa aplicação no seu dispositivo, uma pessoa que tem uma deficiência de visão consegue enxergar o mundo através do seu celular, com uma voz narrando.

É como se eu estivesse aqui com o celular, e ele me dissesse que ali há uma pessoa com uma câmera, as pessoas estão sorrindo/não estão sorrindo para você. Imagine o quanto isso não muda na inclusão das pessoas.

Em educação, como usamos a inteligência artificial para impedir a evasão escolar? Para melhorar a qualidade do processo de aprendizagem? Para ampliar o potencial e a capacidade de impacto do professor? Isso muda o mundo. A educação é um dos grandes desafios do Brasil. 

E o último exemplo que eu queria dar é o da saúde. Temos o envelhecimento da população. Como será o sistema de saúde nos moldes tradicionais? Talvez a inteligência artificial e a capacidade computacional possam ajudar a criar modelos novos e escaláveis, que levem a qualidade da medicina até os rincões do Brasil.

Quais serviços já estão disponíveis e o que estão desenvolvendo na área da saúde, educação e de acessibilidade? 

A plataforma que temos tem toda a capacidade para que desenvolvedores ao redor do mundo façam as aplicações que enxergarem ter maior potencial. O nosso trabalho como empresa é disponibilizar a tecnologia. Hoje há mais de um milhão de desenvolvedores, por exemplo, trabalhando com inteligência artificial ao redor do mundo. 

Dentro da nossa plataforma, temos serviços inteligentes, análise cognitiva, linguagem natural [transformar texto em fala, fala em texto]. Temos serviços disponíveis gratuitamente na internet como o Skype Translator, no qual você fala mandarim de um lado, inglês do outro, português de um lado, espanhol do outro. Isso encurta as distâncias, melhora a convivência e o relacionamento entre as pessoas.

A tecnologia agrega ou isola?

A nossa visão é de que a tecnologia veio para ampliar a capacidade humana.

A história mostra que as tecnologias são disruptivas, promovem saltos de desenvolvimento para a humanidade, mas elas também podem ser usadas para o bem e para o mal. Não há como não ter esse olhar. Então vai depender da nossa habilidade como humanidade em usar essas tecnologias para o bem. 

Por exemplo, imagine se um desenvolvedor que estiver fazendo uma aplicação com inteligência artificial colocar seus próprios vieses inconscientes naquele algoritmo. Ele vai perpetuar desigualdade, falta de transparência, questões de privacidade. Estamos tão preocupados com isso que temos divulgado um código de conduta: quais são os princípios necessários para se desenvolver inteligência artificial. 

Com a chegada da penicilina, o que aconteceu com a saúde humana? Com a chegada do automóvel, da industrialização, o que aconteceu com a sociedade? Foi sempre para melhor, mas isso obviamente também pode ser usado para o lado não positivo, mas temos de nos proteger com princípios claros e tentando pautar esse desenvolvimento da forma mais construtiva possível.

Tecnologia a serviço das pessoas

Crimes digitais obrigam atualização permanente

UOL - Qual a sua opinião sobre o combate ao roubo de dados no Brasil?

Paula Bellizia - A questão da segurança e da privacidade são cruciais neste momento. Até bem pouco tempo atrás a segurança cibernética caminhava junto com a privacidade de dados, parecia até um complemento um do outro. Hoje não necessariamente.

Passamos e passaremos por situações nas quais esses dois pilares são conflitantes. Em que medida defender a segurança de um grupo de pessoas passa pela questão de privacidade? Em que medida há conflito entre essas duas questões? Procuramos fazer parcerias que mostrem a importância de considerar essas duas questões.

Recentemente assinamos um memorando de cooperação com o Ministério Público de São Paulo. Temos tecnologia que pode ser colocada a serviço do MP, que vai fazer o uso para chegar ao melhor resultado do seu trabalho. Ele, sim, tem poder de regulamentação e punitivo em relação aos crimes cibernéticos.

Temos vencido as batalhas contra os crimes digitais?

Acredito que é uma situação cada vez mais de atenção, cada vez mais crítica, porque as pessoas que estão do outro lado do crime cibernético também estão fazendo avanços claros e rápidos.

Temos sido bem-sucedidos identificando de onde partem esses ataques, que tipo de código malicioso esses ataques estão jogando para raptar máquinas ao redor do mundo inteiro. Temos conseguido chegar a essas pessoas. Mas de nenhuma maneira isso significa que o crime cibernético está resolvido.

Com tantos crimes, a tecnologia é confiável?

A tecnologia tem que ser atualizada na mesma velocidade em que os crimes e os perigos estão acontecendo na internet.

Os carros mais antigos não têm as proteções de airbag que a gente tem hoje, ou a disponibilização dos cintos de segurança para todos os passageiros. Hoje é lei, hoje precisa porque a velocidade é maior, as condições das estradas são diferentes, então você precisa atualizar o que era o mais tecnológico há dez ou 15 anos para as condições de hoje. Acontece exatamente a mesma coisa com a tecnologia digital. Você precisa estar atualizado frente aos desafios atuais. 

A Microsoft sempre esteve posicionada nos desktops, mas o mundo mudou para o celular, para os smartphones. Quais são os desafios da empresa em relação a isso?

Mobilidade, sem dúvida nenhuma, é uma questão importantíssima. As pessoas transitam o tempo inteiro, e os smartphones trouxeram essa mobilidade. Continuamos sendo a empresa que oferece a experiência de mobilidade do ponto de vista de aplicações de produtividade, de colaboração.

Como é convencer pequenas empresas a colocar seus dados em nuvens?

É surpreendente como isso é extremamente bem aceito pelas pequenas empresas no Brasil. Antes uma pequena empresa precisava pagar um alto valor, comprando uma licença de Office ou CRM ou de banco de dados. 

Hoje temos um modelo como serviço, os clientes pagam o que usam, pagam mensalmente, acaba sendo um aluguel mensal. E você não imagina como esse modelo foi absorvido e muito bem aceito pelas pequenas empresas no Brasil. É uma das áreas em que mais crescemos. 

Outra parte importante: o Brasil tem um mercado de startups muito grande. Não existe um censo oficial, mas acreditamos que existam entre 6.000 e 8.000 no Brasil. Antes, para uma empresa oferecer algum serviço de tecnologia, algum aplicativo ou game, era preciso investir em servidores, data centers. 

Hoje não, elas vão pagar pelo uso dessa tecnologia à medida que necessitam para fazer esse desenvolvimento. É um modelo muito mais flexível. Antes era duro, havia um jeito só, investir. Hoje você pode alugar, você pode usar e depois pagar, pode comprar. Existem diversos modelos.

Qual a importância da Microsoft Brasil para a matriz?

Representa um mercado absolutamente importante. Primeiro porque há pouco tempo redefinimos a nossa missão como companhia, que é fazer com que cada pessoa, cada organização no planeta faça mais, seja empoderada por meio de tecnologia. O Brasil, que tem ainda tanta oportunidade do ponto de vista da competitividade, produtividade, é muito importante para que possamos colocar a tecnologia a serviço nesse momento do país. 

Do ponto de vista de tamanho de negócio, o potencial é inegável. É um dos principais mercados. Deixamos isso claro pelos investimentos que temos feito no Brasil.

Como equilibrar desenvolvimento tecnológico, inteligência artificial, com a geração de empregos?

A equação do futuro do trabalho com a presença cada vez maior da tecnologia vai precisar ser repensada.

Não acreditamos na substituição da humanidade pela tecnologia. Acreditamos na ampliação da capacidade humana através da tecnologia.

Geramos dados em um volume, uma velocidade tão exponencial que é humanamente impossível tratar esses dados sem o auxílio da tecnologia. Quantos diagnósticos médicos para tratar casos de câncer não são feitos todos os dias, em todos os lugares do planeta? A tecnologia tem que ajudar a armazenar esses diagnósticos para chegar cada vez mais a diagnósticos precisos para cada pessoa. 

Acreditamos na ampliação da capacidade humana. Isso quer dizer que não vai haver nenhuma substituição ou mudança na sociedade? Não, vai haver, vai haver transformação dos trabalhos. Algumas tarefas, alguns trabalhos serão passíveis de automatização, porém outros tantos trabalhos serão criados.

Vai haver, sim, uma transição entre algumas profissões e alguns trabalhos existentes hoje, que poderão ser automatizados em menor ou maior escala, até que a população esteja preparada e educada para as profissões do futuro.

A nossa maior preocupação tem a ver com a educação. Como vamos treinar pessoas que estão nessas posições que serão transformadas? 

Os setores privado e público precisam fazer uma parceria para que pessoas nesse momento da equação não sejam impactadas ou sejam da menor forma possível. É uma grande oportunidade para o país ter uma agenda clara de transformação da educação para que a gente esteja preparado para o que vai vir, porque virá.

A reforma trabalhista ajuda a criar novos empregos?

Acreditamos que a flexibilização faz sentido. A reforma trabalhista não é só na forma de contratação, mas as novas gerações também querem trabalhar por projetos.

Por exemplo, os desenvolvedores são talentos altamente disputados no mercado, inclusive no Brasil. Como eu atraio esse talento para estar comigo, será que é só com CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]?

Talvez não, talvez ele queira trabalhar por projetos e, quando esse ciclo de projetos terminar, ele quer ir para outro, que pode estar aqui na Microsoft, no parceiro, pode estar fora do Brasil.

Saber onde estão nossos dados

A Microsoft é assim:

  • Fundação

    1975

  • Operação no Brasil

    1989

  • Funcionários diretos

    788 no Brasil, 131 mil no mundo

  • Empresas parceiras

    20 mil

  • Escritórios e centros tecnológicos

    4 no Brasil, 150 no mundo

Não dá para inovar com pensamento único

UOL - A senhora defende uma bandeira de diversidade na empresa. Quais os desafios?

Paula Bellizia - A Microsoft está passando por uma transformação enorme, e uma parte importante disso é a cultura. Entre os atributos de cultura que queremos construir globalmente como empresa, estão diversidade e inclusão.

Como uma empresa de inovação, a nossa indústria não respeita tradição, e sim inovação.

Não há como chegar à inovação com todos pensando igual. Você precisa de todas as cores, de todas as formas, experiências, nacionalidades, de todos os modelos diferentes de pensar. A diversidade e a inclusão estão na base da nossa cultura. 

Em cada contratação, temos que chegar ao final do processo com uma finalista e um finalista, não importa o cargo, se é técnico, gerencial, se é de presidente da Microsoft Brasil. Precisamos ter oportunidades iguais para que os participantes representem a sociedade do ponto de vista de gênero, mas não só, nós temos que ter todas as cores dentro da Microsoft, todos os modelos de pensar.

Isso é diversidade para a gente: gênero, raças, gerações, LGTB+, pessoas com deficiência, acessibilidade. 

Qual a sua opinião a respeito das cotas em universidades, escolas, empresas?

Nós não temos usado essa estratégia. A nossa é de realmente promover a inclusão, mostrar para as pessoas dentro da Microsoft Brasil a importância da diversidade como diferencial competitivo.

Imagine se eu não conseguir atrair mulheres desenvolvedoras? Essas mulheres técnicas estão indo para algum lugar e não estão vindo para a Microsoft Brasil. Eu não posso deixar isso acontecer.

E sobre os salários das mulheres? São iguais aos dos homens?

Dentro da Microsoft existe equiparação salarial entre homens e mulheres. A nossa visão é que para o mesmo trabalho tem que haver o mesmo salário. Anunciamos isso em 2016. Isso é uma coisa estática? Não, porque o mercado é dinâmico. Há necessidade de isso se manter como política, como um olhar do que precisa ser feito. 

Como a Microsoft faz a prospecção de talentos?

A pergunta que temos tentado fazer é: que impacto, que contribuição esse perfil pode trazer para a Microsoft? Como incluir essas pessoas numa equação interna que vai trazer mais contribuição, mais inovação, mais inclusão, diversidade para as nossas iniciativas internas? 

Contratamos professores porque uma pessoa técnica não sabe qual é o impacto da tecnologia dentro de uma sala de aula, precisamos de professores aqui dentro. 

Acabamos de contratar alguns PhDs médicos lá fora porque queremos avançar cada vez mais rápido na inteligência artificial para a cura do câncer, para pesquisa de genoma, e médicos precisam ser trazidos para essas discussões e não pessoas de tecnologia. Estamos pensando cada vez mais assim.

Uma experiência importante é que ampliamos o foco de universidades de onde contratamos. Até um passado bem recente, contratávamos só das universidades A, B ou C, e isso queria dizer que era a perpetuação da concentração de oportunidades para determinado extrato da sociedade brasileira. 

Precisa falar um inglês maravilhoso na hora de entrar na Microsoft? Talvez não, talvez isso a gente possa ensinar, mas colaboração, atitude, energia, a forma de resolver problemas vem muito mais da natureza das pessoas.

Para chegar onde a senhora chegou é preciso ter sido "mais dura" do que os homens?

Sempre trabalhei duro, mas não acho que seja uma pessoa dura. Sou muito exigente. As pessoas que trabalham comigo, em geral, falam que não sou boazinha, mas nunca faltei com o respeito. O respeito à pessoa é um princípio básico que não pode faltar. Agora a barra tem que ser alta porque preciso entregar resultado. Acho que dá para ser dura e exigente com os problemas e respeitosa com as pessoas.

Keiny Andrade/UOL e Arte/UOL

Curtiu? Compartilhe.

Topo