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Geolocalização? Agências no interior devem lutar contra estigma de "locais"

Mathias Pape/UOL
Imagem: Mathias Pape/UOL
Alexandre Bassora

Formado em Publicidade e Propaganda pela PUC-Campinas, tem MBA em Gestão em Marketing de Serviços pela ESPM. Fundador e diretor-geral de Criação da Audaz, uma casa de negócios em comunicação que emprega profissionais multidisciplinares para ressignificar a relação entre marcas e pessoas.

03/08/2020 04h00

Viver e empreender no interior é de uma riqueza tão incrível quanto à vida nas capitais. Mas diferente. Acessamos o mundo, desfrutamos das virtudes das metrópoles e voltamos para viver e trabalhar com qualidade no "countryside".

Ainda que figure no imaginário coletivo, não se vê vaquinhas ou galinhas cruzando as ruas das cidades por aqui. Ainda há um estigma da vida e do trabalho no interior. Isso é tão ultrapassado, mas é fato.

No jogo das agências de propaganda há atores desse mundo interiorano e clientes com perfis diferentes? Sim. Menores e com menos recursos de investimento? Às vezes. Com menos cultura de comunicação em marketing? Muitas vezes.

Com necessidade de que os esforços sejam ainda maiores para 'evangelizar' a respeito da importância do quarto P (promoção) no mix de marketing, seu respectivo poder de transformar marcas e empresas? Sim, frequentemente.

Agências são casas de negócios: e o interior é um berço de universidades e centros de estudos de alto padrão

Estar no interior não significa atender apenas empresas sediadas no interior. As áreas criativas e de negócios da agência que comando têm, por exemplo, mais de 10 marcas no portfólio, geridas e administradas por equipes de marketing em diferentes escritórios na capital do estado.

Agências estabelecidas no interior devem lutar contra o estigma de ter negócios apenas no âmbito local. É um desafio gigante. É possível estar presente de norte a sul do país. Quebrar barreiras de presença latino-americana (ou continentais, até). Do interior para o mundo.

Mais espaço para relações humanas nos negócios

As agências deveriam ser "não-agências". Deveriam ter atenção para redesenhar seus enfoques e escopos de trabalho.

O design e a tecnologia, agora também a gestão de negócios e a inovação, são disciplinas fundamentais acopladas à comunicação. Criatividade elementar, intrínseca. Tudo isso pensando nas pessoas, um passo à frente. 100% tecnológico, 110% humano. 100% design estratégico, 110% da estratégia feita por e para pessoas.

Utilizar frameworks de "growth hacking" —mas ouvir, ler e orientar os projetos mais sob o prisma do "people feelings". Agências são casas de negócios e o interior é um berço de universidades e centros de estudos de alto padrão, capazes de abastecer o mercado com os perfis necessários de profissionais.

Quarentenas locais e severas

Desde o início da pandemia, com a quarentena local mais severa, seguramos firmes e unidos para encararmos os desafios, especialmente com os clientes e os negócios localizados nas cidades do interior.

Junto às lideranças de minha equipe decidimos aderir ao "Não demita - #naodemita" e resistimos duramente para manter os empregos por mais tempo que os dois meses de compromisso com o movimento.

O mundo se isolou. Não parou. Marcas também não deveriam deixar de comunicar, especialmente durante a pandemia

O mundo se isolou. Não parou. Não deixamos de viver, consumir. Portanto, marcas também não deveriam deixar de se relacionar, comunicar, especialmente durante a pandemia. Rever seu papel, seu modo de construir relações. Mais fazendo do que falando.

Hábitos, comportamentos, jornada de vida, trabalho e consumo, renda e acesso, naturalmente tudo isso sofre influência das condições do mundo, do ambiente que nos cerca diariamente. Nosso local de vida. E isso tem influência geográfica.

Agora, conhecimento, sentimentos, competência, ousadia e destreza não deveriam estar atrelados às questões geográficas.

Se tantas barreiras foram quebradas, vide o momento "real-time meetings" que vivemos, como ainda parametrizar a qualidade profissional e o conhecimento por presença física ou geográfica?

Diga sua localização no Google Maps que será possível definir quão incrível você é?

Transformar para resistir e evoluir

Podemos observar que diversas empresas, as locais especialmente, interromperam ou diminuíram sensivelmente seus projetos e trabalhos de comunicação.

Algumas, certamente pelo impacto da crise econômica. Outras, possivelmente por falta de conhecimento e de compreensão sobre a importância do papel da comunicação para seus negócios.

Este é, sem dúvida, além da baixa competitividade de marcas em alguns segmentos de mercado, um dos grandes desafios de se gerir empresas de comunicação de marketing fora dos grandes centros.

No entanto, e, aos poucos, é possível e necessário se ajustar. Seguir um ciclo infinito de transformação. Darwin nos ensinou que a força está na capacidade de nos adaptarmos.

O que mais difere a capital do interior?

Outro aspecto que difere uma agência do interior de uma da capital são os recursos administrados, o montante de investimento na comunicação de marketing.

Mas isso está mudando. A pesquisa IPC Maps 2020 aponta para interiorização do potencial de consumo do país.

Enquanto as capitais responderão este ano por 28,29% do total deste potencial de consumo, e as cidades das regiões metropolitanas por 16,9%, o interior avançará com 54,8%.

Há um universo de desafios —e de oportunidades no interior. A covid-19 intensificou ambos. Há muitas virtudes e prosperidade aqui, tanto quanto nas capitais. Nosso sotaque com "R" marcado tem um charme. Mas não é só charme.

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