PUBLICIDADE
IPCA
1,16 Set.2021
Topo

Mídia e Marketing

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Estamos comunicando para pessoas cansadas - e isso muda muita coisa

Getty Images
Imagem: Getty Images
Danilo Janjacomo

Danilo Janjacomo

Danilo Janjacomo é vice-presidente de criação da Isobar. Se autodefine como um amante da inovação, das tecnologias e de estar cercado por gente. Procura trazer para a comunicação, valores que impactam positivamente a vida das pessoas, além de promover o coletivo e valorizar a diversidade e a verdade, melhorando, assim, a sustentabilidade dos negócios em toda a cadeia. Foi diretor de criação da Wunderman Thompson para Avon e Netflix e teve passagens pela 9ine, Ogilvy, McCann e pela Bossa Nova Filmes.

10/03/2021 04h01Atualizada em 10/03/2021 10h59

Por muito tempo, agências de propaganda e marcas têm debatido e explorado o tema "Como disputar a atenção do consumidor que está em tantos lugares ao mesmo tempo". De fato, o assunto é relevante, mas existe uma outra camada que estamos começando a nos dar conta e que tem causado um impacto universal e inédito em sua amplitude: as pessoas estão cansadas.

Os últimos acontecimentos e as mudanças do mundo têm elevado o índice de depressão a níveis nunca antes vistos. Vivemos no país mais deprimido da América Latina e um dos mais deprimidos do mundo, segundo o último levantamento da USP. E não faltam motivos para isso.

Há um desalinhamento gigantesco acontecendo quando a evolução tecnológica não segue a capacidade do ser humano a se adaptar. São atualizações constantes que precisam ser incorporadas em tempo recorde. Por mais que tentemos, já temos a consciência que nunca será o suficiente. Algo está sendo perdido, está ficando velho em apenas um dia, e o medo de chegar numa roda de amigos e ouvir a frase: "Como você não viu isso? Postaram ontem", é real. Ninguém gosta de se sentir desatualizado.

No podcast de tecnologia Resumido #98, o jornalista Bruno Natal traz a reflexão e a pergunta: "Precisamos aprender tudo tão rápido assim?", e também coloca na equação a ascensão dos Luddistas - pessoas que se opõem à industrialização intensa ou a novas tecnologias, se referindo ao Movimento Inglês do século XIX, em que trabalhadores quebraram máquinas de uma tecelagem nos primórdios da revolução industrial, como tentativa de não parar a produção, mas brecar um evolução que desconsidera o impacto social.

E vão se somando a estes cenários a sensação brutal da falta de controle, da vulnerabilidade que faz pensar obrigatoriamente no aqui e agora causando um choque de realidade. Não dá tempo de pensar no futuro, e mesmo que encontremos este tempo, como ele se mostra? Existe um ditado alemão que a diz que a alegria antecipada é a maior alegria. Mas esta está longe de ser idealizada diante de um cenário onde tudo parece pior e improvável.

A reflexão sobre o contexto em que nosso trabalho está inserido nos dá o sinal de que precisamos parar para pensar se o que estamos oferecendo por meio de nossas marcas/produtos aos nossos consumidores/pessoas são mais problemas ou soluções. Se estamos propagando ainda mais ansiedades ou um olhar mais atento e empático ao que cada grupo agora, neste minuto, está passando.

Pautas coletivas e urgentes, como o combate ao racismo, LGBTQIA+fobia, violência contra mulheres, entre tantas outras, de tanto serem comentadas na velocidade do "não acompanhamento e aprofundamento", se desgastam antes mesmo de efetivamente serem resolvidas, estudadas e planejadas. Mas continuam nas notícias e na vida. As pessoas estão sem tempo de processar tanto. A solidariedade que se mostrou como uma esperança de um efeito colateral da pandemia se desfaz na frente de milhões de brasileiros em linchamentos virtuais diários. Isso tudo ao mesmo tempo.

Valores, como representatividade, cocriação, e o pensamento de como nossas agências, verdadeiramente, podem representar uma sociedade e não falar por ela, podem ajudar para que a nossa fala não fique obsoleta, desconectada. Caso contrário, estaremos vivendo dentro de um Hex de WandaVison.

Talvez seja o momento de refletirmos se o "Compre já" e o "Clique agora", não devam esperar e darem lugar a algo mais urgente. Algo que fale sobre as nossas vidas, que hoje estão em risco. A pressão de se sentir desatualizado aponta uma oportunidade imensa para que marcas junto a uma tecnologia humana e relevante encontrem novas funções e papel na vida destas pessoas genuinamente. Ações e mensagens que ajudem a pensar, agir, ensinar, educar, conscientizar e entreter. Encontrar um espaço de proximidade e pertinência a ser ocupado com responsabilidade.

Por isso, sempre vale dar aquela paradinha antes de seguir e pensar que o destino das nossas ideias irá, inevitavelmente, encontrar pessoas que agora estão cansadas, muito cansadas.

PUBLICIDADE

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Mídia e Marketing