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Carla Araújo


País tem mil mortes por dia, e Bolsonaro prefere fazer piada com cloroquina

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

19/05/2020 21h47

Os números em relação ao coronavírus no Brasil, infelizmente, ainda seguem uma curva ascendente. Com ministro da Saúde interino, o país contabilizou nesta terça-feira a marca de 1.179 óbitos, o que significa uma morte a cada 73 segundos.

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro segue firme na sua campanha pela cloroquina e não esconde que o uso ou não do remédio será também politizado. "Quem for de direita toma cloroquina, quem for de esquerda toma tubaína", disse na noite desta terça-feira, durante uma live, pouco depois da divulgação dos novos números de vítimas da doença.

O presidente exaltou a democracia para falar do remédio, mas esqueceu que a Constituição (ainda que utopicamente) garante acesso à saúde a todos os brasileiros. E que ele, apesar de eleito por uma parte dos brasileiros, deveria pensar em governar para todos.

Comunicação "poliana"

Assim como o presidente tem adotado uma linha de combate na narrativa em torno da doença, a comunicação da Presidência tem adotado uma linha "poliana", que procura o lado bom de todas as situações.

No perfil da Secretária de Comunicação da Presidência no Twitter, ferramenta bastante utilizada pela família Bolsonaro, uma mensagem da última segunda-feira (18) dizia que o Brasil tinha motivos para "comemorar" o número de pessoas recuperadas da doença e não lamentava o número de mortes.

"Hoje o Brasil comemora 100 mil vidas salvas em meio à crise mundial. Mais precisamente, 100.459 pessoas curadas em todo o país. Enquanto muitos focalizam a morte, o governo do Brasil trabalha pela vida e celebra a vida", diz a postagem.

A questão é que infelizmente não é vontade de ninguém "focalizar a morte", mas não dá para ignorar que milhares de famílias estão sofrendo e, muitas vezes, sem conseguir enterrar entes queridos.

As postagens do Twitter oficial da Secom são feitas pela equipe comandada por Fabio Wajngarten. Em sua descrição, o perfil afirma que vai "manter diálogo direto e combater as fake news".

Um dos responsáveis pela estratégia digital do Planalto, Mateus Colombo Mendes, afirmou que "são os fatos. E somos os responsáveis por aquilo que publicamos".

Questionado se as orientações partiam diretamente do presidente Bolsonaro, o assessor —que se declara olavista e bolsominion— afirmou que há uma "orientação da realidade: 100 mil brasileiros foram salvos; a Secretaria de Comunicação...comunica isso; graças a Deus, temos um Presidente que está de acordo com a realidade; infelizmente, parte da imprensa ignora a realidade", respondeu à coluna.

Outros auxiliares do Planalto, porém, admitiram que era preciso um pouco mais de sensibilidade e empatia. "Acho de mau gosto, mas entendo a narrativa", disse. "Comemorar é uma palavra muito forte", admitiu outra fonte.

Carla Araújo