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Carla Araújo

Cena de Guedes sendo retirado de entrevista reflete pedido de Bolsonaro

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

25/09/2020 12h34Atualizada em 25/09/2020 17h26

A cena em que o ministro da Economia, Paulo Guedes, é fisicamente orientado pelo general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, a parar de falar aos jornalistas, na quarta-feira (23), sintetizou uma ordem expressa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Depois de ameaçar cartão vermelho para a equipe de Guedes ao tomar conhecimento de suas propostas pela imprensa, Bolsonaro determinou que a comunicação das medidas econômicas do governo seja mais cautelosa.

A ordem foi: "Falem, não quero vazamentos, mas cuidado para não falar demais".

Estava combinado. O líder do governo, Ricardo Barros, que tem conquistado a confiança do presidente e de seus ministros, incluindo Guedes, começou a falar. Entre outras coisas, disse que tudo seria alinhado com o Congresso. Fez o aceno aos seus pares.

Chegou a vez de Guedes. O ministro, então, iniciou seu pronunciamento falando que a recuperação econômica do Brasil, pós pandemia do coronavírus, está voltando em "V". Reiterou acreditar que ainda vai aprovar reformas.

Era para acabar ali. Não havia espaço para perguntas. Por mais que os jornalistas tentassem, eles não deviam responder nada.

Mas Ricardo Barros teve uma lembrança, e voltou com a mensagem: "Reafirmamos nosso compromisso com o teto de gastos e o rigor fiscal".

Guedes se incomodou. Tirou novamente a máscara, tentou falar na mesma hora que o líder. Quem conhece o ministro diz que "a vaidade em ver alguém falar sobre um assunto que lhe diz respeito incomoda mesmo".

Não era só Ramos e Barros que estavam ao redor do ministro. Não por acaso, estava lá também o ministro das Comunicações, Fabio Faria, que nem quis fazer uso da palavra.

Então, aconteceu parte do que Bolsonaro e sua equipe temiam. Guedes voltou a falar. "Queremos desonerar, queremos ajudar a buscar emprego, facilitar a criação de empregos. Então, vamos fazer um programa de substituição tributária".

O ministro, que reconhece que às vezes fala demais, seguiu sua declaração e acabou usando uma expressão que chamou a atenção: "Então, temos que desonerar folha. Por isso, a gente precisa de tributos alternativos, para desonerar a folha e ajudar a criar empregos e renda, a mesma coisa".

"Tributos alternativos"? Falar em mais impostos? Isso não estava no roteiro.

Auxiliares do ministro, que estão sob a ordem de silenciar após o episódio de Waldery Rodrigues, minimizam o episódio. Defendem Guedes e dizem que ele "segue com sua agenda liberal e tem o apoio do presidente".

Em lua de mel

A forma como o ministro Ramos tocou as costas de Guedes, cena que foi destacada em câmera lenta pela emissora CNN, pode ter parecido grosseira. Mas após o rompimento do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com Guedes, a relação entre o mandatário da Economia e o ministro Ramos, dizem, está "melhor do que nunca".

A ideia de tutela de Guedes ficou mais marcante, quando já saindo do púlpito, Guedes aponta para Ramos o conduzindo para os elevadores do Planalto e afirma: "Agora temos articulação (política)".

Auxiliares de ambos garantem que não houve ironia na fala: "Eles vivem uma lua de mel".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.