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Carla Araújo

Empresários avaliam que 5G entrará na conta da China na briga por vacinas

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

21/01/2021 04h00

Enquanto diplomatas tentam reverter o imbróglio com a China para a liberação de insumos para vacinas, o empresariado brasileiro acredita que a situação deve ter reflexos em outras negociações entre os dois países, como a participação da empresa Huawei Technologies no leilão de tecnologia 5G, que deve acontecer neste ano.

"Não estamos dizendo que eles têm o melhor produto, estamos falando que se trata de uma economia de mercado e que espera-se que a China tenha o direito de participar", disse o CEO do Lide China, José Ricardo dos Santos Luz Junior.

A avaliação feita por empresários acostumados em uma rotina de negociação com os asiáticos é de que a China colocou o Brasil "de castigo", ou no "canto do pensamento", ao atrasar a entrega dos IFAs (Ingrediente Farmacêutico ativo) que serão usados para a fabricação tanto da CoronaVac/Butantan como da Oxford/AstraZeneca. A ideia seria sensibilizar o governo brasileiro de que declarações extremistas e agressivas contra os chineses podem ter consequências graves para as duas economias.

A expectativa do empresariado brasileiro é que, assim como o presidente Jair Bolsonaro está tendo que ajustar o discurso em relação às vacinas, o mesmo terá que acontecer na postura do 5G.

Na avaliação do diplomata Marcos Caramuru de Paiva, que esteve à frente da Embaixada do Brasil na China de 2016 a 2018 e é sócio e gestor da KEMU Consultoria, a situação atual mostra a importância de uma postura mais madura por parte do Brasil.

"Todo esse episódio mostra que temos que buscar sempre um diálogo sério e amadurecido com os países e seus representantes", afirmou à coluna. Questionado se essa mudança de postura também deve acontecer em relação ao 5G, Caramuru disse: "Espero que sim". Desde o ano passado, Caramuru atua como embaixador da plataforma de atração de investimentos de Xangai, na China, a InvestShanghai.

Os principais críticos da tecnologia chinesa no governo costumam fazer acusações de espionagem, mesmo sem provas. Empresários salientam que a empresa chinesa já está no Brasil há mais de 20 anos e oferece as principais ferramentas para as operadoras de telecomunicação. Sendo assim, caso a chinesa fosse de fato excluída do leilão, haverá um período maior de adaptação da tecnologia 5G, que necessariamente aumentará o custo ofertado ao consumidor brasileiro.

Mourão como porta-voz

O CEO do Lide China afirmou que acredita que o vice-presidente, Hamilton Mourão, seria o porta-voz mais indicado tanto nas tratativas com a vacina, como com o 5G.

"Mourão tem o canal adequado, já que preside a Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação) e sempre tentou corrigir os ponteiros nas negociações. É um apaziguador", disse Luz.

À coluna, Mourão, que sempre se colocou contra a posição antichina de Bolsonaro e da ala ideológica, disse apenas que até o momento as negociações "continuam a cargo do MRE".

A postura de Mourão com declarações que contradizem o presidente costuma irritar Bolsonaro. Nesta quarta-feira (20), por exemplo, após ter sido alvo de reclamações na conduta da comunicação, o Ministério das Comunicações divulgou uma nota afirmando que "o governo Federal é o único interlocutor oficial com o governo chinês".

Chama a Tereza

Se Bolsonaro não abriu ainda espaço para Mourão, as negociações contam com a participação da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e dos ministros Eduardo Pazuello (Saúde) e Fabio Faria (Comunicações).

Na nota divulgada nesta quarta, o governo brasileiro informou que o Ministério das Relações Exteriores, por meio da embaixada do Brasil em Pequim, tem mantido negociações com o Governo da China e que outros ministros do Governo Federal têm conversado com o Embaixador Yang Wanming.

"No dia de hoje (20), foi realizada com o Embaixador, uma conferência telefônica com participação dos ministros da Saúde, da Agricultura e das Comunicações", afirmou o governo.

Para o CEO do Lide China, Tereza Cristina tem um papel fundamental nas articulações já que a pauta comercial entre os dois países é basicamente de commodities. "Nós temos quatro pilares de exportação: minério de ferro, soja, petróleo e celulose, que possuem um peso muito grande. Tereza é habilidosa, fala mais do que escuta", disse.

Um episódio lembrado por empresários para destacar a habilidade de Tereza Cristina é quando ela esteve na China em maio de 2019, reforçando que o momento era de construir pontes.

Tereza também ajudou a arrefecer os ânimos, em abril de 2020, quando havia um desgaste muito grande com as declarações públicas do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, que ironizou o sotaque chinês usando quadrinhos da Turma da Mônica e acusava a China de esconder informações sobre o coronavírus.

Parceria global é maior que ideologia

A despeito dos recentes impasses com o governo Bolsonaro e com a pauta ideológica do governo brasileiro, empresários afirmam que a relação entre os dois países é "profícua", ou seja, vantajosa para os dois lados. Além disso, ressaltam que há uma longa trajetória de negociações entre os dois países.

Desde a década de 1990 o Brasil já é considerado pelos chineses como parceiro estratégico. No governo da então presidente Dilma Rousseff (2011-2016) a China começou a tratar o Brasil como parceiro estratégico global.

"A China não vê o Brasil a partir de um mandato de quatro anos. A China vê o Brasil como parceiro estratégico de longo prazo", diz Luz Júnior.

Apesar de o Lide ser originalmente ligado ao governador de São Paulo, João Doria, o CEO do Lide China diz que há uma postura de total independência em relação ao tucano. Doria é tido hoje como um dos principais adversários de Bolsonaro na eleição de 2022 e arrematou recentes vitórias em relação ao presidente com o início da vacinação no Brasil.

Para a entidade, que, desde 2013, reúne 1.700 empresas que fazem negócios com os chineses, segundo o CEO, o interesse é que a pauta comercial supere a agenda política do momento.

Nos últimos anos, a balança comercial entre os dois países ficou na casa dos R$ 100 bilhões. Mesmo em 2020, com a pandemia e retração econômica, o patamar foi mantido.

"Brigas, palavras e ofensas ficam gravadas e não ajudam. Por isso, acho que é a hora do Brasil tratar melhor seu principal parceiro, independente da ideologia. E isso inevitavelmente passará pela permissão de que eles estejam no leilão de 5G", diz.

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